Os líderes teocráticos do Irã mobilizam grandes multidões de fiéis da revolução nas ruas de Teerã, mas, por trás da demonstração de unidade, está longe de ser claro que tenham resolvido as profundas divisões internas relacionadas à economia e à repressão estatal. Um enorme número de pessoas participa de uma semana de cerimônias fúnebres para o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, morto em ataques dos Estados Unidos e de Israel no início da guerra, em eventos de luto, marchas e manifestações realizados em todo o Irã. O tamanho das mobilizações, impulsionado por transporte, alimentação e hospedagem subsidiados, pretende funcionar como um referendo sobre a República Islâmica, afirmou um importante clérigo na semana passada. As autoridades apresentam a presença das multidões como uma mensagem de desafio e força tanto para adversários externos quanto para críticos internos. Embora Teerã estivesse tomada por pessoas em luto nesta segunda-feira, analistas, e até mesmo integrantes da alta cúpula iraniana, alertam que o tamanho das multidões não pode ser interpretado como uma demonstração de apoio popular à continuidade do regime teocrático. "Se alguém pensa que isso é um teste da popularidade da República Islâmica, a história mostra o contrário. Trata-se de um funeral, e os iranianos sabem fazer funerais muito bem", disse Ali Ansari, professor de história moderna da Universidade de St Andrews, na Escócia. A Reuters conversou com participantes das manifestações que disseram estar presentes apenas como espectadores ou motivados por um sentimento de dever religioso, em um país de forte tradição muçulmana xiita, e não para demonstrar apoio político. Fiéis participam de uma oração em memória do falecido Líder Supremo do Irã, o Aiatolá Ali Khamenei , morto em 28 de fevereiro em ataques aéreos israelenses e americanos, na Mesquita Jamkaran, em Qom, Irã, em 7 de julho de 2026 — Foto: . Ahmadreza Taheri/ISNA/via WANA (West Asia News Agency) via REUTERS 'Queria testemunhar a História', diz participante "Minha presença não significa que eu seja favorável ao regime. Esse grande acontecimento ocorreu no meu país e eu queria testemunhar a História", afirmou Hamidreza, de 63 anos, professor aposentado em Teerã, que disse participar de funerais de grandes figuras nacionais e pediu que seu sobrenome não fosse divulgado. A Reuters não conseguiu verificar imediatamente o tamanho das multidões na segunda-feira, embora imagens feitas por drones parecessem mostrar centenas de milhares de pessoas. As autoridades podem contar com uma base estável de apoio ideológico que analistas frequentemente estimam entre 15% e 20% da população de 93 milhões de habitantes, com base na votação obtida por candidatos ultraconservadores nas eleições. Na última eleição presidencial, em 2024, o candidato de linha-dura Saeed Jalili recebeu cerca de 13,5 milhões de votos. O funeral é um evento nacional raro — o primeiro de um líder supremo desde 1989, quando o antecessor de Khamenei, o aiatolá Ruhollah Khomeini, líder da Revolução de 1979, foi sepultado em um momento de intenso fervor ideológico. Seu enterro, dois dias após sua morte, reuniu milhões de pessoas em cenas que por vezes se aproximaram do caos. Khamenei, morto em 28 de fevereiro, não pôde ser enterrado antes devido à guerra, apesar da tradição islâmica de realizar funerais rapidamente. O adiamento também deu às autoridades tempo para organizar uma grande cerimônia de Estado. Os eventos desta semana também são as primeiras homenagens públicas desde o fim da guerra, conflito visto pelos apoiadores da República Islâmica como existencial e durante o qual o presidente norte-americano Donald Trump ameaçou que "toda uma civilização morrerá". "Se não respeitarmos nossos líderes, o mundo não nos respeitará", disse Houshang Dabiri, de 51 anos, ao explicar por que viajou de Shiraz para Teerã para participar do funeral. Uma fonte graduada reconheceu que as pessoas compareceram por diferentes motivos, entre eles dever religioso e apoio ao Estado, e que muitos dos presentes eram os mesmos que tradicionalmente participam das manifestações organizadas pelas autoridades para apoiar campanhas e políticas oficiais. Problemas internos e ondas de protestos Quatro meses de guerra contra os Estados Unidos agravaram ainda mais as dificuldades de uma população já submetida a uma economia sufocada por anos de sanções, com salários corroídos pela inflação elevada e pela desvalorização da moeda. "Não participei da cerimônia. Por que faria parte desse espetáculo encenado por eles? Em vez de organizar funerais assim, deveriam pensar nos problemas econômicos da população. Estamos sofrendo", disse Maryam, de 33 anos, dona de casa em Teerã. A insatisfação com a economia desencadeou a última onda de protestos nacionais, que depois evoluiu para reivindicações explícitas pelo fim do Estado teocrático e foi reprimida pelas forças de segurança em janeiro, com milhares de manifestantes mortos. As execuções de pessoas acusadas de participar desses protestos continuaram ao longo do ano e, quando a notícia da morte de Khamenei se espalhou no primeiro dia da guerra, moradores de Teerã relataram ouvir comemorações em diferentes bairros da cidade. Outro ex-integrante graduado do governo, que participou das cerimônias desta semana, descreveu a existência de diferentes grupos na sociedade iraniana, incluindo aqueles que não apoiam nem se opõem à República Islâmica, mas estão sobretudo preocupados com a situação econômica. Ao explicar as divisões entre diferentes setores da sociedade iraniana — de um lado, conservadores insatisfeitos com o que consideram termos excessivamente brandos do acordo de cessar-fogo e, de outro, críticos que defendem mais liberdades —, ele comparou o funeral ao de um pai de família. "Os filhos comparecem ao funeral, mas, depois, as disputas começam", afirmou. Um veículo transportando os caixões do falecido Líder Supremo do Irã, o Aiatolá Ali Khamenei, e de seus familiares, segue em meio a uma procissão fúnebre em homenagem a Khamenei , morto em 28 de fevereiro em ataques aéreos israelenses e americanos, em Teerã, Irã, em 6 de julho de 2026 — Foto: Gabinete do Líder Supremo do Irã/Divulgação via REUTERS Quando outro ícone da Revolução Islâmica, o general Qassem Soleimani, foi morto em um ataque aéreo dos Estados Unidos, em 2020, o centro de Teerã ficou tomado por pessoas que participaram de seu funeral. Mas apenas dois anos depois, a morte de uma jovem curda detida por causa das regras de vestimenta desencadeou protestos em massa contra o regime, espalhados por todo o país, que só foram reprimidos após a morte de centenas de pessoas.
Multidões lamentam morte de Khamenei, mas economia e repressão estatal mantêm Irã dividido
Autoridades iranianas tentam instrumentalizar presença de enorme número de fiéis nas cerimônias como mensagem de desafio e força tanto para adversários externos quanto para críticos internos










