Em estudo, rede alerta para demanda ainda expressiva por serviço de Educação de Jovens e Adultos (EJA) Estudantes de EJA da Escola da Fundação Roberto Marinho na Unidade do Complexo da Maré no Rio — Foto: Amanda Nunes/ Divulgação O Brasil ainda convive com enorme passivo educacional, que afeta dezenas de milhões de pessoas e produz consequências diretas sobre pobreza, produtividade, renda e desigualdade. O alerta consta do estudo “ População de 15+ fora da escola, demanda potencial por EJA e transições para o trabalho: diagnóstico e evidências para políticas públicas”. No levantamento, o quadro traçado é desafiador. Dados mapeados na análise comprovam que, mesmo com avanços na educação, nas últimas décadas, o país ainda possui 63,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais fora da escola sem concluir a educação básica, o equivalente a 37,3% da população nessa faixa etária. O estudo foi realizado por Fundação Roberto Martinho, Fundação Bradesco, Fundação Itaú/ Itaú Educação e Trabalho e Fundação Arymax, com a cooperação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O mapeamento é uma iniciativa da “Rede EJA e Inclusão Produtiva”, que reúne 16 organizações da sociedade civil, incluindo a Fundação Roberto Marinho e demais fundações que participaram do levantamento. A cerimônia de lançamento da rede está marcada para esta terça-feira (7) em Brasília, ocasião em que o estudo será oficialmente apresentado. A rede tem como objetivo dois compromissos de longo prazo: ampliar o acesso à Educação de Jovens e Adultos (EJA), e impulsionar a inclusão produtiva no país. Os dados do estudo evidenciam a importância desses compromissos. Do total de pessoas fora do universo escolar, cerca de 44,7 milhões não concluíram o ensino fundamental. Além disso, aproximadamente 19,3 milhões não terminaram o ensino médio. Apesar do enorme contingente de pessoas que poderiam retornar aos estudos, a EJA consegue atender apenas cerca de 1,5% da demanda potencial, informaram as instituições no levantamento. “A educação, a educação de jovens e adultos, ela é uma modalidade obrigatória”, disse Rosalina Soares, superintendente de conhecimento da Fundação Roberto Marinho. “É um direito da população, que não concluiu em outros momentos da vida, concluir sendo ela jovem, adulta ou até idosa, ou seja, é um direito desses 64 milhões de brasileiros”, afirmou. O contingente de pessoas de 15 anos ou mais de idade fora da escola também leva a impactos econômicos, ressaltou. A incompletude educacional faz com que o país deixe de movimentar, em renda originada do trabalho, R$ 66 bilhões por ano, observou. Isso representa em torno de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB), contabilizam as organizações no mapeamento. A taxa de pobre­za entre essa população é 1,8 vezes maior do que entre quem completou a educação básica, informam ainda as instituições. O problema atinge principalmente a população não branca e localizada em áreas mais pobres do país, alertaram também os pesquisadores. Do total fora da escola com 15 ou mais de idade, sem educação básica, 63,9% são pretos e pardos. E por grandes regiões, as maiores con­centrações de jovens e adultos fora da escola sem educação básica estão nas regiões do Norte e do Nordeste, onde a proporção, nessa categoria, frequentemente supera os 50% da população de 15 anos ou mais. “Em qualquer indicador educacional, quando é desagregado por questões sociais, econômicas, ou por perfil sociodemográfico da população, observamos que a população mais pobre é ainda a população que está mais vulnerável nas estatísticas”, disse. Esse contexto opera em cenário no qual a oferta de EJA diminuiu. No estudo, os pesquisadores mapearam que o número de municípios sem nenhuma turma de EJA mais que dobrou entre 2008 e 2024, com apenas um quarto das escolas brasileiras a oferecer essa modalidade. No estudo consta outro dado alarmante. Ocorreu queda de demanda potencial por EJA, com o contingente apto a essa modalidade recuando 16% desde 2012 até 2024. As organizações informaram que a mortalidade dos aptos responde por mais da metade dessa redução. "Isso é um absurdo. A própria dinâmica demográfica, ela vai, de certo modo, fazendo esse número cair, não pela via do direito à educação, mas, sobretudo, as pessoas morrem sem ter esse direito, de fato, alcançado, atendido", disse. Para tentar mudar esse cenário, as entidades propõem sete linhas de ação prioritárias. A primeira seria estabelecer metas baseadas em número real de pessoas que concluem os estudos. Outras duas seriam fortalecer a busca ativa para localizar quem abandonou a escola e direcionar recursos para regiões com maior déficit educacional. As fundações recomendam promover iniciativas para integrar educação, assistência social e políticas de emprego. Essas iniciativas facilitariam prover conciliação entre estudo, trabalho e família, outra estratégia sugerida pelas organizações. Duas outras práticas foram recomendadas no estudo: assegurar que certificações como o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) complementem, e não substituam a escolarização efetiva; e garantir financiamento permanente e contínuo para a EJA. Sobre esse último ponto, em termos práticos, Soares defendeu uma “blindagem contra a descontinuidade” do EJA em casos de troca de governo. “O novo PNE [Plano Nacional de Educação] e o ciclo político que se abre em 2026 representam, possivel­mente, a última oportunidade de al­cançar as gerações que mais precisam dessa política, antes que a passagem do tempo resolva o problema da pior forma possível”, afirmam as instituições no estudo. Para elaboração, o levantamento contou também com parcerias técnicas, incluindo o Centro para o Estudo da Riqueza e da Estratificação Social/ Iesp-UERJ (Ceres), o Laboratório de Monitoramento e Avaliação de Políticas e Eleições /Iesp-UERJ (Mapes) e o Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp-Uerj). Além da Fundação Roberto Marinho e das outras fundações que participaram da realização do estudo, a rede EJA é composta pela Ação Educativa, Ashoka, Conhecimento Social - Estratégia e Gestão, Conselho Nacional do SESI, GIFE - Grupo de Instituições Fundações e Empresas, Instituto Rodrigo Mendes Pacto, Global da ONU, Redes da Maré, Todos Pela Educação, Unesco, Unicef, e United Away Brasil - Juventudes Potentes.