As figuras dos "Retirantes", de Cândido Portinari, caminham sob um céu seco, com corpos ossudos, olhos vazios e crianças inertes nos braços. Não há heroísmo, apenas resistência. Em "Vidas Secas", de Graciliano Ramos, Fabiano, Sinhá Vitória e os meninos repetem a mesma marcha: não se deslocam em busca de fortuna, mas para fugir da falta de água, de trabalho, de comida, de Estado. Em ambos, a desigualdade aparece não como abstração estatística, mas como privação material e destino imposto.
Essas obras são manifestos contra a desigualdade em geral e, particularmente, contra a desigualdade brasileira. O país que Portinari pintou era um país em que menos da metade da população sabia ler e escrever, apenas 31,3% viviam em áreas urbanas e a expectativa de vida ao nascer era em torno de 45 anos. Era um Brasil em que a precariedade dos serviços básicos condenava milhões à imobilidade social antes mesmo de qualquer esforço individual.Naquele Brasil dos anos 1940, a desigualdade tinha endereço físico: o lugar onde não havia trilho, estrada, rede de água, posto de saúde ou escola. A infraestrutura —ou a sua ausência— desenhava o mapa da pobreza com a mesma nitidez com que Portinari desenhava seus retirantes. E é justamente porque essa geografia da privação persiste, ainda que mais discreta, que vale comparar o país de então com o de agora.









