“Esse rio é minha rua”, cantam os paraenses ao som de Fafá de Belém desde a década de 1970. Nos últimos meses, com os alertas constantes da Defesa Civil e a necessidade de criar estratégias para se locomover e realizar tarefas básicas, essa frase nunca pareceu tão real. Nascida e crescida às margens do Rio Guamá e da Baía do Guajará, Belém teve sua história moldada pelas águas. Elas não desenharam apenas a geografia da cidade, mas também suas formas de circulação, trabalho, alimentação e convivência. A memória urbana e o cotidiano da capital paraense sempre dependeram delas.
Em Belém, a água vem do céu, dos rios e das marés, mas não chega da mesma forma para todos. A maneira como cada família vive esse contato depende menos da quantidade de chuva e mais da condição social de quem mora próximo aos leitos fluviais. Para entender a cidade, é preciso entender o significado das “baixadas”.
Belém foi construída a partir da separação entre as áreas altas, saneadas e valorizadas, e as baixadas, ocupadas pela população pobre — uma divisão que permanece até hoje. A água também acabou desenhando o mapa da desigualdade urbana. As baixadas são áreas úmidas, localizadas abaixo de quatro metros de altitude, fortemente influenciadas pelas marés e constantemente sujeitas a alagamentos.







