Analistas privados estimam que o governo precisaria produzir superávits primários de 1,5% a 2% do PIB para estabilizar a dívida bruta por volta de 2032 — Foto: Fotolia O cenário para a evolução da dívida pública não é favorável nem no curto nem no longo prazo. Já em 2028, mesmo com contingenciamento máximo permitido por lei, o cumprimento das metas fiscais exigiria um aumento adicional de arrecadação. No longo prazo, a dívida bruta, de 83,6% em 2026, levaria uma década com cumprimento da meta de superávits primários simplesmente para voltar ao ponto de partida, em 83,1% do PIB em 2036. Os dados são do Relatório de Projeções Fiscais do Tesouro Nacional. Projeções de longo prazo no Brasil raramente acertam o alvo e têm desempenho ainda pior que as de curto prazo. No entanto, no cenário inicial projetado, baseados em status quo e dados históricos, os parâmetros considerados pelo Tesouro são relativamente otimistas. A economia crescerá 2,6% de 2027 a 2029 e 2,9% em 2029 e em 2030, acima do seu potencial e, mesmo assim, a meta de inflação, de 3%, será atingida a partir de 2028 e cumprida daí em diante. Ainda assim, faltarão recursos. Sem novas medidas de arrecadação além das executadas em 2026, e com o contingenciamento de despesas máximo permitido, que preserva 75% de sua dotação orçamentária, há ainda assim asfixia crescente das despesas discricionárias, que incluem o custeio da máquina pública. Em 2028, por exemplo, com represamento de despesas de R$ 66,6 bilhões, há falta de R$ 10 bilhões para o cumprimento do piso da meta (0,75%) de resultado fiscal de 1% do PIB. No ano seguinte, o contingenciamento máximo subiria a R$ 68,4 bilhões, e a insuficiência de recursos se alçaria a R$ 80,6 bilhões em 2029. Com os mesmos parâmetros, a carência em 2030 seria de R$ 136,4 bilhões. Essa progressão culmina em 2034, quando, segundo o Tesouro, não haveria dinheiro suficiente para o governo cumprir as obrigações básicas, isto é, haveria o risco de paralisação da máquina pública. A ameaça existia antes para 2027, mas o Congresso providencialmente diluiu por 10 anos o prazo de pagamento de precatórios, que deveria se tornar integral no ano que vem. A partir de 2034, as despesas discricionárias são reduzidas brutalmente. O espaço para elas, de R$ 122 bilhões em 2027, decai para R$ 57 bilhões em 2030, torna-se negativo em R$ 11 bilhões em 2034, R$ 28 bilhões negativos em 2035 e chega a R$ 53 bilhões negativos em 2036. Para evitar o descumprimento da meta e atingir seu centro, o Tesouro estima a necessidade de aumento de receitas de 0,8% do PIB em 2028, 1,2% em 2029 e 1,6% em 2030. Já em 2027, seriam necessárias medidas adicionais de 0,2% do PIB. Ao longo do período de 2027 a 2036, aumentou a necessidade de arrecadação média extra de 1% na edição anterior do relatório do Tesouro, para 1,2% do PIB agora. O Tesouro criou também um cenário de referência, em que por princípio a meta fiscal é cumprida em todos os anos do período. Calculou assim qual o resultado primário que seria necessário fazer com que a dívida bruta do governo geral se estabilizasse no nível de 2025, de 78,5% do PIB. O resultado ideal é chocante. Com um déficit de 0,4% do PIB em 2026 (o real, não o do regime fiscal, que exclui uma série de despesas), seria preciso obter um superávit fiscal de 4,1% do PIB, ou cerca de R$ 560 bilhões de economia. Em 2027, o resultado primário deveria ser de 2,1% do PIB, ou R$ 340 bilhões. Os superávits necessários se estabilizariam em torno de 1,4% do PIB a partir de 2032 até 2036. Nessa sequência, que implicaria um choque fiscal já este ano, a dívida se estabilizaria ou decresceria a partir de 2030. Para parâmetro de comparação, em quatro anos de governo Lula, não houve um centavo de superávit fiscal. Os juros chegaram a seu maior nível em quase duas décadas porque o endividamento público cresce sem parar. É uma conta pesada, que se estende pelo futuro. Na projeção do Tesouro do cenário inicial, que não prevê novos aumentos das taxas em 10 anos, e que a inflação permanecerá comportada na meta, os encargos financeiros permanecerão por todo tempo acima de R$ 1 trilhão: R$ 1,24 trilhão em 2026 e R$ 1,6 trilhão em 2036. O Tesouro projeta que o cenário de referência, em que as metas fiscais são cumpridas, requer um esforço fiscal médio de 1,2% do PIB de 2027 a 2036. Analistas privados estimam que superávits primários de 1,5% a 2% do PIB estabilizariam a dívida bruta por volta de 2032. Mas isto na verdade requer que as metas do novo regime fiscal previstas fossem revistas e aumentadas. Pelo Projeto de Lei orçamentária de 2027, elas foram fixadas em 0,5% do PIB em 2027, 1% em 2028, 1,25% em 2029 e 1,5% em 2030. Uma antecipação desse cronograma, além de melhorar a trajetória de endividamento, teria a vantagem adicional de melhorar as expectativas, hoje muito negativas. Para isso também seria preciso diminuir a relação entre aumento de arrecadação e despesas, reduzindo o teto máximo de 2,5% para 2% ou menos. Tudo isso é culpa do atual governo, que nunca se preocupou em resolver a questão fiscal. O presidente Lula, pelas pesquisas de agora favorito nas eleições, só fez aumentar custos. Seu principal opositor, Flavio Bolsonaro, não fala do assunto.
Cumprir as metas fiscais até 2030 será desafiador
Analistas privados estimam que o governo precisaria produzir superávits primários de 1,5% a 2% do PIB para estabilizar a dívida bruta por volta de 2032














