O inquérito que baseia a Operação Exchange, deflagrada pela Polícia Federal (PF) nesta sexta-feira (3), foi iniciado a partir de uma comunicação formal enviada pelo Homeland Security Investigations (HSI), dos Estados Unidos, às autoridades brasileiras. Tudo começou em 2023 quando, durante uma fiscalização no Aeroporto de Fort Lauderdale, na Flórida, Ygor Fokin Saviolli foi detido e seu celular apreendido pelas autoridades americanas, que encontraram fotos e vídeos de grandes quantias de dinheiro e mensagens criptografadas que sugeriam a prática de ilícitos, incluindo o tráfico de drogas. As informações foram compartilhadas com a Polícia Federal brasileira por meio de acordos de cooperação entre os dois países e, desde então, o caso passou a ser investigado no Brasil. Entretanto, a decisão do governo dos EUA de sancionar dois brasileiros e empresas ligadas ao esquema não havia sido comunicada ao país e surpreendeu os investigadores da PF que trabalhavam no caso. Segundo uma fonte ouvida da PF pelo GLOBO, foi uma decisão "unilateral" do governo americano. O trabalho da PF vinha sendo realizado em cooperação com o HSI desde 2024. E, na avaliação de integrantes da corporação envolvidos no caso, se houvesse a ciência da sanção, a operação desta sexta teria sido adiantada, ou haveria ao menos um pedido para que a sanção fosse postergada. Na visão dessa fonte, a operação ficou prejudicada porque Victor Shimada, o alvo principal (e que foi um dos alvos da sanção), ainda estava sendo localizado – ele foi alvo de mandado de prisão e é considerado foragido. Segundo as investigações, o esquema era coordenado por Victor Henrique de Oliveira Shimada e Ygor Fokin Saviolly. Os dois, usando das empresas Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia LTDA e Hi Quality Importação e Distribuição LTDA atuavam para circular e ocultar recursos de origem ilícita, provenientes do tráfico de drogas e do comércio ilegal de outras substâncias. Ao todo, o esquema movimentou mais de R$ 10 bilhões. O GLOBO busca a defesa de Saviolly. Já a defesa de Shimada diz que ainda não teve acesso aos autos e que, quando tiver, "realizará a análise técnica do caso e adotará as medidas jurídicas que entender cabíveis". Devassa em celular levou à descoberta de esquema No aparelho de Ygor Fokin Saviolli, foram descobertas mensagens, fotos, vídeos e áudios que mostram o tamanho do esquema que envolve lavagem de dinheiro para diversas pessoas e empresas, incluindo pessoas associadas a organizações criminosas, tráfico de drogas e contrabando de mercadorias. Ele foi detido em outubro de 2023 no aeroporto e seu aparelho apreendido. Em agosto de 2024, a Justiça autorizou a quebra de sigilo dele e permitiu que a PF tivesse acesso ao conteúdo de seu aparelho. Ele foi um dos alvos de prisão da Operação Exchange, mas ele já está preso nos EUA desde janeiro deste ano, após ser denunciado pelo FBI por lavagem de dinheiro. As autoridades americanas informaram à PF que havia uma organização criminosa transnacional "especializada no branqueamento de capitais provenientes do tráfico internacional de drogas", que atuava simultaneamente no Brasil e nos EUA. Segundo as investigações da PF, de fato havia um grande volume de comunicações relatando uma possível venda de entorpecentes e a movimentação de altos valores em espécie, em transferências bancárias no Brasil e no exterior e também em criptoativos. A partir daí, chegou-se a Victor Shimada. Conversas entre os dois mostraram que havia uma operação que se estendia por diversas cidades americanas, como Houston, Chicago, Los Angeles e Atlanta, e em países como Portugal, Colômbia e Paraguai. Os dois usavam termos cifrados nas mensagens e apelidos para identificá-los nas conversas - Ygor era "Boa Sorte" e Shimada era "Bryan Willians". Há indícios de tráfico internacional de haxixe do Brasil para os EUA, de contrabando de alho vindo da Argentina para o Brasil, de remessas de valores em espécie do Brasil para Portugal, de transferências de quantias vultuosas para bancos do Paraguai e dos Estados Unidos, em uma ampla rede de contatos que envolvia vários operadores e intermediários. Shimada foi preso preventivamente em 2024, no âmbito da ação penal na qual ele foi condenado por lavagem de dinheiro por participar de um esquema que realizou 2.799 transferências fraudulentas via Pix em apenas um final de semana, em agosto de 2024, totalizando R$ 35 milhões desviados do banco BV Financeira. Os valores foram enviados para a conta da empresa de Shimada, a Victory Trading, e convertidos em criptomoedas. Ele foi solto por habeas corpus e, agora, está foragido. Com sua prisão, a PF pôde ter acesso a seus dados telefônicos, após decisão judicial de janeiro de 2025. Pela análise de seu aparelho, constatou-se que as tratativas sobre recolhimento, transporte e destinação de dinheiro eram rotina, o que possibilitou a identificação da rede de operadores, clientes e empresas que usavam de seus serviços de lavagem de dinheiro. Na prática, Shimada e Saviolli eram "doleiros", que recebiam dinheiro (muitas vezes em espécie) de "clientes" que desejavam ocultar a origem ilícita dos recursos. Às vezes, a pessoa precisava que uma quantia fosse recebida no Brasil e entregue, em euros, em Portugal – em alguns casos, o dinheiro vinha de integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Em outras situações, um dinheiro físico precisava ser transformado em Bitcoin, ou um cliente pedia que determinada quantia fosse dividida em transferências parceladas para contas nos Estados Unidos. Também houve casos em que o grupo atuava como negociador de produtos contrabandeados, como remessas de alho e cebola vindas da Argentina para o Brasil de maneira ilegal. Ao todo, foram expedidos 11 mandados de prisão temporária e 13 de busca e apreensão. Veja quem são os alvos: Victor Henrique de Oliveira Shimada Um dos mandados de prisão visa a prender Victor Henrique de Oliveira Shimada, que é considerado foragido da Justiça. Ele não foi localizado pelas autoridades até o momento. Shimada foi um dos alvos das sanções anunciadas pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos contra cidadãos e empresas brasileiras, tem 41 anos, e foi condenado por integrar um esquema milionário de fraude eletrônica e lavagem de dinheiro contra o antigo Banco Votorantim, hoje BV. Além disso, ele é réu no caso Vai de Bet e Corinthians. Ao sancionar Shimada, as autoridades americanas apontaram vínculo com o PCC. Mas o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), descartou esse elo ao GLOBO na última quinta-feira (2). Shimada é sócio de empresas como Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda e da Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda, que tem sede em Portugal, e também foi sanciona pelos EUA. Shimada já foi condenado por lavagem de dinheiro, após ser acusado de participar de um esquema que realizou 2.799 transferências fraudulentas via Pix em apenas um final de semana, em agosto de 2024, totalizando R$ 35 milhões desviados do BV. Os valores foram enviados para a conta da empresa de Shimada, a Victory Trading, também alvo do Departamento do Tesouro Americano, e rapidamente convertidos em criptomoedas para dificultar o rastreamento. Shimada chegou a ser preso preventivamente em 2024, mas foi solto no mês seguinte, mediante habeas corpus, e não precisa usar tornozeleira eletrônica. Em 2025, ele foi denunciado por integrar um esquema de corrupção, furto e lavagem de dinheiro dentro da gestão do Sport Club Corinthians Paulista. Shimada é apontado como integrante do núcleo de intermediação e operação do esquema. Segundo a denúncia, o o Corinthians firmou um contrato de patrocínio de R$ 360 milhões com a Vai de Bet, empresa de apostas esportivas, em janeiro de 2024. Essa contratação, entretanto, contou com intermediadores, que desviaram as comissões relativas ao patrocínio em um esquema que envolvia laranjas e empresas de fachada, que chegava até a Victory Trading, e havia ocultação de bens e valores. A defesa de Shimada afirmou, em nota que "ainda não dispõe de acesso às decisões judiciais nem aos elementos que fundamentaram as medidas adotadas" e que, por isso, "qualquer manifestação sobre os fatos ou sobre o objeto da investigação seria precipitada". Na manifestação, o advogado Yuri Cruz, que representa o suspeito, afirma que fará a análise técnica do caso e adotará medidas judiciais cabíveis "tão logo tenha acesso aos autos e às informações oficiais". Segundo mensagens interceptadas pela PF, Victor frequentemente pedia que Stella recolhesse dinheiro em espécie e fizesse planilhas financeiras. Em uma das conversas, em maio de 2023, Stella envia uma foto de uma sacola cheia de notas de euros, junto com a mensagem "77k Lisboa/feito". Segundo a PF, os valores foram remetidos para Lisboa, em Portugal. Ela também atuava como interlocutora do doleiro com outros integrantes da organização criminosa e fazia a gestão de operações financeiras. fazendo planilhas e balanços. Ygor Fokin Saviolli Apontado como co-líder e um dos coordenadores do esquema, foi detido no Aeroporto de Fort Lauderdale, nos EUA, em outubro de 2023. A PF imputa a ele os crimes de lavagem de dinheiro e tráfico internacional de drogas, e seria o principal articulador da negociação dos entorpecentes e também controlava os fluxos financeiros da organização criminosa, e sua conta bancária na Hi Quality era utilizada para depositar dinheiro que ele ganhava da venda do haxixe. Ygor foi citado em nove comunicações do Coaf que somaram mais de R$ 10 milhões. Em janeiro deste ano, ele foi preso nos Estados Unidos. Stella Stefania Nunes Henrique de Oliveira Stella seria prima e uma espécie de secretária de Shimada e ajudava no apoio logístico das empresas do empresário, coletando grandes quantias de dinheiro. Ela também foi sancionada pelos Estados Unidos por elo com o PCC. Segundo mensagens interceptadas pela PF, Victor frequentemente pedia que Stella recolhesse dinheiro em espécie e fizesse planilhas financeiras. Em uma das conversas, em maio de 2023, Stella envia uma foto de uma sacola cheia de notas de euros, junto com a mensagem "77k Lisboa/feito". Segundo a PF, os valores foram remetidos para Lisboa, em Portugal. Ela também atuava como interlocutora do doleiro com outros integrantes da organização criminosa e fazia a gestão de operações financeiras. fazendo planilhas e balanços. João Gilberto Codognotto Também foi preso nesta sexta o empresário João Gilberto Codognotto, de codinome Giba, do setor cafeeiro de Minas Gerais. Segundo investigações, ele seria o operador financeiro responsável por intermediar remessas de alto valor diretamente com Shimada, e por transferir esses recursos para o exterior. Os valors eram movimentados pela conta da JGC Intermediação de Negócios Eireli, empresa de Codognotto. A PF interceptou conversas entre Shimada e Codgnotto por mensagens trocadas entre 2022 e 2023, nas quais eles discutem o depósito de diversos valores em bancos brasileiros e também do Paraguai e Argentina. Em março de 2023, por exemplo, Codognoto pediu que Shimada transferisse R$ 190 mil para os Estados Unidos via TED. Em 2022, o empresário propôs ao doleiro depoistar 50 mil dólares convertidos em guaranis (moeda paraguaia) em uma conta no país vizinho. No ano passado, o empresário já havia sido denunciado por integrar associação criminosa no âmbito da Operação Terra Fértil, que apura um esquema de lavagem de dinheiro para organizações criminosas. O grupo do qual Codognotto fazia parte, segundo as investigações, teria conexão com o PCC e com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Ele foi preso nesta sexta. Paulo Roberto Macedo Paulo Roberto Macedo, conhecido como "Urso", usava a empresa P. Urso Serviços Administrativos LTDA, localizada na Zona Leste de São Paulo, para movimentar grandes quantias de dinheiro, segundo as investigações. Ele também era responsável pelo transporte e guarda de recursos em espécie. Em áudios, Paulo relatava a movimentação de quantias vultuosas. Em uma das conversas, diz que um homem chamado Nassir "deixou R$ 20.780" e que depois iria transferir "mais R$ 14 mil", e relata que mais tarde iria "mandar a soma das contas". Para a PF, o teor das conversas evidencia que Ygor tinha o controle formal dos valores e que Paulo fazia a intermediação no recebimento dos recursos. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) registrou oito comunicações de movimentações financeiras envolvendo Paulo Roberto, que somam mais de R$ 104 milhões. Ele foi preso nesta sexta. Gabriel Innocente Segundo a PF, Gabriel Innocente vendia drogas, especialmente haxixe, para Ygor, que pagava Gabriel por meio de transferências internacionais. Os dois negociavam quantidades altas de drogas, e a PF colheu comprovantes de transferência de mais de US$ 10 mil (R$ 51 mil na cotação atual) entre os dois. Em conversas, Gabriel chega a sinalizar que também vende entorpecentes no Brasil, e conta que venderia haxixe por R$ 150,00 o grama. Ele foi preso nesta sexta. Jefferson Costa de Britis Também preso nesta sexta, Jefferson Costa de Britis é contador e prestava serviços para as principais empresas envolvidas no esquema. De acordo com as investigações, ele contribuía "para a manutenção formal de empresas sem lastro econômico real e para a sustentação documental das movimentações atípicas, figurando ainda em procurações ativas para atuação em favor dessas empresas". Leandro de Proença É apontado como parceiro de Shimada na operação de grandes valores, especialmente criptoativos e na remessa internacional de dinheiro. Em conversas obtidas pelos investigadores, Leandro relata preocupação com o possível sumiço de R$ 2 milhões e tenta conversar com Shimada para entender o ocorrido, o que indica, segundo a PF, que Leandro ocupava posição de intermediário entre Shimada e terceiros credores. Em uma troca de mensagens em julho de 2024, por exemplo, Leandro diz a Shimada que tinha a receber US$ 85 mil, de maneira parcelada, e afirma que precisava de parte dos valores em espécie. Depois, encaminha um QR Code no qual estava o endereço para receber os valores em bitcoin. Também há registros de transferências via Zelle e Wells Fargo, plataformas americanas que servem para movimentação financeira. Ele foi preso nesta sexta. Carlos Henrique Costa Almeida As investigações apontam que Carlos Henrique Costa Almeida seria o responsável por receber dinheiro do esquema na Europa. Em um dos casos, Almeida fez a intermediação de um cliente, que seria integrante do PCC, com Shimada, dizendo que havia um "maluco da Baixada (Santista)" precisando pegar recursos em euros, e os dois fizeram um acerto para que o dinheiro fosse entregue em Lisboa. Em outro caso, foi Shimada quem contatou Henrique oferecendo 300 mil euros para revenda para brasileiros, por 5% a menos do que o valor do câmbio comercial. Há diversos outros indícios, por conversas obtidas pela PF, de que a movimentação financeira entre os dois era habitual, sempre envolvendo quantias altas e remessas de dinheiro em espécie em euros. Em uma das mensagens, Almeida diz abertamente que "estava fazendo contrabando" e detalha as quantias que havia buscado. A PF aponta que ele cometeu crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas e operação de câmbio não autorizada. Ele também foi preso nesta sexta. Diego Lameiro Diz Considerado foragido, Diego Lameiro Diz também foi um dos alvos de prisão na operação Exchange e, segundo o inquérito, importante alho da Argentina ilegalmente. Shimada negociava o produto com ele para terceiros. Os investigadores apontam que a participação de Diz na dinâmica demonstra que o esquema liderado por Shimada não se limitava à movimentação de dinheiro e criptoativos, mas também desenvolvia "atividades de comércio ilícito de mercadorias". A PF imputa a ele o crime de descaminho. Romany Cutolo Bonente Também considerado foragido, ele é advogado e identificado sob o codinome "Roma". Segundo a PF, ele seria um "intermediário de alto nível" de Shimada e de pessoas ligadas ao PCC, e já foi condenado por furto, estelionato, associação criminosa e interceptação telefônica não autorizada. No esquema, Romany seria uma espécie de intermediário de relacionamentos com pessoas envolvidas com a facção criminosa, e cobrava Shimada sobre valores de terceiros, incluindo mais de R$ 2 milhões de um homem identificado apenas como "Ratão". Ele também atuaria como uma espécie de "gestor" de conflitos internos, e a polícia aponta que ele é suspeito dos crimes de lavagem de dinheiro, associação criminosa e corrupção ativa.