Fortes emoções podem servir como “gatilho” para problemas cardíacos, dizem especialistas Torcida brasileira — Foto: Pedro Nunes/Reuters Assistir a um jogo do Brasil na Copa do Mundo desperta fortes emoções na população apaixonada pelo futebol, mas essa ansiedade pode causar riscos sérios para a saúde dos torcedores, em especial para aqueles que possuem alguma doença cardíaca. Na segunda-feira (29), quando o Brasil enfrentava o Japão pela rodada de 16-avos da Copa do Mundo, um homem de 60 anos faleceu ao passar mal após o gol da seleção japonesa, em uma padaria em Goiânia. Esse caso exemplifica um estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP) e do Hospital das Clínicas, que aponta que há um aumento de 16% nas chances de uma pessoa ter um infarto agudo do miocárdio em dias de jogos do Brasil na Copa do Mundo. Mesmo quando a Seleção brasileira não entra em campo, o risco de se ter um infarto durante o campeonato é 9% maior do que em dias normais. Entre os pacientes analisados, a idade média deles era de 61 anos e ao menos 60% deles eram homens. Apesar da alta no número de internações causadas por infarto, o estudo não identificou um aumento na mortalidade intra-hospitalar durante a Copa do Mundo, ou seja, a taxa de óbitos entre os internados em hospitais por problemas cardíacos não foi superior à dos dias em que não havia jogos. “Supõe-se que, em um país como o Brasil, onde o futebol é particularmente popular, as partidas de Copa do Mundo envolvendo a seleção brasileira poderiam ser um gatilho forte o suficiente para aumentar a incidência de emergências cardiovasculares”, escrevem os pesquisadores Daniel Guilherme Suzuki Borges, Rosane Aparecida Monteiro, André Schmidt e Antonio Pazin-Filho no estudo em questão. Ainda assim, o coordenador da cardiologia do Hospital Santa Marcelina Saúde, Juliano Novaes Cardoso, comenta que essa pesquisa é apenas “observacional”, mas que não avalia se o paciente tinha hipertensão ou colesterol elevado, que são fatores de risco para um infarto independente do estado emocional da pessoa. “O estudo revela que uma emoção intensa acaba funcionando como um gatilho em pessoas predispostas, mas não quer dizer que uma pessoa saudável não vai ter um infarto”, explica Cardoso. Por que isso acontece? Um infarto acontece quando há um entupimento de uma artéria coronária, que é responsável por levar o sangue para o músculo cardíaco. Essa obstrução faz com que uma área do músculo cardíaco “morra” por não receber sangue. Cardoso ressalta que não é a emoção do jogo que causa o entupimento da artéria, mas que ela pode funcionar como um gatilho devido a aceleração do coração e o aumento da pressão. Esse “gatilho” também é mencionado no estudo da USP e é descrito como “um estímulo externo, estado emocional ou atividade que produz mudanças fisiopatológicas, levando a um evento vascular". “Um paciente que, por exemplo, já possui uma placa de gordura na artéria, pode ser que em um pico de pressão, essa gordura se desloque ou forme um coágulo que obstrua 100% a passagem do sangue e isso cause um infarto”, explica Cardoso. Como evitar um infarto durante o jogo? O cardiologista do Santa Marcelina afirma que o importante é realizar um acompanhamento cardiológico com frequência, pois doenças coronarianas, o colesterol elevado e a pressão alta são doenças silenciosas, que por vezes só são descobertas quando o paciente infarta. Já durante os jogos do Brasil, Cardoso recomenda evitar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e de comidas muito gordurosas e salgadas. “Aproveite a pausa de hidratação dos jogadores para dar uma andada para relaxar um pouco e para pacientes que tomam remédio, a gente orienta a sempre manter os remédios”, explica o médico. Cardoso também alerta para que as pessoas fiquem atentas aos sintomas: Taquicardia; Palpitação ou suor excessivos; Falta de ar; Suor frio; Dor que pode ou não irradiar para o braço; Náusea; Desmaios. “Controlar as emoções durante o jogo é difícil, então para quem for pré-disposto ou quem já teve um infarto, o ideal seria não assistir ao jogo sozinho, porque se passar mal, é melhor ter alguém para ajudar”, diz Cardoso. Diante dos sintomas, o ideal é procurar um médico o mais rápido possível, pois um tratamento precoce ajuda a evitar complicações cardíacas. Metodologia do estudo O estudo foi publicado na revista Arquivos Brasileiros de Cardiologia, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, em 2013. Ele analisou mais de 155 mil internações hospitalares pelo Sistema Único de Saúde (SUS), causadas pela síndrome coronariana aguda, entre maio e agosto dos anos 1998, 2002, 2006 e 2010. A incidência de infartos e óbitos foi comparada entre três grupos: dias sem jogos de Copa do Mundo, dias de Copa do Mundo sem jogos do Brasil e dias de Copa do Mundo com jogos da seleção brasileira. Os pacientes analisados possuíam mais de 35 anos, com foco na população com maior risco para eventos coronarianos.
Como os jogos do Brasil na Copa do Mundo elevam o risco de infarto
Fortes emoções podem servir como “gatilho” para problemas cardíacos, dizem especialistas












