Ex-presidente abriu país para investimentos chineses nos anos 90; Sua filha, eleita presidente do país, terá que pensar laços com Pequim diante de avanço americano 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Keiko Fujimori, presidente eleita do Peru, ao lado de retrato de seu pai, o ex-presidente peruano Alberto Fujimori — Foto: Ernesto BENAVIDES/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 10/07/2026 - 08:09 Keiko Fujimori navega entre China e EUA como presidente do Peru Keiko Fujimori, nova presidente do Peru, enfrenta o legado de seu pai, Alberto Fujimori, que nos anos 90 abriu o país para investimentos chineses. A eleição de Keiko ocorre em meio à tentativa dos EUA de Trump de reafirmar sua influência na América Latina. Enquanto mantém laços comerciais com a China, Keiko busca um equilíbrio estratégico entre Pequim e Washington, destacando o Peru como um centro logístico no Pacífico. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A primeira viagem de Alberto Fujimori a Pequim, há 35 anos, ajudou a aproximar o Peru da China e antecipou um realinhamento mais amplo da América Latina que Washington ainda tenta reverter. Agora, a filha dele, Keiko Fujimori, que venceu por estreita margem a eleição presidencial do Peru no mês passado, terá de lidar com esse legado enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, busca reafirmar a predominância americana no Hemisfério Ocidental. Formada nos EUA, Keiko Fujimori foi eleita com propostas favoráveis ao mercado e uma plataforma de combate rigoroso ao crime, o que tende a aproximar o país andino de Washington. Ao mesmo tempo, ela demonstra disposição para preservar os laços comerciais com Pequim, rejeitando um “alinhamento automático com qualquer potência” e defendendo uma posição “estrategicamente equilibrada” entre China e EUA. — Isso sugere que ela será pragmática — afirmou Luis Miguel Castilla, ex-embaixador do Peru em Washington e ex-ministro da Economia. — Essa tem sido parte da nossa política externa há muito tempo. O fato de uma líder com fortes vínculos pessoais com os EUA adotar uma posição deliberadamente equilibrada evidencia os limites do esforço de Trump para afastar a China da América Latina, especialmente nos países ao sul da Colômbia, onde a influência econômica de Pequim é mais forte. A assessoria de imprensa de Keiko Fujimori não respondeu a um pedido de comentário. US$ bilhões em investimentos chineses Atualmente, a China é o maior parceiro comercial do Peru e um importante investidor em setores estratégicos como mineração, energia e infraestrutura. Essa parceria foi construída no início dos anos 1990, quando a busca de Alberto Fujimori por capital encontrou a estratégia de Pequim de ampliar sua rede de aliados. Filho de imigrantes japoneses, Alberto Fujimori era, possivelmente, mais aberto do que a maioria dos líderes peruanos às alternativas vindas do Oriente. Depois de assumir a Presidência em 1990, precisava de recursos financeiros e apoio internacional para implementar um programa de choque de reformas neoliberais e reintegrar o Peru aos mercados financeiros globais. A China, alvo de condenação internacional após a repressão violenta aos protestos pró-democracia na Praça da Paz Celestial (Tiananmen), buscava parceiros que ajudassem o país a romper seu isolamento diplomático. Fujimori fez quatro viagens à China durante a primeira metade de seu mandato de dez anos. Também defendeu a participação do Peru no Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC, na sigla em inglês) e lançou as bases de uma relação econômica que permitiu a Pequim substituir Washington como principal parceiro comercial do Peru duas décadas depois. — O legado do pai dela foi abrir o Peru para a Ásia e para a China — afirmou Cynthia Sanborn, diretora do Centro para China e Ásia-Pacífico e professora do Departamento Acadêmico de Ciências Sociais e Políticas da Universidad del Pacífico. Desde os anos 1990, o investimento chinês acumulado no Peru chegou a cerca de US$ 30 bilhões, segundo Sanborn. O projeto mais emblemático é o Porto de Chancay, de US$ 1,3 bilhão, construído pela estatal chinesa COSCO Shipping Ports e inaugurado por Xi Jinping no fim de 2024. Projetado para reduzir em cerca de dez dias a rota até Xangai e consolidar a ambição do Peru de se tornar um centro logístico no Pacífico, o porto se transformou em símbolo da disputa entre EUA e China na América Latina. Keiko Fujimori, presidente eleita do Peru, na sede de sua campanha, em Lima, após anúncio de sua vitória no pleito — Foto: AFP Novo embaixador americano Os EUA veem o porto não apenas como uma vantagem comercial para a China, mas também como um potencial risco à segurança, devido à possibilidade de uso pelas Forças Armadas chinesas. Com o aumento das tensões, Trump enviou a Lima um novo embaixador, cujos primeiros meses no cargo mostraram a dificuldade de avançar a agenda americana no Peru. O embaixador Bernie Navarro chegou ao Peru em fevereiro e imediatamente encontrou o então presidente, José Jerí, envolvido em um escândalo sobre reuniões secretas com empresários chineses em um restaurante de culinária sino-peruana em Lima. O episódio ganhou um simbolismo gastronômico quando Navarro publicou uma foto em que aparecia comendo hambúrgueres ao lado de Jerí. “Mudando o cardápio”, escreveu na legenda. As acusações acabaram custando o cargo de Jerí, no terceiro impeachment promovido pelo Congresso peruano nos últimos cinco anos. Em seguida, seu sucessor tentou adiar a compra de novos caças F-16 da americana Lockheed Martin, um acordo que vinha sendo negociado havia pelo menos dois anos. (Posteriormente, ele foi convencido a dar prosseguimento ao negócio, em parte após pressão do partido de Keiko.) — No momento, não estamos vencendo no Peru, estamos em desvantagem — afirmou Navarro no mês passado durante um evento virtual promovido pelo Atlantic Council. O embaixador, que se descreve como o principal executivo de marketing dos EUA no Peru, disse que Washington passou anos distraído com outras regiões do mundo, mas prometeu que os EUA alcançarão a China até o fim de seu mandato. Keiko Fujimori parece disposta a permitir que os EUA tentem recuperar terreno, desde que os laços comerciais do Peru com a China permaneçam fortes e o país continue avançando em seu objetivo de se tornar um centro logístico no Pacífico. Sua estratégia de equilíbrio se encaixa em uma visão mais ampla do Peru como uma economia voltada para o Pacífico, em vez de um país obrigado a escolher entre Washington e Pequim. — A culinária peruana é de fusão — afirmou Keiko Fujimori em entrevista a uma emissora de rádio local. — E o restaurante onde faremos nossos investimentos é a APEC, onde os EUA estão ao lado dos países da Ásia.