Quatro meses depois da morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, no início da guerra lançada por EUA e Israel, a República Islâmica começará a sequência de eventos do sepultamento do homem que pautou os rumos do país por três décadas. A expectativa é de que 35 milhões de pessoas acompanhem as cerimônias ao longo de seis dias e cinco cidades em dois países. Em um momento de definição sobre o papel do Irã no pós-guerra, homenagens que servem como plataforma de projeção de poder e resiliência. No primeiro ato dos cortejos, na madrugada de sexta-feira, pelo horário de Teerã, o corpo de Khamenei chegou ao local onde acontecerá a cerimônia oficial, acompanhado por uma multidão formada por parentes dos mortos nos 40 dias de guerra. De acordo com números oficiais, 1.460 civis e 2.088 militares perderam a vida. Segundo Esmail Baghaei, porta-voz da Chancelaria iraniana, são esperados convidados de mais de 100 países, com destaque para o premier do Paquistão, Shahbaz Sharif — mediador das conversas com os EUA — e o ex-presidente russo Dmitry Medvedev. Depois, serão mais três dias de homenagens na capital, quando os cidadãos poderão ir ao velório e participar de uma oração pública. Diante da estimativa de 20 milhões nas ruas de Teerã, as autoridades prepararam um dos mais complexos planos de ação urbana já vistos. Áreas livres foram transformadas em estacionamentos para os carros particulares e ônibus. Instalações militares, prédios públicos e escolas foram adequadas para abrigar os visitantes. Na Grande Mosalla, onde será o velório aberto ao público a partir de sábado, foram instaladas passagens, plataformas e grades para garantir o livre fluxo das pessoas. O objetivo é evitar o caos dos funerais do fundador da República Islâmica, Ruhollah Khomeini, em 1989, quando 10 milhões estiveram nas ruas, e, mais recentemente, do popular líder da Força Quds, Qassem Soleimani, em 2020, quando morreram 56 pessoas e mais de 200 ficaram feridas. — Nunca houve um evento com uma multidão tão grande em Teerã, e por esse motivo, medidas especiais e sem precedentes foram tomadas para garantir a segurança desta cerimônia — declarou Mehdi Sedaghati, CEO da Organização de Engenharia Civil de Teerã, ouvido pela agência Tasnim. — O monitoramento das rotas começou no final de junho, e todas as áreas propensas a acidentes foram identificadas e medidas foram tomadas para torná-las seguras. Depois de Teerã — onde haverá um cortejo pelas principais ruas na segunda-feira — o corpo segue para Qom, epicentro religioso da República Islâmica, para uma nova cerimônia, na terça-feira. No dia seguinte, os restos mortais serão levados ao vizinho Iraque, onde Khamenei cultivou laços profundos com milícias xiitas e com autoridades que, hoje, determinam os rumos do país árabe. Estão previstas uma recepção de Estado e celebrações religiosas em duas cidades sagradas para os xiitas, Najaf — onde está o Santuário do Imã Ali, o primeiro imã xiita, e onde Khamenei estudou na juventude — e Karbala, local da batalha que aprofundou a divisão entre sunitas e xiitas. Na quinta-feira, o corpo do líder supremo vai a Mashhad, a “capital espiritual do Irã”, para ser sepultado no Santuário do Imã Reza, um dos mais importantes do islã xiita. Ao todo, espera-se que 35 milhões de iranianos e iraquianos acompanhem os seis dias de eventos. — [Ser enterrado no santuário] será um testemunho do status que ele detém dentro do regime iraniano e entre seus apoiadores — disse Afshon Ostovar, professor associado da Naval Postgraduate School, na Califórnia, em entrevista ao New York Times. Painel com a imagem de Ali Khamenei, antigo líder supremo do Irã morto em fevereiro — Foto: AFP A lei islâmica determina que o corpo de um muçulmano deve ser enterrado o mais rápido possível, de preferência até 24 horas após sua morte. Mas no caso de Khamenei, a demora foi justificada por circunstâncias que não eram vistas desde os anos 1980. Sob bombardeios pesados, as autoridades não viam condições de segurança para um funeral público que reuniria multidões e, especialmente, lideranças políticas e militares, alvos declarados de EUA e Israel. "Tenho certeza de que a grande nação do Irã, nesta despedida histórica, com corações cheios de tristeza e determinação, provará mais uma vez que a bandeira pela qual o grande líder lutou a vida inteira para manter hasteada jamais permanecerá caída no chão. Este é o cumprimento da promessa divina que ele proferiu: 'E queremos ser fiéis aos mais fracos da terra, e fazer deles uma nação, e fazer deles herdeiros.'", escreveu o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, no Telegram. A procissão de representantes estrangeiros a Teerã dá legitimidade a uma República Islâmica que sobreviveu às bombas e ameaças existenciais de Trump. Os milhões nas ruas passam a ideia de que a população está ao lado dos homens que hoje mandam no país, incluindo Mojtaba Khamenei, filho e sucessor do líder supremo que não apareceu em público desde o início da guerra. — A dimensão dos preparativos reflete o esforço do regime para transformar a morte do aiatolá Khamenei em uma demonstração de continuidade cuidadosamente coreografada, em vez de um momento de incerteza — disse Saeid Golkar, professor da Universidade do Tennessee em Chattanooga, ao New York Times. As redes sociais de Khamenei, que permaneceram ativas após sua morte, ganharam corpo nos dias que antecederam o funeral. No Telegram, as postagens seguem em tempo real as cerimônias, acompanhadas por mensagens antigas. Na rede social X — proibida no Irã, e da qual Khamenei foi brevemente banido há alguns anos — conteúdos próprios dividem espaço com repostagens atribuídas a Mojtaba. Uma estratégia que não deixa de ser de impulsionamento: enquanto a conta do pai tem 2,3 milhões de seguidores, a do filho tem 250 mil. Como disse o líder das orações de sexta-feira em Qom, aiatolá Mohammad Saidi, “a grande participação popular no cortejo fúnebre do líder mártir e dos demais mártires será, na prática, mais um referendo para a República Islâmica”. Para garantir milhões nas ruas, os braços do Estado reiteraram que a participação não é opcional. "Recebemos uma mensagem de texto do sindicato do setor imobiliário informando que não temos permissão para abrir nosso escritório durante os dias do funeral e que devemos comparecer às cerimônias", escreveu um morador de Teerã em mensagem à rede Iran International, associada à oposição no exterior. Outros afirmam que os Basij, paramilitares ligados à Guarda Revolucionária, passaram por comércios ordenando que ficassem fechados durante o período de luto. Uma ordem que se aplica até ao Grande Bazar, um dos centros econômicos e políticos da capital iraniana, apesar das queixas sobre o impacto nas vendas. No início do ano, os bazaaris se juntaram aos protestos contra o governo, que deixaram mais de 30 mil mortos, e a insatisfação com o que restou do regime não parece ter se dissipado. — A participação em massa visa projetar legitimidade, disciplina e a adesão popular à revolução e ao seu líder, ainda que a realidade da sociedade iraniana permaneça muito mais dividida e marcada por divergências — disse Golkar ao New York Times. (Com New York Times)