Banco Central quis evitar montanha-russa nos juros e esticou prazo para levar inflação à metaCopom ficou em situação de ‘perde-perde’, sem saídas fáceis para a condução da política monetária. Crédito: EstadãoGerando resumoO cenário de juros altos por um período prolongado no Brasil tem colocado em xeque empresas do mercado financeiro. Nos últimos meses, na Faria Lima, em São Paulo, e no Leblon, no Rio de Janeiro, endereços que concentram as principais casas do setor do País, companhias reduziram o quadro de funcionários, reorganizaram suas atividades e, em casos mais radicais, encerraram as atividades. PUBLICIDADEA explicação é que o cenário de juros altos torna as aplicações em renda fixa mais vantajosas para os investidores. Em contrapartida, esses produtos costumam cobrar taxas de administração menores, o que reduz a receita das gestoras. Já os fundos mais arriscados, como os de ações e os multimercados, que tendem a atrair mais recursos em ciclos de juros baixos, permitem a cobrança de taxas mais elevadas. Isso porque exigem um trabalho mais intenso de análise, estratégia e gestão das carteiras, que agregam mais valor ao serviço. Diante desse cenário adverso para os negócios do mercado financeiro, a TORK Capital, gestora especializada em ações, anunciou o encerramento das atividades neste ano. Fundada em 2018, a empresa tinha R$ 750 milhões sob gestão.PublicidadeAntes, no ano passado, a gestora Alphatree, de um ex-operador do Morgan Stanley, havia fechado seu hedge fund brasileiro. Em dezemro de 2024, com dificuldade de captar em meio ao cenário de juro alto, a BlueLine Asset Management, de ex-executivos da JP Morgan, também encerrou as operações. À época, a gestora informou, por meio de comunicado, que tomou a decisão “após uma análise criteriosa do cenário econômico e das condições de mercado”.Cenário de juros altos afeta investimento na indústria de fundo do Brasil Foto: Werther Santana/EstadãoO segmento de análise de ações é outro que foi atingido pela elevada taxa de juros. A Empiricus, por exemplo, vem passando por um período desafiador e enxugou equipes. A companhia ainda precisou mudar o formato de cobrança por seus relatórios para conseguir monetizar o produto: eles passaram a ser vendidos de forma agrupada, o que torna as assinaturas mais baratas. No caso da empresa, além do juro alto, também dificulta os negócios a proliferação de influenciadores que dão dicas de como investir sem cobrar pelo conteúdo.PublicidadeProcurada, a Empiricus afirmou que “o novo modelo de assinatura e a adequação das equipes fazem parte do processo de integração com o BTG Pactual, que resultou na unificação de estruturas já existentes nas duas empresas”. O negócio entre o banco e a Empiricus foi fechado em 2021.A taxa básica de juros (Selic) está acima de 10% desde fevereiro de 2022 – atualmente, está em 14,25%. Neste ano, o Banco Central chegou a iniciar um ciclo de corte dos juros, mas sinalizou que o alívio monetário será mais breve do que o previsto inicialmente por causa da piora das perspectivas para a inflação, impulsionada pela alta do preço do petróleo registrada entre o fim de fevereiro e o fim de maio.“Juro alto é muito ruim para a indústria como um todo. Quem vai tomar risco para empreender ou financiar um negócio, sendo que pode investir em juro de 15%? O investidor vai colocar o dinheiro em renda fixa, seja título do governo ou CDBs (Certificados de Depósito Bancário)”, diz Marília Fontes, sócia-fundadora da Nord Investimentos. PublicidadeLeia também Cenário internacional de juros mais altos aumenta pressão para ajuste fiscal no próximo governoPressão dos juros: Instabilidade geopolítica leva bancos centrais mundo afora a adotar tom mais duroMarília Fontes acrescenta que, em situações como a atual, o dinheiro acaba não indo para empresas via ações ou via fundos de ações. “Fundos que têm uma gestão mais ativa acabam sofrendo resgates. A consequência disso é uma redução da equipe que trabalha nos fundos e nas assets (gestoras de recursos) menores.”A economista afirma ainda que, no início da pandemia, quando a Selic chegou a 2%, a procura por profissionais que analisam ações e fundos era muito grande. O cenário mudou quando o juro voltou a subir. Em 2024, quando a Selic completou um ano em patamar superior a 10%, surgiram os sinais de que a Faria Lima e o Leblon atravessariam um período mais complexo. Agora, sem perspectivas de uma redução significativa da taxa de juros, o pessimismo cresceu no mercado: a combinação da piora do cenário internacional e da incerteza fiscal no Brasil tem levado os economistas a projetar a Selic acima do patamar de 10% até 2029.PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADE“2023 e 2024 foram ruins, porque teve o ciclo de alta de juro, mas o mercado esperava que fosse alta temporária. O que está tirando um pouco a esperança do setor é que a gente acredita que o juro alto veio para ficar. A dívida é alta, a inflação é resiliente. Então, o juro vai continuar elevado por muito tempo”, diz Fontes, da Nord Investimentos.Professora e coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV EAESP, Claudia Yoshinaga lembra que, no caso das gestoras, a principal fonte de renda é a taxa de administração dos fundos e, quando o mercado está em um bom momento, a taxa de performance. “A receita vem quando se consegue aplicar essas taxas em cima dos montantes investidos. Por isso que os saldos que esses fundos têm são bastante importantes para explicar o quanto eles têm de valor disponível para pagar pessoal.”Os últimos dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram uma sequência de anos ruim para os fundos multimercados e de ações, com saídas de recursos, enquanto os de renda fixa receberam mais aportes dos investidores.PublicidadeEm 2025, por exemplo, os fundos multimercados registraram saída líquida de R$ 44,6 bilhões e os de ações, R$ 49,7 bilhões. Os fundos de renda fixa captaram R$ 76,1 bilhões. O número de fundos multimercados no País também recuou 1,54% nos últimos 12 meses, e o de ações, 1,72%. “No final, a conta é simples: se não tem patrimônio, fatura menos na taxa de administração, e a dificuldade de bater o CDI faz com que não se ganhe (a taxa de) performance. É um ataque duplo a uma gestora independente”, afirma Ricardo Campos, CEO da Reach Capital.Um outro impacto dos juros altos pode ser medido pela quantidade de gestoras de fundo. Elas ainda crescem, mas num ritmo menor do que em anos anteriores. Em 2025, o Brasil registrou 1.306 gestoras com ao menos um fundo ativo, segundo um levantamento da consultoria Elos Ayta, um crescimento de apenas 1,2% na comparação com 2024. Em 2020 e 2021, quando a Selic estava em um dígito, o aumento anual era de mais de 8%.“Essa indústria teve um boom significativo no fim dos anos 2010 e cresceu absurdamente justamente quando a Selic caiu para um dígito”, diz Yoshinaga, da FGV. “Neste ano, temos uma questão muito importante, que é a eleição presidencial e, com isso, qual vai ser o cenário macroeconômico para o País e como ele vai impactar ou não uma queda de juros”, acrescenta.Publicidade