Eu cresci a partir de dois grandes livros que me marcaram fortemente a leitura: "Ulisses", de James Joyce —presente do seu tradutor Antônio Houaiss—, e "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, pelo qual enverguei a espinha seguidas noites sobre um volume de 1979 —a 13ª edição, publicada pela José Olympio Editora—, exemplar que conservo na fileira de honra da estante entre as minhas mais destacadas raridades.
No caso de "Ulisses", lembro-me bem que Houaiss —então ministro da Cultura do governo Itamar Franco— perguntou-me duas semanas depois da entrega o que eu havia achado do livro. Fiquei impactado com a pergunta, não pelo fato de ele supor que para mim era fácil encarar aquelas 846 páginas.
Com sacrifício —e muito desajeitadamente—, confessei ao filólogo carioca que, com base na sua esmerada tradução, eu tateava as primeiras dez páginas da obra do autor irlandês, mal escondendo a insensatez de minha resposta, na verdade por receio de dizer-lhe que, com muito custo, eu escalava aquele emaranhado de palavras e termos rebuscados, onde cabia de tudo e até um certo "escuro recurvo de escada", entre outros dizeres.
Para meu espanto, no lugar de estranhamento, Houaiss devolveu meu mau jeito com uma expressão bastante compassiva: "Normal".













