Apostas de que o BC fará mais um corte de juros na reunião de agosto impulsionam índice Sede da B3, em São Paulo — Foto: Patricia Monteiro/Bloomberg Números bem abaixo do esperado para o IPCA em junho, aliados a uma composição melhor do indicador, ampliaram as apostas de que o Banco Central possa realizar mais um corte de juros na reunião de agosto, o que ajudou a engatar uma alta expressiva do Ibovespa nesta sexta-feira. O ajuste forte na curva futura elevou os ganhos de ações cíclicas domésticas, que responderam pelas maiores altas no pregão. O dia mais favorável ao risco no mercado local também impulsionou blue chips, especialmente bancos que subiram mais de 5% em alguns casos. Depois de tocar os 172.761 pontos pela manhã, na mínima intradiária, o Ibovespa ganhou mais de 5 mil pontos ao longo do pregão e encerrou em alta de 2,97%, aos 177.866 pontos, na máxima do dia. Trata-se da maior variação diária desde 23 de março deste ano, quando o índice avançou 3,24% em um dia, impulsionado pela trégua temporária na guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã. Já na semana, a principal referência acionária local subiu 2,18%. A percepção mais favorável ao risco turbinou os ganhos de blue chips, especialmente de bancos. No fim, BTG Pactual ganhou 5,48%; Bradesco ON teve alta de 4,84%; Bradesco PN subiu 4,78%; Santander Units exibiu valorização de 5,22%; Itaú Unibanco PN avançou 4,02%; e Banco do Brasil ON exibiu ganhos de 2,90%. Vale e Petrobras também registraram um dia mais positivo: as ON da mineradora subiram 1,41%, ao passo que as PN da petroleira ganharam 1,12%. O forte ajuste registrado na curva futura colocou as ações cíclicas domésticas como alguns dos maiores destaques de alta. No fim, Magazine Luiza subiu 7,41%; e Cogna avançou 6,67%. O recuo expressivo dos juros futuros foi impulsionado por números abaixo do esperado para a inflação. Hoje, o IBGE divulgou que o IPCA subiu 0,16% em junho, após alta de 0,58% em maio. O número ficou bem abaixo da mediana das projeções de instituições consultadas pelo VALOR DATA, que era de uma alta de 0,31%. “Mais do que um resultado abaixo das expectativas, a composição do IPCA reforçou um processo de desinflação mais consistente, com comportamento favorável dos núcleos e alívio nos preços dos alimentos”, destacou o analista da gestora de patrimônio Aware Investments Matheus Villela. Os dados de inflação, juntamente com números mais fracos do mercado de trabalho e da atividade divulgados nas semanas anteriores, reforçaram as apostas em cortes de juros. Hoje, as opções de Copom mostraram que a probabilidade implícita de uma queda de 0,25 ponto percentual da Selic na reunião de agosto ganhou força, passando de 72%, ontem, para 83% hoje. Já a chance de uma queda de 0,50 ponto passou de 1,5% para 3%. De olho nos últimos dados e na chance de continuidade do ciclo de corte de juros pelo Banco Central, o sócio da Encore Asset Management, João Luiz Braga, afirma que a disparada de quase 3% da bolsa local hoje não foi um exagero. Para ele, o baixo posicionamento técnico de investidores em ações cíclicas domésticas ajudou a explicar a força da recuperação do índice nesta sexta-feira. “Ainda está tudo ‘ridículo’ de barato na bolsa e o posicionamento dos investidores está baixíssimo em [ações cíclicas domésticas]. Na verdade, as ações domésticas têm que andar muito ainda no relativo”, pondera Braga. O executivo lembra que as ações cíclicas domésticas foram bastante penalizadas, à medida que a continuidade do ciclo de cortes de juros foi colocada em xeque pelo mercado após o tom adotado pelo Banco Central na reunião de junho. “Agora parece que todo mundo volta a achar que vai ter sim mais corte e isso é ótimo”, diz. “Estamos vendo a economia mais fraca, com indicadores como a indústria, comércio e o mercado de trabalho, com o Caged, mais fracos, e hoje tivemos o IPCA. Os números mostram que não fazia sentido o mercado ficar tão ‘hawkish’ [mais inclinado ao aperto monetário]”, resume Braga. Villela, da Aware, tem visão semelhante. Para ele, o conjunto de fatores macroeconômicos reforça a visão de que um Ibovespa na faixa de 180 mil pontos é um cenário mais “plausível”, desde que a inflação continue surpreendendo positivamente e o mercado mantenha a expectativa de continuidade dos cortes, ainda que as eleições possam causar volatilidade. Hoje, o forte movimento na bolsa local fez o volume financeiro negociado pelo Ibovespa chegar a R$ 19,1 bilhões, bem mais alto do que o visto nos últimos dias de julho. Já na B3, o giro bateu R$ 25,0 bilhões. Em Wall Street, os principais índices encerraram a sessão no azul. No fim, o S&P 500 subiu 0,42%; e o Dow Jones e o Nasdaq ganharam, ambos, 0,29%.