Desde captura de Maduro, Marco Rubio controla repasse de receitas de petróleo, sanções e nomeações; ele também mantém contato frequente com Delcy Rodríguez 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O atual secretário de Estado americano, Marco Rubio, durante audiência de confirmação no Senado, em 15 de jan. de 2025 — Foto: Eric Lee/The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 11/07/2026 - 17:00 Marco Rubio: A Influência dos EUA nas Finanças da Venezuela Após Maduro Nos últimos meses, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, tem controlado as finanças e decisões políticas da Venezuela, após a captura de Nicolás Maduro. Rubio, a partir de Washington, exerce influência significativa sobre Delcy Rodríguez, atual líder interina, controlando receitas e impondo condições de gastos. Essa relação, criticada por explorar recursos venezuelanos, desafia a soberania e alimenta tensões políticas internas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estava sentado no Salão Oval no início do ano com Marco Rubio quando teve uma ideia. Talvez devesse enviar o secretário de Estado permanentemente para Caracas, a capital da Venezuela, onde comandos americanos haviam realizado a mais celebrada conquista de política externa do segundo mandato de Trump: a captura de Nicolás Maduro, presidente do país. Rubio poderia ser o próximo líder da Venezuela, sugeriu Trump. Embora assessores digam que ele estava brincando — e que costuma provocar Rubio sobre uma missão no exterior —, o fato é que Rubio não precisa se mudar. Ele já governa a Venezuela a partir de Washington. Nos seis meses desde que forças americanas arrombaram a porta do quarto de Maduro e o capturaram durante a madrugada, Rubio passou a exercer influência sobre a nação de uma forma que nenhum funcionário americano fazia desde 2003, quando Paul Bremer chegou a Bagdá para administrar o Iraque ocupado pelos EUA. Rubio agora controla, na prática, as finanças da Venezuela, a distribuição de seus recursos naturais e seu governo, segundo entrevistas com autoridades. Embora não tenha visitado pessoalmente a Venezuela desde que os EUA assumiram o controle do país, Rubio está profundamente envolvido nas operações cotidianas do governo, mantendo contato constante com Delcy Rodríguez, que era vice-presidente de Maduro e agora lidera o país interinamente. Os dois trocam mensagens em espanhol pelo WhatsApp, compartilhando fofocas, felicitações de aniversário e selfies. Apesar do tom descontraído das conversas, a relação entre ambos está longe de ser uma parceria. Ela representa uma manifestação do poder americano na era Trump, na qual o vencedor leva tudo, independentemente da soberania e do direito internacional. ‘Cooperação renovada’ O controle direto sobre as receitas públicas da Venezuela, em especial, diferencia a influência de Washington no país daquela exercida sobre a maioria das outras nações dependentes de seu poder militar e financeiro. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos recebe a receita proveniente da maior parte das exportações venezuelanas e, em seguida, repassa esses recursos gradualmente à Venezuela por meio dos bancos privados do país, numa relação semelhante à de mesadas. Rubio e sua equipe estabelecem as condições sobre como esse dinheiro pode ser gasto e por quem. O modelo permitiu ao secretário interromper alguns dos esquemas de corrupção — e traz benefícios a Caracas, que utiliza a proteção do Tesouro americano para receber receitas sem ser perseguido pelos inúmeros credores que cobram o pagamento de bilhões de dólares em dívidas em atraso. Mas o arranjo também deu a Rubio enorme poder de influência sobre Delcy, que depende desses recursos para pagar os trabalhadores e sustentar a moeda nacional. Ele também supervisiona a aplicação das sanções americanas contra a Venezuela, decidindo quem pode fazer negócios no país e de que forma. Trabalhou para remodelar o setor petrolífero e ampliar o acesso de empresas americanas. Por sua vez, Delcy submete a ele importantes nomeações do governo, como a do ministro da Defesa. Críticos de Trump acusam os EUA de explorar os recursos da Venezuela e de sustentar um governo autoritário ao manter praticamente intacta a estrutura comandada pelos aliados de Maduro. O arranjo também envolve Washington no destino de um regime profundamente impopular e não eleito, que enfrenta uma pressão crescente por mudanças políticas. Rubio, o ‘vice-rei’ A postura adotada por Rubio na Venezuela representa uma mudança marcante para alguém que passou a carreira construindo a imagem de defensor da democracia na América Latina. Ele afirma que seu objetivo continua sendo uma eventual transição democrática. O desfecho da iniciativa na Venezuela, no entanto, poderá moldar o futuro político do secretário, enquanto Trump considera quem poderá sucedê-lo. Trump e Rubio na Casa Branca: secretário de Estado prevê novas medidas para a próxima semana — Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS/AFP/16-7-2025 Rubio foi apelidado por outras autoridades de “vice-rei”, título dado aos poderosos governadores que administravam o Império Espanhol até que a Venezuela e a maior parte de suas demais províncias se rebelassem e conquistassem a independência no início do século XIX. À medida que Delcy começou a formar seu governo, o secretário interferiu em decisões importantes sobre cargos e a incentivou a afastar familiares e parceiros de negócios de Maduro. Ela cumpriu a orientação. A maioria dos venezuelanos manifestou alívio com a queda de Maduro, mas assistiu, incrédula, ao governo Trump firmando uma aliança com grande parte dos chavistas. A inflação caiu, mas continua sendo a mais alta do mundo, e a moeda do país segue perdendo valor. Milhões de pessoas exigem novas eleições, aumentando a pressão sobre Rubio para ir além dos acordos econômicos e promover mudanças políticas. Investidores demonstram preocupação em aplicar recursos em um sistema que pode ruir a qualquer momento. Ordens americanas Antes dos terremotos que devastaram La Guaira em junho, Delcy vinha pedindo a Rubio maior autonomia financeira e o fim das sanções econômicas, para reduzir a pressão interna sobre seu governo. Rubio mostrou-se receptivo aos argumentos dela, mas o governo dos EUA não abriu mão do controle. O trabalho do secretário com a presidente interina provocou descontentamento entre alguns diplomatas de carreira dos EUA, venezuelano-americanos e aliados de Trump, que rejeitam a ideia de que a principal aliada de Maduro permaneça no poder. Rubio e outras autoridades minimizaram essas preocupações, ressaltando que Delcy cumpriu praticamente todas as ordens emitidas pelo governo americano, especialmente as relacionadas às finanças do país. A Venezuela vende grande parte de seu petróleo por meio de um arranjo estabelecido pelo governo Trump. A administração do republicano chega até mesmo a exercer controle sobre as aparições públicas e declarações de Delcy. Em maio, Rubio anunciou que ela viajaria à Índia antes de o governo venezuelano divulgar a informação, surpreendendo autoridades venezuelanas e diplomatas estrangeiros. E, quando o apresentador da Fox News Bret Baier procurou Delcy para convidá-la a participar de uma entrevista, ela respondeu que Trump precisaria aprovar. Trump gostou da postura e repetiu essa história diversas vezes, segundo fontes. Quando os EUA atacaram o Irã, o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Yvan Gil, publicou uma condenação moderada à agressão. O governo Trump comunicou a Delcy que a publicação deveria ser removida e a advertiu para que não voltasse a apoiar publicamente adversários americanos. Gil apagou a postagem poucas horas depois, evidenciando que a Venezuela já não define sua política externa. Reafirmação de Trump Rubio descreveu os planos do governo para a Venezuela em três fases: recuperar a economia, estabilizar o país e conduzi-lo à democracia. Antes dos terremotos, autoridades americanas afirmavam que estavam na segunda fase, trabalhando para abrir a Venezuela ao investimento internacional. Para avançar nesse objetivo, altos integrantes do governo Trump viajaram ao país para se reunir com seus colegas venezuelanos e firmar novos acordos. Os anúncios resultantes, porém, limitaram-se a esboços otimistas de possíveis investimentos. O sucesso dos esforços para estabilizar a Venezuela depende em grande parte do investimento estrangeiro. Os investidores, no entanto, permanecem cautelosos. O setor petrolífero está degradado e marcado pela corrupção, e o controle de Delcy sobre o poder é incerto. Os terremotos atrasaram as negociações para novos contratos de petróleo, mas Trump parece não demonstrar preocupação. Ele já sugeriu repetidamente que a Venezuela poderia se tornar o 51º estado americano. Quem poderá liderar o país de forma mais permanente continua sendo uma incógnita. María Corina Machado, líder da oposição que vive no exílio, permanece como a política mais popular da Venezuela. Mas ela tem inimigos declarados entre integrantes das forças de segurança e das Forças Armadas venezuelanas, o que levou Rubio a contorná-la e escolher Delcy como a líder designada para o país. Antes um firme apoiador de María Corina, Rubio se distanciou dela nos últimos meses. O esfriamento da relação entre o governo Trump e María Corina transformou-se em um rompimento aberto após os terremotos. Autoridades americanas se recusaram a ajudá-la a retornar à Venezuela por receio de provocar instabilidade. Líder da oposição venezuelana, María Corina Machado. — Foto: Gabriela Oraa / AFP O cronograma para a fase final do plano de Rubio para a Venezuela — a realização de eleições livres — continua indefinido. Quando o New York Times perguntou a Delcy, em maio, quando ela realizaria eleições, ela respondeu: — Não sei. Em algum momento. Analistas políticos afirmam que Delcy pode estar tentando ganhar tempo até o fim da presidência de Trump, na expectativa de que a pressão pela realização da votação diminua sob seu sucessor. Por enquanto, a decisão sobre quando haverá eleições não está nas mãos dela. Está nas de Rubio.