EUA, 250 anos: O sonho americano em xequeO passado, o presente e o futuro da maior nação do mundo depois de dois séculos e meio de sua independência. Crédito: EstadãoGerando resumoSe em 2076 um historiador olhar para o momento geopolítico atual, o que ele veria? O início de uma nova fase? Uma ruptura? Uma nova ordem global? No sábado, 04, os Estados Unidos, o país mais poderoso do mundo, completaram 250 anos como nação. Mas especialistas ouvidos pelo Estadão explicam que a era da supremacia militar e tecnológica americana está sendo reescrita. E no centro do novo texto estão os drones, a inteligência artificial e uma nova superpotência que observa, cresce e espera: a China.PUBLICIDADEEm fevereiro, quando os EUA iniciaram sua campanha aérea contra o Irã, a superioridade americana parecia intocável: mais de 13 mil ataques aéreos nos primeiros 39 dias da ofensiva aérea. Só que o Irã respondeu. E respondeu com drones ‘a preço de banana’.Ao longo do conflito, Teerã lançou mais de 2.200 mísseis e 4.400 drones contra alvos na região, destruindo ou danificando ao menos oito aeronaves americanas e matando sete militares dos EUA. Até agora, o regime permaneceu no poder e manteve o controle sobre o Estreito de Ormuz, a passagem por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial.PublicidadeOs Estados Unidos não alcançaram seus objetivos, apesar de serem, sob qualquer critério convencional, muito mais poderosos que o Irã.As bandeiras da China e dos Estados Unidos Foto: AP /Mark Schiefelbein As três fases americanasVitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense e pesquisador de Harvard, divide a história americana desde a independência em três grandes eras: a primeira, de 1776 a 1945, quando os EUA passam de colônia rebelde a potência continental; a segunda, de 1945 a 1991, marcada pela liderança americana no Ocidente para conter a União Soviética, culminando na vitória da Guerra Fria e num momento singular de unipolaridade; e a terceira, que começa nesse auge, em 1991, e se estende até hoje.Essa terceira era é marcada por uma ilusão: a do “fim da história”, a crença de que a democracia liberal era inevitável, de que a globalização eliminaria os conflitos geopolíticos e de que a China acabaria se ‘liberalizando’. Mas Brustolin explica que nenhuma dessas previsões se concretizou.Publicidade“A hegemonia dos Estados Unidos é posta em xeque justamente por conta da ascensão chinesa”Vitelio Brustolin, pesquisador de HarvardTom Harper, professor especializado em política externa chinesa da Universidade de East London, situa um ponto de virada em 2008, quando os EUA sofreram a pior crise financeira desde a Grande Depressão de 1929. A partir dali, tornou-se cada vez mais evidente que o país se afastava da abordagem unipolar que caracterizou a Guerra contra o Terror, voltando-se para um equilíbrio de poder mais tradicional e defensivo. Segundo Harper, Donald Trump pode ter sido, paradoxalmente, “uma das primeiras pessoas a reconhecer que esse declínio está acontecendo”.Nova ordem mundialEm meio à esse declínio americano, outro movimento importante acontecia no outro lado do mundo: a ascensão chinesa. E esse processo foi diferente de tudo que veio antes.Leia tambémComo Trump evoca o século 19 para estimular o expansionismo americanoDemocratas x republicanos: a matemática do colégio eleitoral vai mudar para as próximas eleiçõesO sonho americano virou um pesadelo? Aumento da desigualdade desilude geração ZBrustolin aponta que impérios em ascensão historicamente eram menores do que aqueles com quem entraram em choque: o império alemão era consideravelmente menor que o britânico; a União Soviética crescia menos que os EUA. A China é outra coisa.Publicidade“A China é gigante demográfica, industrial e tecnológica ao mesmo tempo. Tem bilionários e partido único. Tem mercado aberto e controle centralizado”. Isso é o que o especialista chama de “capitalismo de Estado”, um modelo que não existia antes na história.Para Harper, no entanto, a China não tem interesse em destruir a ordem global construída após 1945. Pequim faz parte e se beneficia dessa ordem: ela ocupa um dos cinco assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU desde os anos 1970, quando substituiu Taiwan. “O que Pequim quer é reescrevê-la, dando ao Sul Global uma voz mais forte”.O presidente chinês Xi Jinping (à direita) participa de uma cerimônia para marcar o 105º aniversário de fundação do Partido Comunista Chinês no Grande Salão do Povo, em Pequim, na quarta-feira, 1º de julho de 2026 Foto: AP /Ng Han Guan O especialista explica que o que a China espera fazer é prolongar o conflito com os EUA no tempo, baseando-se em um conceito de “guerras prolongadas”, em contraste com a tradição americana de buscar “golpes decisivos”.Publicidade“Não se trata tanto de sobreviver aos Estados Unidos, mas de administrá-los”Tom Harper, professor da Universidade de East LondonPUBLICIDADEBrustolin acrescenta uma dimensão geopolítica importante: enquanto Trump ameaça retomar o controle do Canal do Panamá, anexar a Groenlândia e voltar à doutrina Monroe do século 19, a China tenta mostrar ao mundo que não faz ingerência em assuntos internos de outros países.A China joga observando os erros dos adversários e traçando metas de modernização militar até 2035 e de um “exército de padrão mundial” até 2049, mantendo a tomada de Taiwan como objetivo de longo prazo. Os EUA, sob Trump, parecem mais empenhados em políticas do século XIX do que em responder às demandas do século XXI, ele explica.Já Harper vê a possibilidade de uma competição administrada, mais do que um confronto direto: um mundo fragmentado em esferas de influência regionais, mais próximo de um equilíbrio multipolar do que de qualquer bipolaridade similar à Guerra Fria.PublicidadeNovas formas de fazer guerraNa guerra contra o Irã, interceptar um único drone Shahed, que custa entre 7 mil e 35 mil dólares, exigiu o uso de um míssil Patriot avaliado em 4 milhões de dólares. Ao longo do conflito, os Estados Unidos utilizaram cerca de metade de seu estoque de mísseis Patriot e entre 50% e 80% de seus interceptadores Thaad. Esses estoques levarão anos para ser repostos.O Pentágono e o Exército já traçaram metas de centenas de milhares de drones para os próximos anos, mas a base industrial necessária para isso ainda não existe em escala significativa.Para os especialistas, em termos clausewitzianos, a natureza da guerra permanece a mesma, é a continuação da política por outros meios. Mas os meios evoluíram. “Armas baratas em grande quantidade combinadas com inteligência artificial são extremamente efetivas”, afirma. “Um drone que custa alguns milhares de dólares destrói um carro de combate que custa milhões.”Além disso, há outra frente de guerra que não dispara um único drone: a das alianças. Desde a 2ª Guerra Mundial, a grandeza americana foi construída sobre uma arquitetura de parceiros estratégicos: a Otan , o Plano Marshall, o dólar como reserva global. “Ao ameaçar anexar a Groenlândia, ao afastar-se da Otan, ao tratar aliados que investiram em bem-estar social em vez de em defesa como ‘caroneiros’, Trump não está tornando os Estados Unidos maiores. Está encolhendo sua teia de influência”, explica Brustolin.Bandeiras dos EUA estão fincadas no chão diante de um banner do presidente americano Donald Trump, suspenso no edifício do Departamento do Trabalho dos EUA, antes das festividades de 4 de julho, em 3 de julho de 2026, em Washington, DC Foto: Joe Raedle/Getty Images/AFPA Europa respondeu com a maior corrida armamentista desde a Segunda Guerra Mundial: 800 bilhões de euros em rearmamento, com a França expandindo seu guarda-chuva nuclear para todo o continente. Enquanto isso, a China tenta ocupar exatamente esse espaço de confiabilidade. Mesmo sendo autoritária internamente, Pequim projeta para o exterior uma imagem de parceiro previsível que respeita as soberanias.A corrida pela IANa disputa pela inteligência artificial, a situação é ainda mais complexa. Os EUA abrigam as principais empresas do setor. Mas os modelos de IA chineses estão apenas alguns meses atrás dos americanos em capacidade. Empresas como DeepSeek e MiniMax utilizam modelos americanos para treinar os próprios a uma fração do custo, que anula na prática a vantagem americana no hardware de ponta. Harper reconhece que a disputa em IA “pode ser muito mais acirrada do que parece inicialmente”.PublicidadeNo campo de batalha, a IA já está operando. O sistema Maven Smart System, da Palantir, integra inteligência de múltiplas fontes para que analistas avaliem o campo de batalha em tempo real. Nas operações contra o Irã, os militares dos EUA utilizaram grandes modelos de linguagem para priorizar alvos e montar pacotes de ataque em cenários dinâmicos, com aeronaves sendo redirecionadas para novos objetivos durante o próprio voo.Mas o que assusta os especialistas não é o que a IA faz hoje. É o que ela poderá decidir amanhã. Em 1964, Stanley Kubrick satirizou em “Dr. Fantástico” uma máquina de destruição mútua automatizada, ativada sem intervenção humana. Hoje, isso já é quase uma realidade.“A inteligência artificial para uso militar pode dar autonomia às máquinas para decidirem sobre vidas humanas”Vitelio Brustolin, pesquisador de HarvardEm Gaza, sistemas de vigilância com IA foram usados para sugerir alvos. Relatórios indicam que esses sistemas identificaram erroneamente civis como combatentes. Durante o conflito com o Irã, uma escola foi atingida por um ataque atribuído aos EUA e Israel, levantando suspeitas sobre o uso de IA na seleção do alvo.PublicidadeNeste cenário, Brustolin aponta uma distinção crítica: as armas nucleares criaram a lógica da Destruição Mútua Assegurada (MAD), em que nenhum lado pode dar o primeiro golpe sem garantir sua própria aniquilação. Essa assimetria gerou décadas de dissuasão. A IA militar, por enquanto, não funciona assim. Ela permite ataques pontuais e táticos, o que a torna mais usável, portanto mais perigosa.“A velocidade da guerra em breve ultrapassará a capacidade humana de controlá-la”, alertou Andrew C. Weber, ex-responsável pelos programas de defesa nuclear, química e biológica do Pentágono durante o governo Obama.Para que os 300 anos da independência americana sejam celebrados em 2076 com os Estados Unidos ainda como potência dominante e democrática, concluem os analistas, o país precisaria combinar algo que raramente coexistiu na história: velocidade industrial para competir com a China na escala de drones, agilidade burocrática para absorver a IA mais rápido que seus adversários, e a sabedoria política para não destruir em quatro anos as alianças que levaram oitenta anos para construir.Publicidade
EUA chegam aos 250 anos com desafios a sua supremacia militar e tecnológica
Ascensão chinesa e guerra revolucionada por armas de baixo custo são novos ingredientes do teatro geopolítico global














