Projetos de convivência, produção de conteúdo e cuidado emocional exibem novas formas de viver a maturidade 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 João Felipe Cardoso (de camisa polo azul), idealizador da experiência Fora de Casa, e participantes após encontro que promoveu um bingo — Foto: Divulgação/Fora de Casa RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 19/06/2026 - 17:21 Iniciativas no RJ Transformam Envelhecimento com Autonomia e Conexão O Brasil enfrenta um envelhecimento populacional crescente, transformando a forma de viver a maturidade. No Rio de Janeiro, surgem iniciativas como o "Fora de Casa", liderado por João Felipe Cardoso, que organiza encontros para idosos, promovendo autonomia e novas amizades. Influenciadores como Ricardo Costa da Mina desafiam estigmas do envelhecimento nas redes sociais. Além disso, projetos como o da psicóloga Manuela Mayworm oferecem apoio emocional a idosos isolados. Essas ações refletem uma busca por qualidade de vida e novas formas de convivência para a população madura. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O Brasil está envelhecendo, e essa transformação muda também a forma como parte da população encara a própria maturidade. Se durante muito tempo o envelhecimento esteve associado à ideia de desaceleração, recolhimento e permanência dentro de casa, hoje surgem sinais de uma geração que busca se manter ativa, ampliar relações sociais e construir novas formas de ocupar a cidade. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a população com mais de 60 anos passou de 11,3% em 2012 para 16,6% em 2025, consolidando a tendência de envelhecimento populacional no país. Mais do que um dado demográfico, esse movimento tem alterado hábitos de consumo e formas de convivência e criado demandas por serviços que antes tinham pouca visibilidade. Ao mesmo tempo em que cresce o número de pessoas vivendo essa etapa da vida, aumenta também a busca por experiências que ultrapassem os cuidados básicos de saúde e garantam pertencimento, autonomia, lazer e qualidade de vida. No Rio de Janeiro, esse movimento aparece em iniciativas que incentivam o encontro entre pessoas mais velhas, em conteúdos digitais que propõem outras formas de envelhecer e até em novos modelos de cuidado emocional adaptados à realidade dessa geração. Foi observando o isolamento dentro da própria família que o empreendedor João Felipe Cardoso, de 25 anos, decidiu criar o Fora de Casa. A ideia começou a partir de uma percepção particular entre os avós, mas ganhou outra dimensão conforme ele notava dificuldades semelhantes em pessoas próximas. Cardoso conta que muitos idosos ao seu redor permaneciam mais tempo em casa do que gostariam, não por falta de disposição, mas pela ausência de companhia, dificuldade de organização ou insegurança para realizar atividades sozinhos. Antes de colocar o projeto em prática, ele decidiu ouvir diretamente esse público e realizou entrevistas para entender hábitos, limitações e desejos relacionados à rotina. O resultado mostrou um padrão que acabou definindo os rumos do negócio. — A dor era muito parecida. Muitas mulheres deixaram de fazer coisas que gostavam porque não tinham companhia e tinham medo de ir sozinhas — conta. João Felipe Cardoso com seus avós Cristina Azevedo (à esquerda), Ina Yazeji e Caio Yazeji, que serviram de inspiração para o projeto — Foto: Divulgação/Fora de Casa Foi dessa percepção que nasceu o Fora de Casa, iniciativa que organiza encontros coletivos voltados para pessoas acima dos 60 anos. Hoje, o projeto funciona com uma programação semanal que engloba a Barra da Tijuca e a Zona Sul, com experiências variadas como almoços, cafés, oficinas, musicais, peças de teatro e passeios culturais. Os participantes acompanham a agenda inicialmente via rede social, escolhem os eventos que fazem sentido para sua rotina, se inscrevem pelo WhatsApp e participam em grupo. O valor da experiência varia de acordo com o evento. A proposta, segundo Cardoso, não é apenas oferecer entretenimento, e sim facilitar o primeiro passo para que essas pessoas retomem atividades que muitas vezes já faziam antes, mas deixaram de realizar ao longo dos anos. — É uma oportunidade de sair de casa, conhecer gente nova, fazer coisas de que gosta e não precisar organizar nada — diz. Entre os participantes está Ana Celi Pimentel de Souza, de 66 anos. Aposentada há dez anos, ela descreve a si mesma como alguém que gosta de ficar em casa. Ana estuda, lê, pratica atividade física e mantém contato com amigas. No entanto, ainda assim, percebeu que, aos poucos, sair para se divertir deixou de fazer parte da rotina. — Eu amo ficar em casa, adoro. Mas também fui ficando porque minha cachorrinha não pode ficar sozinha por muito tempo. E, nessa história de não deixar ela sozinha, eu me acostumei. Isso foi influenciando a ficar cada vez mais sedentária e a esquecer das coisas — conta. Foi no Instagram que ela conheceu o Fora de Casa. Ana viu um vídeo em que Cardoso explicava que queria criar atividades para incentivar os avós a saírem mais e resolveu dar uma chance ao projeto. O que começou com um almoço e um bingo, virou rotina: ela já participou de 17 experiências e passou a colecionar amizades a cada novo encontro. — Eu pensei, gente, ele tem idade para ser meu neto. E achei curioso um menino dessa idade preocupado com isso — conta. Atualmente, o projeto opera entre Rio e São Paulo e já reuniu aproximadamente 800 participantes. E para Cardoso, o impacto dos encontros muitas vezes extrapola o momento da experiência. — Não é raro que eles criem amizades profundas e passem a combinar saídas por conta própria, fora do grupo — completa o idealizador. A busca por novas formas de viver a maturidade também aparece em trajetórias individuais, de gente que procura desafiar as imagens tradicionais sobre o envelhecer. Aos 61 anos, o jornalista e influenciador carioca Ricardo Costa da Mina já acumula mais de 130 mil seguidores no Instagram e encontrou nas redes sociais um novo espaço para falar sobre maturidade. Criador de conteúdo reconhecido em 2025 pela Forbes Brasil, ele está entre os 50 influenciadores 50+ mais relevantes do país. Mina, morador da Lagoa da Barra, produz vídeos sobre rotina, autocuidado, alimentação e bem-estar. Mas a construção desse discurso começou bem antes das câmeras. Durante anos, ele manteve uma relação difícil com o próprio envelhecimento: pintava os cabelos, evitava assumir características da idade e acreditava que precisava corresponder às expectativas sociais construídas ao longo da vida. Ao mesmo tempo, carregava outro incômodo: viver sozinho, experiência que por muito tempo interpretou como sinal de derrota. Ricardo passou a enxergar a maturidade com mais beleza e hoje acolhe os símbolos dessa mudança — Foto: Acervo Pessoal — Eu me sentia fracassado por não ter construído uma família do jeito que imaginava. Até entender, no processo terapêutico, que não existe fracasso nisso — diz. A mudança começou quando ele percebeu que não precisava reconstruir a própria vida em outro lugar, mas sim transformar a forma como se relacionava consigo mesmo. O que começou como um registro pessoal acabou encontrando identificação em milhares de pessoas. Hoje, seus conteúdos reúnem seguidores de diferentes gerações interessados em discutir formas mais livres de viver a maturidade. — A maior dor que as pessoas têm é a solidão. E eu sou tão feliz do jeito que sou que senti vontade de mostrar que existe outra possibilidade — explica o influenciador. Mina afirma que o ponto central do seu trabalho é mostrar que amadurecer, viver sozinho ou construir uma vida diferente dos modelos tradicionais não precisa significar isolamento. Pode ser apenas outra forma de viver e de ser feliz. Em meio à busca por mais autonomia, convivência e qualidade de vida, especialistas em saúde mental observam que o aspecto emocional continua ocupando papel central nesse processo. Incomodada com os sinais de isolamento entre os vizinhos idosos do condomínio onde vive, na Barra, a psicóloga Manuela Mayworm, de 26 anos, decidiu criar um formato diferente de atendimento. Moradora da região há pouco tempo, em conversas cotidianas com vizinhos e encontros frequentes com moradores nas áreas comuns do residencial, ela percebeu que muitos idosos passavam boa parte do dia sozinhos, com dificuldades para manter uma rotina ativa e quase sem espaço de convivência. Manuela encontrou no atendimento a domicílio, uma nova maneira de atender seus pacientes — Foto: Divulgação “Por que não levar o atendimento psicológico até a casa deles?”, pensou. Assim nasceu o Projeto da Varanda, nome inspirado nas conversas que mantém com uma vizinha idosa pela janela de seu apartamento. A ideia se concretizou de forma simples. Para alcançar os moradores, a profissional criou um panfleto com letras grandes, pensado exatamente em facilitar a leitura do público idoso, e passou a divulgar o serviço no residencial. Atualmente, Manuela atende três idosos na área do Parque das Rosas. As principais demandas que observa entre eles envolvem dificuldade de lidar com o luto e o sentimento de solidão. Nem sempre as perdas estão relacionadas à morte de familiares ou amigos. O sofrimento pode surgir também das transformações que acompanham o envelhecimento. — As perdas, muitas vezes, são relacionadas à vida que já passou — explica a psicóloga. — Aposentadoria, redução do convívio social e mudanças físicas provocam questionamentos profundos sobre pertencimento e propósito que, com o tempo, podem contribuir para processos de isolamento. Ao atender os pacientes dentro de casa, ela consegue acessar informações que vão além do discurso. — Você vê na dinâmica da casa como a pessoa está. Ela falar é uma coisa, mas você ver todo o entorno é outra completamente diferente — observa. Para ela, olhar para esse público tende a se tornar cada vez mais necessário nos próximos anos.
Brasil envelhece e muda a forma de viver a maturidade; Rio vira polo de novas redes de convivência
Projetos de convivência, produção de conteúdo e cuidado emocional exibem novas formas de viver a maturidade







