Setor já tem políticas rigorosas de controle, mas riscos aumentam após EUA classificarem criminosos do Brasil na lista de organizações terroristas Bancos e outras empresas financeiras que operam no Brasil poderão começar a adotar, por conta própria, políticas mais restritivas na sua relação com clientes. A avaliação de participantes do setor ouvidos pelo Valor é que esse pode ser o caminho adotado por algumas instituições como resposta à decisão do governo dos EUA de classificar as duas maiores facções criminosas do Brasil, PCC e Comando Vermelho, como organizações terroristas. Bancos no Brasil já adotam políticas rigorosas de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento ao terrorismo (PLD FT). Mas reconhecem que não têm capacidade para rastrear em profundidade 100% de seu clientes. A decisão americana sobre os grupos criminosos entrou em vigor em 5 de junho. Antes disso, as implicações para os bancos que, inadvertidamente, tinham clientes com alguma ligação com essas organizações alimentavam menos preocupação. Agora, o risco é que bancos - assim como empresas de outros setores - sejam sancionados nos EUA por não fazerem o suficiente para evitar que suas operações se cruzem com interesses de PCC ou CV. “Os bancos brasileiros já adotam práticas consolidadas de prevenção a ilícitos financeiros, com uma robusta política de integridade voltada ao combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo”, disse a Febraban, entidade que reúne os grandes bancos do país. Em 2025, o setor financeiro fez 4,7 milhões de registros ao Coaf relativos a operações suspeitas e saques em espécie acima de R$ 50 mil. Mas, desde que a classificação do dois grupos como terroristas entrou em vigor, bancos que operam no Brasil vinham nutrindo a expectativa de que os EUA divulgassem nomes de pessoas e empresas com vínculos com PCC ou CV. Um integrante de um grande banco no país que acompanha o tema afirmou à reportagem que sem a divulgação por parte dos EUA de quem exatamente está no alvo de autoridades americanas os bancos não têm como saber com precisão quais investidores devem barrar. Ontem, o Tesouro americano anunciou a inclusão na sua lista de alvos sancionados dois brasileiros e três empresas apontados como vinculados à lavagem de dinheiro do PCC nos EUA. Foi a primeira iniciativa desse tipo após a classificação de PCC e CV como terroristas. A expectativa no setor bancário é que mais nomes sejam incluídos na lista pública de sanções americanas por ligações com os grupos - o que servirá para balizar medidas dos bancos no Brasil contra esse alvos. No entanto, não está claro se, de fato, haverá novas listas de nomes sancionados ou quando eles serão divulgados. É diante dessa incerteza sobre quem exatamente deve ser barrado como cliente que algumas instituições financeiras no Brasil poderão passar a ser mais rigorosas em suas operações. Outro participante do setor, que também pediu para não ser citado nominalmente nesta reportagem, disse que a decisão dos EUA impõe consequências mais sérias a instituições que deem algum tipo apoio ao crime “e isso, naturalmente, deve interferir o apetite ao risco por parte das instituições financeiras”. Ele citou como exemplo clientes em regiões do país que geram mais alertas ou cuja atividade sabidamente está mais exposta ao risco de contágio pelo crime organizado. Ainda que sejam clientes antigos e com histórico positivo, continua ele, a nova realidade imposta pelos EUA, poderá levar alguns bancos a rejeitar esses e outros perfis. Normativas do Banco Central já estabelecem que os bancos tenham medidas para se precaver de riscos em cada setor. Mas a classificação americana criou um novo quadro. “No caso de corrupção, o governo americano já tem expectativas bem estabelecidas sobre o que empresas precisam fazer para provar que elas agiram de boa-fé”, diz Thiago Jabor Pinheiro, sócio da prática de Investigações Corporativas do escritório Mattos Filho. “No entanto, sobre terrorismo, como os procedentes não são tão numerosos, basta que a empresa consiga mostrar que tomou passos razoáveis, ou seja, que fez uma análise de risco, que consultou especialistas, que entendeu os riscos e tomou medidas adequadas e que apesar disso acabou sendo afetada”, disse. Dessa forma, afirmou ele, a empresa poderá ter um tratamento menos rigoroso por parte de autoridades americanas. A Febraban diz que instituições financeiras e entidades buscam compreender a extensão e os possíveis efeitos da medida americana e para isso têm mantido diálogo com bancos, consultores e associações empresariais de outros países que já passaram por situação semelhante, entre eles o México, que no ano passado teve grupos criminosos locais incluídos na lista americana de terroristas. Passado quase um mês da entrada em vigor da classificação do PCC e do CV como terroristas, o ambiente entre bancos no Brasil está longe de ser de preocupação ou medo. A definição ouvida pela reportagem é que se trata de um momento de atenção.