[RESUMO] No recém-lançado "Aramão" (Companhia das Letras), Eucanaã Ferraz puxa os fios da memória de um passado esquecido, une sofisticação e conhecimento teórico e reafirma a exuberância característica da sua poética, com a valorização da cor, da musicalidade, da gestualidade e a aproximação de uma sensibilidade kitsch.

Chama-se "Aramão" o novo livro do poeta Eucanaã Ferraz. Esse nome estranho é o aumentativo de "arame" e vem a ser também o título de algumas esculturas feitas, nos anos 1980, pela artista plástica Iole de Freitas.

Ao utilizar o material metálico, ela tentava dar forma à fluidez e evitar a ruptura. De modo análogo, o "Aramão", de Eucanaã, parece guardar intenção similar.

O livro é dividido em três partes: "A Idade da Pedra", "História da Arte" e "A Suíte do Faquir". São composições longas, com fluidez imagética e ritmo contínuo, armadas na forma poética. Tal estrutura corresponde ao esteio memorialístico que se afirma na obra desde "A Idade da Pedra". O poeta puxa o fio da memória: plasma, nas páginas do livro, fotos de família há muito esquecidas e, na impossibilidade de reviver aquelas cenas, põe-se a escrever.

A memória tensiona a metafísica, pois o sujeito poético quer agora enfrentar o tempo em que "Tudo era Um: Terra-Céu-Caos". Por isso, reinventa a origem do mundo, a partir da morte da avó. "Da sua respiração nasceram o vento as nuvens./ Sua voz fez trovão./ Os olhos viraram sol e lua./ O corpo rebentou em vales e árvores." Note-se que a pontuação depois dos versos acentua a gravidade da enumeração. Cada um pode reescrever o seu próprio livro de "Gênesis".