Existe uma experiência que quase todo mundo já teve, mas raramente para para analisar. Você entra em um ambiente e algo muda: o ombro cai, a respiração abre, a cabeça desacelera. Não é o tamanho do espaço. Não é necessariamente o quanto ele custou. É alguma coisa mais difícil de nomear que age antes mesmo de você sentar. Essa experiência tem explicação científica, e ela está mudando a forma como designers de interiores, arquitetos e até médicos pensam sobre o papel do espaço na saúde humana. Saúde e bem-estar não são mais pautas restritas à medicina ou à alimentação. Cada vez mais se reconhece o espaço como um agente ativo na qualidade de vida, e o design de interiores tem um papel essencial nessa transformação. O que antes era percebido apenas como bom gosto ou conforto estético agora é compreendido como parte de um sistema integrado de saúde mental, física e sensorial. Para Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGDecor, empresa com atuação em projetos residenciais e gerenciamento de obras, essa mudança de perspectiva chegou de forma definitiva ao cotidiano dos projetos que ela acompanha. "O cliente que chega hoje não está só pedindo um ambiente bonito. Ele está pedindo um ambiente que funcione para a vida que ele tem, que ajude a desacelerar quando ele chega em casa, que facilite a concentração quando ele precisa trabalhar, que faça ele sentir que aquele espaço é realmente dele. Isso é muito diferente de querer uma decoração nova." O que a ciência diz sobre o espaço e o cérebro? A relação entre o ambiente construído e o comportamento humano é estudada há décadas, mas ganhou profundidade e evidências mais robustas nos últimos anos com o avanço da neuroarquitetura, campo que integra arquitetura, neurociência e psicologia para entender como espaços impactam o cérebro de quem os habita. A ciência comprova que o sistema límbico processa linhas curvas como sinais de segurança, enquanto ângulos retos podem ativar mecanismos de estresse. Através da neuroarquitetura, descobrimos que cada curva de uma poltrona ou a precisão de uma mesa dita nossos níveis de cortisol e dopamina. O Global Wellness Institute, uma das principais fontes de pesquisa para formuladores de políticas públicas e analistas da indústria global de bem-estar, destaca em seu relatório de 2026 que o ambiente construído está sendo reimaginado como infraestrutura de saúde, e o setor de imóveis projetados com foco em bem-estar deve ultrapassar US$ 1 trilhão até 2029. O dado mostra que o que começa como uma percepção individual, a sensação de que certos ambientes fazem bem e outros não, está se consolidando como uma área de conhecimento com impacto econômico e científico concreto. Daugliesi Giacomasi Souza observa esse fenômeno de dentro dos projetos que acompanha. "Quando a gente entende que o espaço não é neutro, que ele está o tempo todo mandando sinais para o sistema nervoso de quem vive ali, a forma de projetar muda completamente. Você começa a pensar em cada escolha, a altura do móvel, a temperatura da luz, a textura da parede, como algo que vai afetar como aquela pessoa vai se sentir naquele cômodo daqui a um, dois, dez anos." Iluminação: o elemento que mais impacta e menos recebe atenção De todos os elementos de um ambiente, a iluminação é o que tem impacto mais imediato e mais mensurável no bem-estar, e é também o que mais frequentemente é subestimado em projetos residenciais. Estudos mostram que a exposição adequada à luz solar pode melhorar o humor, aumentar a produtividade e regular os ciclos de sono, e um bom design deve maximizar a entrada de luz natural com janelas adequadas e espaços que permitam que a luz solar penetre nos interiores. Mas a iluminação artificial tem um papel igualmente crítico, especialmente em apartamentos urbanos onde a luz natural é limitada. A iluminação circadiana, que regula a temperatura de cor da luz ao longo do dia, acompanhando os ritmos biológicos do corpo humano, é particularmente impactante em ambientes sem janelas ou com pouca luz natural, como banheiros, áreas de trabalho e corredores. Quando implementada de forma adequada, também pode ajudar a reduzir efeitos sazonais e melhorar a qualidade do sono. Na prática dos projetos da DGDecor, Daugliesi Giacomasi Souza viu repetidamente o impacto que uma mudança de iluminação produz na percepção de um ambiente inteiro. "Uma das transformações mais rápidas que existe num projeto é trocar a temperatura da luz. Quando você sai de uma lâmpada fria e branca, que ativa o sistema nervoso e sinaliza alerta, para uma luz mais quente e indireta, o ambiente inteiro parece mais acolhedor, as pessoas ficam mais relaxadas, as conversas ficam mais fáceis. Isso não é impressão, é fisiologia." Cores, materiais e o que o espaço desorganizado faz com a mente As cores e os materiais utilizados na decoração de interiores impactam significativamente o estado de espírito e o conforto dos ocupantes. Cores suaves e naturais, como tons de azul, verde e neutros, criam uma atmosfera calma e relaxante, enquanto materiais naturais e sustentáveis, como madeira, pedra e tecidos orgânicos, não só melhoram a estética, mas também contribuem para um ambiente interior mais saudável. A desordem visual é outro fator que a pesquisa em psicologia ambiental vem mapeando com mais precisão. Espaços desorganizados, cheios de obstáculos ou estímulos visuais excessivos geram agitação e ansiedade. Um design de interiores bem estruturado, por outro lado, atua como facilitador do foco, da calma e da clareza mental, por meio de layouts inteligentes, mobiliário bem dimensionado, zonas bem definidas e estímulos visuais controlados. Daugliesi Giacomasi Souza descreve um padrão que identifica com frequência nas primeiras visitas a projetos residenciais. "A maioria das pessoas não sabe exatamente o que está incomodando no próprio espaço. Elas sentem que algo não funciona, que chegam em casa e não conseguem descansar de verdade, que o ambiente parece sempre bagunçado, mesmo quando acabaram de arrumar. Na maioria das vezes, o problema não é a quantidade de coisas, é a falta de um lugar certo para cada coisa e a falta de uma lógica visual que deixe o olhar descansar em algum ponto do ambiente sem encontrar conflito." A conexão com a natureza dentro de casa A presença de plantas, o uso de texturas orgânicas como madeira e pedra, e a valorização de vistas para áreas verdes trazem benefícios comprovados para a saúde mental, reduzindo o estresse e aumentando a criatividade. O conceito de design biofílico, que propõe a integração intencional de elementos naturais nos ambientes internos, deixou de ser uma tendência de nicho para se tornar um dos pilares do design residencial contemporâneo, especialmente em centros urbanos onde o contato com a natureza é escasso no cotidiano. Pesquisas emergentes validam esses espaços como terapêuticos, com métricas que medem reduções de cortisol através de ambientes biofílicos, e futuramente parcerias entre arquitetos e neurocientistas poderão calibrar layouts para perfis específicos, como espaços para neurodivergentes com texturas calmantes e iluminação não invasiva. Daugliesi Giacomasi Souza explica que essa direção representa uma evolução natural do que o design de interiores sempre fez em seu núcleo. "A sensibilidade de entender o que uma pessoa precisa para viver melhor sempre esteve no centro do projeto. O que muda agora é que a ciência está chegando para confirmar o que quem trabalha com espaço já sabia pela prática: o ambiente que você habita não é pano de fundo. Ele é parte ativa da sua vida." O que muda quando o espaço é projetado para quem vive nele? O ponto de chegada de toda essa conversa sobre neurociência, biofilia e psicologia ambiental é, no fundo, simples: um ambiente projetado para a pessoa que vive nele produz um resultado diferente de um ambiente projetado para parecer bonito em fotografia. Pesquisas nas áreas de psicologia ambiental demonstram que o design de interiores e a organização espacial podem afetar não apenas a estética de um ambiente, mas também o estado emocional e físico das pessoas que o habitam, e espaços bem planejados, que consideram luz natural, ventilação, acústica e disposição dos móveis, podem criar uma atmosfera de conforto e tranquilidade, aumentando a produtividade e a sensação de bem-estar. Para Daugliesi Giacomasi Souza, esse entendimento define a essência do trabalho que ela desenvolve na DGDecor. "O design de interiores vai além da criação do profissional. É ter a sensibilidade de compreender a essência do cliente e traduzir seus desejos em um projeto que ganha forma no papel e se faz concretizar. Quando o ambiente final faz a pessoa sentir que finalmente chegou em casa de verdade, que aquele espaço entende como ela vive, é quando o projeto cumpriu o que se propôs."
Como o ambiente em que você vive afeta seu humor, sua produtividade e sua saúde, revela Daugliesi Giacomasi Souza, da DGDecor
Designer de interiores com trajetória em projetos residenciais e gerenciamento de obras, ela explica como iluminação, cores, materiais e organização do espaço impactam diretamente o bem-estar de quem mora ali.









