Em 'O mundo de ponta-cabeça', Benjamin Moser não faz estudo histórico de artistas como Rembrandt, Vermeer, Frans Hals ou Albert Eckhout, propondo reflexões que não tentam ser definitivas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Quadro 'A ronda noturna', de Rembrandt Divulgação — Foto: Divulgação Dom Sebastião não estava querendo exatamente cristianizar o Marrocos quando desapareceu na batalha de Alcácer Quibir, em 1578, como escreve Benjamin Moser em “O mundo de ponta-cabeça”. Ele tentou interferir numa disputa sucessória do reino muçulmano (e desapareceu, ou morreu, tentando). A hipótese levantada por Moser de que Caravaggio tenha sido assassinado combina com o B.O. do pintor barroco italiano, que fugiu de Roma depois de envolvido em um assassinato. Mas as evidências apontam que ele morreu de alguma doença: se provocada ou não por um ferimento de espada, ainda não é possível confirmar. Dizer que Rembrandt era um pintor moralista é uma homenagem à classificação feita por Susan Sontag, uma das autoras biografadas por Moser em livros anteriores (outra é a brasileira Clarice Lispector). Mas é, no mínimo, uma redução da obra de um dos maiores artistas do Ocidente, em nome da obsessão de intelectuais de enfiar em gavetas de definições as contradições, surpresas, dubiedades e riquezas da criação humana. Há imprecisões em “O mundo de ponta-cabeça”, mas o livro de Moser vale a pena, e até mesmo por causa delas. O que o autor americano nascido no Texas faz não é um estudo histórico de artistas como Rembrandt, Vermeer, Frans Hals ou Albert Eckhout (tema de um capítulo pelas suas “primeiras representações europeias dos ameríndios das Américas do Norte ou do Sul”). O livro está mais próximo de um longo ensaio: traz reflexões que não chegam a tentar ser definitivas, em forma ou conteúdo. Mas por elas chegamos a conclusões, informações ou descrições que ampliam nosso conhecimento sobre o tema abordado, sem a intenção de chegar a uma palavra final (algo que na verdade nunca existe em História). O que Moser parece buscar é uma forma de demonstrar seu amor pela Holanda, onde escolheu viver desde a juventude, a partir da arte produzida em alguns dos seus anos mais turbulentos — de luta contra a Espanha, então o maior império europeu, para se tornar independente; de sobrevivência a catástrofes e morticínios desta e de outras guerras também contra outras potências do continente; de pragas, decadência econômica, expansões marítimas incertas, divisões religiosas. Esses fatos se espelham nas obras estudadas por Moser. Mas elas chegaram até nós como ainda relevantes por serem algo mais do que um comentário em forma de pintura de crises políticas ou sociais, o que lança uma sombra sobre a permanência de obras de arte feitas hoje aparentemente apenas com essa finalidade. Capa do livro 'O mundo de ponta-cabeça' — Foto: Divulgação As representações de narrativas do Antigo Testamento por Rembrandt, ou seu monumento ao caos harmonizado de uma sociedade de homens livres em “A ronda noturna”, não são vistas hoje da mesma forma como foram pelos contemporâneos do pintor. As funções simbólicas que plantas e animais de naturezas-mortas por Adriaen Coorte já não são de domínio comum como seriam nos Países Baixos do início do século XVIII. Mas sobrevivem os arranjos de formas, linhas, cores, que produzem imagens que tocam à sensibilidade humana comum que esteja desarmada de intenções de ver causas aprovadas ou propagandeadas. Um refresco na leitura de “O mundo de ponta-cabeça”, aliás, é que ele está livre de jargões dos debates sobre arte atuais. A palavra “ancestralidade” não aparece. Não somos forçados a aprovar nenhuma pintura pelas origens periféricas ou desvantagens sociais do seu autor. Embora muitos deles tenham origem pobre ou tenham morrido pobres e Hendrick Avercamp fosse surdo. Rachel Ruysch, a única mulher da seleção de Moser, é, como ressalta o autor, um argumento contrário à tese de que convenções sociais como as obrigações com a casa e os filhos advindas do casamento foram barreiras para mulheres desenvolverem-se como artistas: na sua bem-sucedida carreira, ela produziu boa parte das telas mais valorizadas no mesmo período em que teve dez filhos. Sem cansar o leitor A viagem de Moser pelos mestres holandeses é feita com linguagem clara, com informações consistentes dispostas com humor e um ritmo certo para não cansar o leitor — até o posfácio, em que o ensaísta e biógrafo fala de sua condição de americano morando na Holanda, ao tratar das diferenças do país de onde saiu e do país em que escolheu morar. Nessa parte final, o tom com que Moser fala de si mesmo combina com a forma hodierna de falar de si mesmo, em que todas as experiências pessoais, por mais comuns que sejam, parecem revestidas de um caráter especial quando é com a gente. Mas indica que ele talvez precise olhar mais vezes os grandes mestres holandeses para entender melhor seu poder de síntese e ausência de sentimentalismo.
Crítica: Biógrafo de Clarice Lispector fala de seu amor pela Holanda por meio de grandes nomes da arte
Em 'O mundo de ponta-cabeça', Benjamin Moser não faz estudo histórico de artistas como Rembrandt, Vermeer, Frans Hals ou Albert Eckhout, propondo reflexões que não tentam ser definitivas






