Em uma famosa entrevista, Graciliano Ramos disse uma frase que pode resumir bem o seu fazer literário: "A palavra não foi feita para enfeitar, / brilhar como ouro falso. / A palavra foi feita para dizer".

A força desse dizer me bateu forte quando li "A Vida Não é um Animal Doméstico", romance do carioca Paulo Vicente Cruz, publicado pela Diadorim Editora. O livro, tomado pelo impulso da linguagem altamente talhada na precisão do termo, tem dosagens sutis de experimentalismos, de sutilezas forjadas em uma narrativa que se elabora enquanto busca definir-se.

Duas coisas emergem dessa obra. A primeira delas é a arquitetura do seu enredo, precisa e cirúrgica. Paulo Vicente Cruz esmera-se na concisão e nos detalhes imagísticos, em textos mínimos, de parágrafos curtos, transportando o leitor para dentro de uma história temperada sob a forte emoção de um personagem que se reencontra em um universo de perdas.

A segunda impressão vem da sua literalidade. Nesse ponto, o autor estabelece conexões poderosas entre o que se lê e se sente por meio do processo de leitura —neste caso, como se o texto literário fosse elaborado a partir de sua própria construção.

Ao narrar a história em primeira pessoa, Paulo Vicente Cruz não conta só a trajetória de um jovem negro, sem amigos aparentes e que não ousa dizer seu nome, vivendo o luto pela morte do pai, a descoberta do amor e a jornada de ter que enfrentar a violência policial embutida no racismo que devora gente pobre e suburbana.