Magistrados receberam texto sobre ‘reviravolta’ no caso do colega afastado após denúncias de assédio; jornalista que atuou em seu gabinete é citada em apuração interna 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Marco Buzzi, ministro do STJ, em entrevista: afastado do cargo, magistrado pode se tornar o segundo a receber aposentadoria compulsória; investigação criminal corre no Supremo — Foto: Luiz Silveira/Agência CNJ/25-11-2015 Uma investigação interna do Superior Tribunal de Justiça (STJ) aberta para apurar o disparo de mensagens a magistrados da Corte em defesa do ministro afastado Marco Buzzi, alvo de denúncias de assédio sexual que teriam ocorrido inclusive na sede da instituição, associou a operação digital a uma ex-assessora de seu gabinete. O envio das mensagens para os contatos dos ministros é vista dentro do STJ como um caso estratégia de intimidação e desinformação. A equipe da coluna teve acesso a trechos de uma apuração sigilosa do tribunal, o segundo mais importante do país, que atribui o número do celular à jornalista Iara Rebelo de Souza, que atuou como assessora de Buzzi por três meses em 2018. Segundo a equipe da coluna apurou com fontes que acompanham de perto o caso, Iara chegou a ser apontada como uma das testemunhas de defesa pelos advogados do magistrado na sindicância interna do STJ, que pode levar à expulsão de Buzzi e também tramita sob sigilo. Ela, no entanto, acabou não prestando depoimento, já que a defesa do magistrado desistiu da oitiva. A expectativa é a de que o plenário do STJ se reúna em agosto para decidir o destino do ministro – a Procuradoria-Geral da República (PGR) defende a aposentadoria compulsória do magistrado. O texto disparado a integrantes do STJ, enviado por um telefone com DDD da Região Metropolitana de Porto Alegre, se referia a uma suposta guinada no curso das investigações. “Reviravolta no caso Marco Buzzi, ministro do STJ acusado de assédio sexual: uma das supostas vítimas diz que não houve nada e que ele sempre foi respeitoso. O depoimento em cartório [foi] juntado aos autos” dizendo que uma das “supostas vítimas” afirmou em depoimento “que não houve nada” e que “ele sempre foi respeitoso”, dizia a mensagem. As acusações contra Buzzi foram apresentadas por duas mulheres: uma funcionária terceirizada que trabalhou no gabinete dele na função de secretária, e uma jovem de 18 anos, que o acusa de tentar agarrá-la na praia de Balneário Camboriú (SC), em janeiro deste ano, durante férias com a família do próprio ministro. Segundo a equipe da coluna apurou, as duas vítimas não recuaram nos seus relatos. A defesa de Buzzi foi atrás de uma terceira mulher, que foi citada no depoimento de uma das vítimas — mas que negou ter conhecimento dos episódios de assédio. Logomarca No WhatsApp que disparou a mensagem aos ministros sobre o caso Buzzi, o número está associado a uma conta profissional sem selo de verificação com sede autodeclarada em Porto Alegre e expediente entre 9h e 16h, com atuação em “comunicação institucional”. A foto do perfil é a logomarca de uma empresa denominada Infólio Comunicação, que tem Iara como sócia ao lado da irmã, Marília. O vínculo com a companhia também foi declarado no Currículo Lattes da jornalista. A equipe do blog tentou encontrar registros da atuação da Infólio nas redes sociais e em serviços de busca, mas não houve resultados. A logomarca usada no WhatsApp também não aparece em pesquisas públicas. Nós também telefonamos para o celular na mira da investigação do STJ dentro do suposto expediente informado, mas ninguém atendeu ou retornou o contato. Iara não foi localizada pela reportagem. Segundo a apuração interna, o número estaria formalmente associado a Wagner Ananias Alves, servente de pedreiro e morador de Goiânia, a 2 mil quilômetros da capital do Rio Grande do Sul, mas não há qualquer indício de que ele de fato seja o titular atual da linha telefônica. A apuração do STJ “não descarta a possibilidade de utilização de dados cadastrais de terceiros para a habilitação da linha telefônica”, mas frisa que essa hipótese demanda confirmação por meio das “autoridades competentes”. Como publicamos no blog no último dia 6, a Polícia Federal (PF) vai investigar o disparo de mensagens aos ministros no contexto de Marco Buzzi. Internamente, há a suspeita de que o episódio faça parte de uma estratégia para tumultuar o julgamento do plenário da Corte. Entre integrantes do STJ, o disparo de mensagens provocou indignação. “É uma vergonha isso. Como se obteve os celulares de todos os ministros do STJ?”, questionou um magistrado. Procurados por meio de assessoria, a defesa de Marco Buzzi e o ministro afirmaram ter tomado conhecimento sobre a apuração através da reportagem da equipe da coluna. Declararam, ainda, que não houve da parte do ministro “nenhuma solicitação de envio de mensagens a ministros da Corte” e que “repudiam tal conduta”. Rotina de assédio no STJ Conforme contamos na semana passada, Buzzi é acusado por uma servidora do STJ de tê-la assediado em sete ocasiões diferentes ao longo de dois anos, entre 2023 e 2025. A informação consta na manifestação em que a PGR defende a aposentadoria compulsória de Buzzi – penalidade máxima prevista atualmente na Lei Orgânica da Magistratura Nacional – dentro da sindicância interna que tramita no Tribunal. O ministro nega as acusações. A peça encaminhada ao STJ, assinada pelo subprocurador-geral da República José Adonis, narra em detalhes os episódios em que uma assessora do tribunal vinculada ao gabinete do ministro é apalpada, estapeada e agarrada pelas partes íntimas, constrangida e até encurralada em um cômodo apertado na sede da Corte, geralmente após ter um favor solicitado por Buzzi. Os episódios de assédio incluem abordagens de Buzzi com toques físicos nas nádegas da servidora em ambientes como o corredor do gabinete e na própria sala do ministro, onde ela tentou ajudá-lo a colocar um pendrive no computador. O relato da vítima foi corroborado por familiares, um namorado, assessores e até a chefe de gabinete de Buzzi. Todos os nomes foram omitidos da reportagem pelo fato do processo tramitar em sigilo e para preservar tanto a vítima quanto as testemunhas que colaboraram com as investigações. A situação era tão recorrente – e grave – que os colegas de trabalho da servidora assediada tomaram conhecimento dos episódios e elaboraram uma rotina de trabalho para evitar ao máximo que ela e Buzzi se encontrassem no gabinete a sós. A estratégia envolvia desde o remanejamento de escalas de trabalho de assessores e estagiários até um monitoramento em tempo real da movimentação do ministro nas dependências do STJ em um grupo de WhatsApp. A manifestação do Ministério Público Federal também se debruça sobre um oitavo episódio de assédio no qual Buzzi teria teria importunado sexualmente uma jovem de 18 anos que estava hospedada em sua casa de praia em Santa Catarina acompanhada dos pais, amigos próximos do ministro e da mulher dele, a advogada Katcha Buzzi. A denúncia da vítima foi a primeira a vir à tona, em janeiro deste ano, e levou à abertura da sindicância no STJ.