Relatório mostra que o número de brasileiros que não concluiu a educação básica vem caindo, mas não pelo avanço de políticas públicas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 José Paulino e Francisco Tarcísio não conseguiram concluir a educação básica — Foto: Marina Calderon RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 07/07/2026 - 22:24 63,9 Milhões de Brasileiros Sem Educação Básica: Desafios Persistem Um relatório revela que 63,9 milhões de brasileiros acima de 15 anos não concluíram a educação básica, representando 37,3% dessa população. As dificuldades de acesso ao programa EJA (Educação de Jovens e Adultos) e a baixa prioridade política agravam a situação. O estudo destaca que, apesar da queda no número de não concluintes, isso se deve mais à mortalidade do que a políticas educacionais eficazes. Além disso, a falta de suporte, como creches e horários flexíveis, impede muitos de retomar os estudos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO “Aquele sonho de estudar acabou se apagando”, lembra Paulo Ricardo Santos, hoje com 42 anos. Aos 23, enquanto ainda iniciava o ensino médio, abandonou a escola e passou a viver nas ruas, em meio à dependência química. Uma década e meia depois, graças a uma turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) organizada pela Fundação Roberto Marinho em parceria com a Redes da Maré, retomou os estudos — e, em paralelo, buscou tratamento. Apesar das dificuldades para conciliar trabalho, aulas e a luta contra as drogas, conseguiu o diploma e, agora, mira sonhos maiores: entrar numa faculdade. — Fazer Serviço Social é poder voltar para aquele lugar não mais como quem precisa de ajuda, mas como alguém que pode cuidar de outras pessoas também — diz ele, que atua como redutor de danos em um espaço de acolhimento para a população em situação de rua e usuários de álcool e outras drogas no Complexo da Maré, onde mora, no Rio. A trajetória de Paulo ilustra um desafio comum a muitos brasileiros. Um estudo inédito apresentado ontem indica que o país tem, hoje, 63,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que deixaram a escola antes de concluir a educação básica — 37,3% da população nessa faixa etária. O cenário é agravado pelas dificuldades de acesso ao EJA, recurso que permitiu a virada do morador da Maré, que só atende 1,5% da demanda potencial nacional. Os dados constam no relatório “População de 15+ fora da escola, demanda potencial por EJA e transições para o trabalho: diagnóstico e evidências para políticas públicas”. Realizado por Fundação Roberto Martinho, Fundação Bradesco, Fundação Itaú/ Itaú Educação e Trabalho e Fundação Arymax, com a cooperação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o documento foi lançado junto com a Rede EJA e Inclusão Produtiva, que reúne 16 organizações da sociedade civil em torno de um compromisso de longo prazo para ampliar o acesso à Educação de Jovens e Adultos e promover a inclusão produtiva no país. — Uma sociedade em transformações permanentes precisa criar possibilidades permanentes de aprender. Uma das grandes transformações que o Brasil precisa fazer passa pela EJA, que tem um enorme potencial de transformar o Brasil — frisa Rosalina Soares, superintendente de Conhecimento da Fundação Roberto Marinho. Fora da escola: os brasileiros com ensino incompleto — Foto: Arte O Globo Mortes e envelhecimento O relatório mostra que o número de brasileiros que não concluiu a educação básica vem caindo, mas não pelo avanço de políticas públicas. As estatísticas indicam que 51% da redução da demanda pela EJA desde 2012 ocorreu não pela escolarização do público-alvo, mas em razão da mortalidade dessa população. Por outro lado, 8% dessa queda estão relacionadas ao programa. Em outras palavras, para cada pessoa que concluiu a educação básica pela EJA no período, seis morreram sem terminar os estudos. “A queda da demanda não significa que o problema está sendo resolvido. Indica que essa população está envelhecendo e morrendo antes de ser alcançada. E que os próximos 10 a 15 anos representam a última janela de oportunidade para alcançar as gerações nascidas entre 1960 e 1980”, alerta o relatório. De lá para cá, a oferta da modalidade encolheu. Entre 2008 e 2024, o número de municípios sem nenhuma turma de EJA mais que dobrou, passando de 493 para 1.092. Das 122.469 escolas que oferecem educação básica no país, 24,6% mantêm turmas da modalidade. Ou seja, três em cada quatro escolas brasileiras não oferecem uma chance para jovens e adultos que desejam retomar os estudos. Os pesquisadores atribuem o cenário a um longo período de baixa prioridade à modalidade. Por 16 anos, a EJA recebeu o menor fator de ponderação do Fundeb entre todas as etapas da educação básica — distorção só corrigida em 2023. O último material didático específico foi distribuído em 2014, deixando uma década sem atualização. Além disso, segundo diagnóstico do próprio Ministério da Educação citado no estudo, há oferta reduzida de formação de professores voltada ao ensino de jovens e adultos. O relatório calcula o custo da incompletude educacional da população, estimado em R$ 66 bilhões em renda perdida. O valor considera que a renda domiciliar per capita de quem está fora da escola sem concluir a educação básica é de R$ 1.427, pouco mais da metade dos R$ 2.777 recebidos, em média, por quem concluiu essa etapa. Para estimar o impacto econômico da baixa escolaridade, os pesquisadores simularam o que aconteceria caso metade dessa população, cerca de 32,5 milhões de pessoas, concluísse a educação básica. O resultado aponta um ganho potencial equivalente a 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB). “É uma perda que ocorre todo ano — não por ausência de demanda, mas por ausência de política”, destaca o documento. O levantamento também aponta que as razões para abandonar a escola e para nunca voltar são distintas entre homens e mulheres. Entre eles, o trabalho é o principal fator citado em todas as etapas. Foi o motivo que levou 53,9% dos homens a abandonarem os estudos quando jovens e continua sendo a principal barreira ao retorno para 61,7%. Em busca de vida melhor É o caso de José Paulino, de 75 anos. Nascido no interior de Pernambuco, ele cresceu em uma região onde não havia escola nem professores. Filho mais velho entre 13 irmãos, começou a trabalhar ainda criança na lavoura da família, plantando para garantir o sustento da casa. Aos 20 anos, seguiu para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades e conseguiu emprego na construção civil, destino comum de muitos migrantes nordestinos sem escolaridade que desembarcavam na cidade. — A pobreza era demais. Quando cheguei aqui, só me interessava no trabalho. Eu trabalhava noite e dia. Se tivesse pensado, o estudo era melhor. Mas não pensava nada disso — recorda Paulino, que não aprendeu sequer a escrever o próprio nome e hoje, já idoso, vende roupas como camelô na Central do Brasil. Aos 80 anos, Francisco Tarcísio tem história parecida. Após receber educação precária — “a gente era da roça, era uma distância muito grande para ir a pé”, justifica — , deixou o interior do Ceará com 17 também rumo ao Rio, mas conseguiu se alfabetizar e aprender a fazer contas com aulas noturnas no Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral), programa federal criado durante a ditadura militar voltado a jovens e adultos. Graças a essa decisão, conseguiu uma vaga como garçom e permaneceu na profissão por 45 anos, até se aposentar. — Se eu não tivesse estudado no Mobral, não conseguiria trabalhar no comércio. Eu aprendi a fazer conta, aprendi a escrever. E escrevo bem, sou caprichoso — narra. Entre as mulheres, as demandas da família são a razão mais citada por quem abandonou os estudos. Hoje, 34,9% delas afirmam que não conseguem voltar à escola por causa dos filhos, das responsabilidades domésticas e das tarefas de cuidado. A gravidez, sozinha, foi responsável pela interrupção dos estudos de 22,9% desse público. Para os pesquisadores, oferecer vagas sem garantir creches, horários flexíveis e condições reais para conciliar estudo, trabalho e família significa ignorar justamente os fatores que afastaram essa população da escola. Atualmente, três em cada quatro matrículas da EJA no ensino fundamental ocorrem no período noturno — horário que dificulta o acesso de trabalhadores informais, profissionais que trabalham à noite e mulheres responsáveis pelo cuidado de crianças pequenas, por exemplo.
'Trabalhava noite e dia': os desafios dos quatro a cada dez brasileiros adultos que não conseguiram concluir os estudos
Relatório mostra que o número de brasileiros que não concluiu a educação básica vem caindo, mas não pelo avanço de políticas públicas
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