Wander Melo Miranda era um adolescente de 15 anos na Belo Horizonte do final dos anos 1960, em plena ditadura. Aproveitando que seu pai abrira uma conta numa livraria, passou a ler autores que não leria no Colégio Militar, onde estudava. Um deles foi Graciliano Ramos. Começou por "Vidas Secas".

"Fiquei muito impressionado e tocado com o livro, atraído pela linguagem que trazia coisas populares, regionais, mas era extremamente elaborada, muito sóbria e, ao mesmo tempo, muito irônica", ele recorda a epifania.

O mergulho de Miranda no autor alagoano se aprofundou ao longo dos anos, resultando num doutorado, cuja tese seria adaptada para livro em 1992, "Corpos escritos: Graciliano Ramos e Silviano Santiago", análise conjunta de "Memórias do Cárcere", do primeiro, e "Em Liberdade", do segundo. Depois, o crítico e acadêmico —hoje professor emérito da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais— escreveu "Folha Explica Graciliano", de 2004, uma introdução à obra do Velho Graça.

Durante o percurso, se interessou também pela vida do pesquisado. "Até porque a vida dele não se diferencia dos livros que escreve. Não digo que a vida explica os livros e os livros explicam a vida, mas há uma relação tão forte entre uma coisa e outra que ele transforma em ficção", afirma Miranda, citando uma frase do próprio Graciliano: "Nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou. E se as personagens se comportam de modos diferentes, é porque não sou um só".