Inspirado em modelos da Dinamarca e dos EUA, o ‘cohousing’ ganha forma no país, incentivado por quem busca uma vida colaborativa 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O Vila Puri, projetado acima, fica na localidade rural de Brejal, em Petrópolis. As reuniões começaram em 2019, e 11 das 18 casas previstas serão entregues em outubro — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 04/07/2026 - 17:16 "Cohousing: Modelo Dinamarquês de Moradia para Idosos Cresce no Brasil" O conceito de "cohousing" ganha força no Brasil, inspirado por modelos da Dinamarca e EUA, promovendo uma vida colaborativa para pessoas 50+. Exemplos como Vila Puri em Petrópolis e projetos em Campinas e Mogi das Cruzes evidenciam o crescimento dessa alternativa habitacional. O modelo atende a uma demanda crescente entre idosos por autonomia e interação social, enquanto enfrenta desafios como custos e etarismo estrutural. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Não é condomínio, não é república, não é asilo. Em 2022, um grupo de senhoras batia rotineiramente às portas das autoridades de Petrópolis, na Região Serrana do Rio, numa “peleja” pelo aval para um projeto incomum. Sete anos depois da primeira chamada de integrantes, dez cotistas se mudam em outubro para o Vila Puri, um cohousing: misto de residências privadas e espaços compartilhados com foco na colaboração entre os moradores. Criados na Dinamarca nos anos 1970 e populares também no resto da Europa e nos Estados Unidos, os cohousings surgiram com formato multigeracional. Cada vez mais, porém, suprem uma lacuna habitacional para idosos. No Brasil, ainda incipiente, o movimento ganha tração pela mudança nas estruturas familiares, pela busca de novas formas de morar e pela transição demográfica — os idosos já são 16% dos brasileiros, segundo o IBGE, e a proporção só tende a aumentar. Desejo por autonomia e companhia estimulam comunidades 50+ 1 de 6 As reuniões na Vila Puri — Foto: Divulgação 2 de 6 A Vila Puri — Foto: Divulgação X de 6 Publicidade 6 fotos 3 de 6 Casas sendo costruídas nas Vila Puri — Foto: Divulgação 4 de 6 Em Mogi das Cruzes, o Bem Viver está em obras — Foto: Divulgação X de 6 Publicidade 5 de 6 Em Mogi das Cruzes, o Bem Viver está em obras. A previsão é que moradores, parte deles ao lado, no terreno do cohousing, se mudem até 2027 6 de 6 Vilarejo Senior, em Curitiba, em perspectiva — Foto: Divulgação X de 6 Publicidade Veja exemplos pelo Brasil Nas últimas décadas, mudou também o perfil do idoso médio, mais longevo e que busca preservar a autonomia e a qualidade de vida. Hoje, o cohousing atrai no país mais as mulheres, os aposentados, trabalhadores em regime remoto e profissionais liberais, por fatores como renda, projeto de vida e distância de centros urbanos. — A Vila Puri se tornou 50+ porque os jovens não apareceram. Não somos velhinhos que vão ficar tomando sopinha. Vamos morar em comunidade e trabalhar para ela. Pode haver conflitos, mas lidamos com eles. Um colega queria galinheiro, outra era vegetariana. A tendência é ter galinha da Angola contra animais peçonhentos — diz a integrante Ana Cristina Figueiredo. A construção de um cohousing sai a preço de custo. Ainda assim, para a implantação, costuma acompanhar valores médios de residências de médio e alto padrão, considerando a compra do terreno, o paisagismo, a infraestrutura comum. Na Vila Puri, as casas vão de 64 a 90 metros quadrados e partem de cerca de R$ 400 mil. Outros R$ 300 mil da área comum serão divididos. Por outro lado, os custos mensais tendem a cair com divisão de contas e compras por atacado. O modelo integra o setor do “senior living”, que passou de nicho de mercado para necessidade estrutural: — A economia prateada deve alcançar R$ 3 trilhões até 2030. Soma-se a isso o déficit de moradias adaptadas para esse público, o que indica um crescimento consistente nos próximos anos — afirma Álvaro Coelho da Fonseca, fundador da imobiliária que leva seu nome. Denise Bértoli encontrou no grupo da Vila ConViver, em Campinas (SP), a possibilidade da vida comunitária ativa que procurava, sem a lógica de condomínios fechados e algoritmos. O grupo começou há mais de dez anos com docentes da Unicamp, se expandiu e hoje tem 25 pessoas. O grupo agora rediscute o contrato com a construtora, pois os custos saltaram enquanto a aprovação do projeto se arrastava no poder público. A casa comum acabou reduzida. — É uma alternativa para a velhice, que é cara, com companhia e contato com aprendizados e diferenças. Mas, para muitas pessoas, morar em comunidade sênior é o fim da linha. Existe um etarismo estrutural. Em Mogi das Cruzes (SP), as obras do Cohousing Bem Viver começaram este ano e devem ficar prontas no fim de 2027. Ricardo Pessoa descobriu o modelo pelo Facebook há quase dez anos. Reuniu um grupo que pesquisou mais de cem terrenos até encontrar o ideal. Cinquenta pessoas vão habitar as 31 casas, ao custo por volta de R$ 550 mil (49m²) a R$ 1,1 milhão (110 m²). — Tem lista de espera. Colocamos limite de 70 anos, o que gerou críticas, mas o projeto exige muita energia. Serão no máximo dois pets por unidade, sem pássaros engaiolados, e a construção vai sair de uma vez só. A casa é de morada, não de veraneio — afirma o arquiteto. Outra iniciativa avançada é o Ciranda Cousing, em Glória do Goitá (PE). Em maio, começou a construção da quinta casa da comunidade, que já se reúne nos espaços comuns para eventos e ações de voluntariado. Em Franca (SP), Priscilla Mello busca integrantes para realizar o sonho da mãe e tirar do papel o Cohousing Santa Felicidade, de perfil 50+, na chácara da família. Projeto antecipado A arquiteta Tania Kopruszinski, por sua vez, visitou comunidades nos Estados Unidos e na Dinamarca e se encantou de vez com o modelo. No ano passado, a comunidade que ajudou a criar comprou o terreno que vai abrigar o Vilarejo Senior Cohousing, em Curitiba (PR). Precisou antecipar a elaboração do projeto para que interessados “visualizassem” a ideia. Hoje há nove sócios oficiais e outros seis em processo de ingresso. Serão 22 casas de três tamanhos num projeto 50+ com eixos também em segurança e sustentabilidade. — Idoso no Brasil não se preocupa como vai ser daqui a 10, 20 anos. O que acha bom aos 60, de repente não vai ser aos 80. Todos os sócios deverão construir no mesmo ritmo, mas é possível alugar até vir morar e os herdeiros venderem, em caso de morte, desde que o novo integrante tenha características necessárias para viver em comunidade — conta. — Filhos de integrantes se interessaram e podem se organizar entre eles. Quem sabe não vemos uma explosão de cohousings? Em outros países, já há cohousings voltadas especificamente para as comunidades LGBTQIAPN+ e latina, ou só de mulheres, o que gera questionamentos sobre uma suposta criação de “guetos”. Os integrantes rechaçam essa visão com a abertura para visitas, eventos e relações com a comunidade do entorno. Engenheiro civil especialista em longevidade, Norton Mello considera fundamental a mobilidade e o contato entre gerações e com parentes. — O cohousing permite decidir coletivamente por lazer, comida, viagens. Mas nem todas as cidades têm condições favoráveis. Vai funcionar melhor em municípios menores e nada impede que sejam verticalizados. É movimento que veio para multiplicar, e o déficit habitacional é gigantesco. A arquiteta e urbanista Rosangela Rachid acrescenta que cohousing “não é para todo mundo” e “faz ainda mais sentido” com serviços acessíveis e espaços públicos acolhedores. É preciso cuidado, segundo ela, para que o termo não vire apenas uma estratégia de marketing nem seja simplesmente importado. O poder público pode incorporar o modelo a políticas habitacionais. — O cohousing se torna mais acessível a diferentes faixas de renda quando há disponibilização de terrenos públicos, financiamento, incentivos fiscais, editais de apoio e parcerias público-privadas. Na Dinamarca, há locação social. Pensar a moradia é pensar em promoção de saúde, prevenção de agravos e bem-estar — ressalta a especialista.