O exercício de se deslocar para o lugar de um outro constitui o grande milagre da literatura. É o inverso de escrever a partir da própria biografia A escritora Ana Paula Maia, indicada ao International Booker Prize — Foto: Maria Isabel Oliveira “Taiwan Travelogue”, romance da escritora taiwanesa Yáng Shuāng-zi, traduzido por Lin King, foi galardoado, na terça-feira (19), com o prestigiado International Booker Prize. “Assim na terra como embaixo da terra”, de Ana Paula Maia, publicado no Brasil em 2017, mas que só no ano passado chegou ao mercado britânico, com tradução de Padma Viswanathan, estava entre os seis finalistas. Não ganhou. Contudo, ter chegado à fase final representou uma grande vitória, colocando a escritora carioca no palco restrito do disputado mercado internacional da literatura. Não obstante, Ana Paula Maia ainda é pouco conhecida no Brasil. Por exemplo, nunca foi convidada a participar na Flip, o mais importante evento literário do país. Acompanho o seu percurso há quase 20 anos. Em 2007, a Língua Geral — editora que ajudei a criar, ao lado de Connie Lopes e Fátima Otero — publicou “A Guerra dos Bastardos”, e foi assim que a conheci. O romance me impressionou muito, tanto pelo estilo — direto, seco, brutal —, quanto pelo universo, que parecia mais próximo de um certo cinema de terror, meio barroco, do que da literatura produzida, nessa época, nos países de língua portuguesa. Ana Paula era, aos 28 anos, uma jovem doce, calada, um pouco tímida, que não parecia ter nada a ver com aquele mundo — exceto pelo humor. Muitas vezes se diz deste ou daquele escritor que tem “uma escrita visceral”. A metáfora é, regra geral, inapropriada e deselegante. Não no caso de Ana Paula. Os livros dela são pródigos em vísceras, moscas e carne em decomposição. Os cenários são matadouros, carvoarias, prisões, e estão cheios de homens violentos, cachorros abandonados, lixo e máquinas ferrugentas. Há uma espécie de alheamento moral na escrita de Ana Paula, a par com uma recusa do ornamento sentimental, que a torna particularmente inquietante. Ela escreve como quem maneja um martelo. Recusa-se a oferecer ao leitor o conforto moral da etiqueta. Não publica para defender teses, para denunciar injustiças, ou para representar uma tradição qualquer ameaçada. O que a move é a pura inquietação da escrita. O desejo de ser outros. Quanto mais outros — ou seja, quanto mais estranhos a ela — tanto melhor. Resumindo: Ana Paula faz literatura. Larga parte da melhor ficção literária começa no instante em que deixamos de ser nós para tomarmos o lugar de um dos muitos seres que nos habitam. Este exercício de deslocação, íntimo e silencioso, constitui o grande milagre da literatura. É o inverso de escrever a partir da própria biografia. Sempre achei a expressão “autoficção” um óbvio oxímoro. Kafka não precisou transformar-se em inseto para escrever “A metamorfose”. Ao ler o livro, contudo, todos nós conseguimos experimentar a angústia de um homem que desperta transformado em inseto. Claro que grandes romances podem nascer da experiência íntima, da memória ou da identidade. O problema começa quando a literatura se reduz a isso, deixando de ser travessia para se tornar apenas confirmação.
A coragem de ser outros
O exercício de se deslocar para o lugar de um outro constitui o grande milagre da literatura. É o inverso de escrever a partir da própria biografia











