Especialista em projetos residenciais explica como a tendência global de espaços projetados para saúde e bem-estar está mudando as decisões de design no Brasil e o que isso significa para quem vai reformar ou construir. Daugliesi Giacomasi Souza — Foto: Divulgação O mercado imobiliário global passou por uma transformação silenciosa nos últimos anos, e seus efeitos já chegam ao projeto residencial brasileiro. O setor de wellness real estate encerrou 2025 avaliado em US$ 673 bilhões, com crescimento de 15,2% em relação ao ano anterior, e a projeção do Global Wellness Institute é que ultrapasse US$ 1,1 trilhão até 2029, consolidando-se como o segmento de expansão mais acelerada dentro da economia global de bem-estar. Para Daugliesi Giacomasi Souza, designer de interiores e fundadora da DGDecor, empresa com atuação em projetos residenciais e gerenciamento de obras, esse movimento não é abstrato nem restrito ao mercado de alto padrão. É uma mudança concreta na forma como as pessoas pensam o espaço em que vivem, e ela já aparece nas conversas do primeiro atendimento. "O cliente que chega hoje não fala mais só em estética. Ele fala em como quer se sentir dentro de casa. Quer um ambiente que o ajude a descansar de verdade, que reduza o estresse, que funcione para a vida que ele tem. Isso é exatamente o que o wellness real estate propõe em escala global, e é o que o design de interiores sempre deveria ter entregado." O que é wellness real estate e por que o número importa? Wellness real estate é o conjunto de empreendimentos residenciais ou comerciais projetados de forma intencional para apoiar a saúde física e mental dos ocupantes, incorporando elementos como iluminação circadiana, qualidade do ar interior, materiais não tóxicos, acústica planejada, biofilia e conforto térmico como critérios centrais de projeto, não como diferenciais opcionais. O Global Wellness Institute define wellness real estate como ambientes construídos projetados, edificados e operados de forma proativa para apoiar a saúde holística dos ocupantes, visitantes e da comunidade, com base em seis princípios que vão do planejamento até a operação dos espaços. O dado financeiro que sustenta esse conceito é direto: imóveis com foco em wellness conseguem atingir prêmios de preço entre 10% e 25% maiores em relação a projetos convencionais equivalentes, o que transforma bem-estar em variável de retorno financeiro, não apenas de qualidade de vida. Esse descolamento de preço é o que faz o tema relevante para além do discurso de tendência. Quando um imóvel bem projetado do ponto de vista do bem-estar vale entre 10% e 25% a mais do que um imóvel convencional de mesma metragem e localização, a decisão de projeto deixa de ser estética e passa a ser patrimonial. Como essa tendência chega ao projeto residencial brasileiro? A chegada do wellness real estate ao Brasil não acontece apenas pelo topo do mercado, em condomínios de alto padrão com certificações internacionais e áreas de spa privativas. Ela ocorre também de forma mais capilar, através da mudança de critério com que o cliente de médio padrão passou a avaliar o próprio espaço de moradia. Segundo Guilherme Werner, sócio da Brain Inteligência Estratégica, a tendência do wellness se consolidou no pós-pandemia no Brasil, quando o desejo por tipologias que promovam bem-estar, com mais iluminação natural, elementos de biofilia e conforto ambiental, tornou-se cada vez mais presente no processo de compra, influenciando fortemente as decisões do mercado de médio, médio-alto e alto padrão. Daugliesi Giacomasi Souza observa esse movimento diretamente nos projetos que acompanha. O que antes chegava como pedido vago de "um ambiente mais gostoso", hoje chega com referências específicas: iluminação que não canse a vista, materiais que não liberem substâncias no ar, circulação que permita que a luz natural entre nos ambientes de uso mais intenso ao longo do dia. "O cliente não usa o termo wellness real estate, mas descreve exatamente o que o conceito propõe. Quer um quarto escuro para dormir melhor, uma sala com luz natural suficiente para trabalhar sem depender de iluminação artificial, uma cozinha ventilada. São decisões que parecem simples e que têm impacto direto na saúde e no bem-estar de quem mora ali. O projeto de design é o instrumento que transforma essas intenções em escolhas técnicas concretas", explica a fundadora da DGDecor. Os elementos de wellness que o design de interiores já aplica A tradução do wellness real estate para o projeto residencial de médio porte passa por decisões que estão dentro do escopo do design de interiores, sem exigir necessariamente uma certificação internacional ou um orçamento de alto padrão. Daugliesi Giacomasi Souza identifica quatro dimensões onde essa aplicação é mais direta e mais impactante na experiência de quem vive no espaço. A primeira é a iluminação. A iluminação circadiana, que ajusta a temperatura de cor da luz ao longo do dia, acompanhando os ritmos biológicos do corpo, é um dos elementos centrais do wellness real estate em escala global, e pode ser incorporada em projetos residenciais convencionais com planejamento adequado. A segunda é a qualidade dos materiais. Tintas com baixo índice de compostos orgânicos voláteis, revestimentos naturais e pisos de baixa emissão são escolhas que impactam a qualidade do ar interior, fator diretamente ligado à saúde respiratória e ao conforto diário de quem mora ali. A terceira é a biofilia, que é a integração intencional de elementos naturais como plantas, madeira, pedra e vistas para áreas verdes, com benefícios comprovados na redução de cortisol e no aumento da sensação de bem-estar. A quarta é a acústica, frequentemente negligenciada em projetos residenciais, mas com impacto direto na qualidade do sono e na capacidade de concentração. "Esses quatro elementos aparecem em qualquer projeto de wellness real estate de alto padrão no mundo. E todos eles podem ser incorporados num apartamento de médio padrão com as decisões certas no início do projeto. O que muda não é o orçamento. É a intenção com que cada escolha é feita", afirma Daugliesi Giacomasi Souza. O que muda para quem vai reformar ou construir agora? A chegada do wellness real estate como critério de projeto residencial tem uma implicação prática direta para quem está planejando uma reforma ou uma construção no Brasil em 2026: as decisões tomadas no início do projeto determinam se o espaço vai envelhecer bem ou vai demandar intervenções corretivas em poucos anos. A tendência deve continuar influenciando o setor, especialmente no segmento de médio e alto padrão, onde o consumidor tende a avaliar com mais profundidade aspectos ligados à qualidade de vida, e o que antes aparecia como diferencial de produto começa a se consolidar como uma demanda real de mercado. Para Daugliesi Giacomasi Souza, isso significa que o projeto de design de interiores começa a exercer um papel que vai além da estética: é o instrumento pelo qual decisões de saúde, bem-estar e valorização patrimonial se traduzem em escolhas concretas de materiais, iluminação, circulação e acabamento. "O wellness real estate chegou ao vocabulário do mercado imobiliário global como tendência. No projeto residencial brasileiro, ele já existe como prática. O que falta, em muitos casos, é a consciência de que as decisões de projeto têm esse peso. Quem entende isso antes da obra economiza na reforma e mora melhor por muito mais tempo."