Após o anúncio, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ter visto com “preocupação” a medida 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Pichação do PCC: EUA aplicaram sanções contra Shimada sob alegação de ligação com facção, citada como ameaça à segurança do país — Foto: Alexandre Cassiano/3-9-2024 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 01/07/2026 - 22:20 Tesouro dos EUA sanciona brasileiros por lavagem de dinheiro do PCC O Departamento do Tesouro dos EUA impôs sanções a dois brasileiros e quatro empresas por suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC, considerada pela gestão Trump uma "ameaça significativa". As sanções incluem o bloqueio de bens nos EUA. O governo Lula expressou preocupação, destacando possíveis impactos em instituições financeiras. Os alvos, Victor Shimada e Stella de Oliveira, estariam envolvidos em movimentações ilícitas de US$ 30 milhões. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em mais uma decisão mirando facções criminosas brasileiras, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou ontem sanções, entre elas o bloqueio de bens, a dois brasileiros e quatro empresas ligadas a eles registradas em São Paulo e Portugal por suspeita de atuação em lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC). Ao divulgar a medida, a gestão do presidente americano, Donald Trump, descreveu a facção paulista como a “maior organização criminosa transnacional do hemisfério ocidental” e afirmou que o grupo representa uma “ameaça significativa à segurança nacional dos EUA”. Após o anúncio, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ter visto com “preocupação” a medida, que pode gerar “efeitos indiretos relevantes sobre instituições financeiras estrangeiras, inclusive brasileiras, em razão do risco de restrições regulatórias e eventual exposição a sanções secundárias”. Essa foi a primeira sanção contra suspeitos de conexões com a facção brasileira após a gestão Trump classificar, em maio, o PCC e o Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas. Os principais alvos das sanções são Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. O órgão americano afirma que Shimada fazia a ligação entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais, mas não detalhou essas conexões. O Tesouro americano alega que o brasileiro lidera uma estrutura que movimentou mais de US$ 30 milhões, o equivalente a R$ 155 milhões, em recursos ilícitos lavados em diversas cidades dos Estados Unidos, utilizando criptomoedas para enviar o dinheiro de volta ao Brasil em benefício do PCC. No Brasil, embora Shimada tenha extensa ficha criminal e já tenha sido condenado por integrar um esquema milionário de fraude, as autoridades não apontaram até o momento uma vinculação entre ele e suas empresas com a facção. Victor Shimada, sancionado pelos EUA por suposto elo com o PCC — Foto: Reprodução Sem surpresa A Secretaria Nacional de Justiça (Senajus), ligada ao Ministério da Justiça, afirmou que as medidas contra os brasileiros podem anteceder “providências ainda mais gravosas, adotadas à margem dos mecanismos ordinários de cooperação internacional”. Para a secretaria, a “decisão não surpreende” e é um desdobramento que já se antevia, após a classificação do PCC como organização terrorista. O Ministério da Justiça ainda analisa o histórico criminal de cada um deles e se há eventual ligação com a organização criminosa. Com a medida, os bens e interesses dos sancionados nos EUA ou sob controle de cidadãos americanos ficam bloqueados. Além disso, pessoas e empresas no país ficam proibidas de realizar transações com os alvos, e instituições financeiras estrangeiras que mantiverem relações relevantes com eles também podem receber punições secundárias. Shimada é sócio da Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda, Pixwave Soluções de Pagamentos e Wave Construções Inteligentes. Todas as três, juntamente com a empresa Avenidas Flutuantes, também de Shimada, mas sediada em Portugal, foram sancionadas. Já Stella de Oliveira é descrita como “colaboradora próxima e parente” de Shimada. Ela teria atuado “como sua secretária e serviu como intermediária na coleta de grandes quantias de dinheiro em espécie, prestando serviços logísticos fundamentais”. Em dezembro, Shimada e Stella foram denunciados na Justiça da Flórida por participação no esquema de lavagem em instituições financeiras de 12 cidades americanas, como Denver, Rochester, Atlanta e Chicago. A denúncia afirma que os valores eram provenientes do fornecimento de drogas, mas não cita facções brasileiras. Segundo o documento, o fornecedor das substâncias ilegais que se beneficiava do esquema era o mexicano Manuel Garcia-Urrea, o Manny. Conhecidos como “Japa” e “Lara Croft“, Shimada e Stella teriam a ajuda de brasileiros residentes nos EUA para movimentar o dinheiro. Em janeiro, seis pessoas envolvidas no esquema, entre elas outros brasileiro, foram detidas pelas autoridades americanas. Movimentação menor Para o pesquisador e especialista em Segurança Pública Roberto Uchôa, os valores movimentados indicam que o esquema alvo das sanções seria de menor relevância dentro da área de atuação do PCC. — Parece de pouca relevância dentro do contexto de uma organização criminosa como o PCC. A movimentação anual que a facção faz no tráfico de drogas é de bilhões de reais — diz Uchôa — Não é algo que realmente tenha como objetivo afetar as estruturas do PCC. Me parece ser uma investigação em que, de alguma forma, alcança-se essa possível conexão, que não está muito clara. No Brasil, Shimada foi condenado por integrar um esquema de fraude eletrônica e lavagem de dinheiro contra o antigo Banco Votorantim, hoje BV. Além disso, ele é réu no caso Vai de Bet e Corinthians, que apura desvios de recursos do contrato de patrocínio entre o time e a casa de apostas. Apesar desses casos, o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo, referência no combate ao PCC, afirma que o órgão não tem registro de ligação entre Shimada e a facção. — Ele foi denunciado por lavagem de dinheiro por ter intermediado o envio de recursos irregulares naquele caso da Vai de Bet. E responde a outro processo na Justiça Federal por lavagem. Mas não há notícia de envolvimento com o PCC — disse Gakiya. — Agora, não temos informação se alguma investigação do FBI e do DOJ na Flórida apontaram alguma ligação. Essa classificação é unilateral, não fomos consultados. Shimada foi condenado no âmbito da operação Retorno Velado, da Polícia Federal (PF), deflagrada em dezembro de 2024. Ele foi acusado de participar de um esquema que realizou 2.799 transferências fraudulentas via Pix em apenas um final de semana, em agosto de 2024, totalizando R$ 35 milhões desviados do BV. Os valores foram enviados para uma conta da Victory Trading e convertidos em criptomoedas. Shimada chegou a ser preso preventivamente em dezembro de 2024, mas foi solto no mês seguinte. Atualmente, está apenas proibido de se ausentar do país. Shimada também é réu no caso que investiga um contrato de patrocínio de R$ 360 milhões firmado entre a Vai de Bet e o Corinthians. Em julho do ano passado, o Ministério Público denunciou seis suspeitos de integrarem um esquema de corrupção, furto e lavagem de dinheiro dentro da gestão do clube. Segundo a denúncia, a Victory Trading foi usada para desviar o dinheiro do contrato, e Shimada teria atuado como operador financeiro e mentor para uso de empresas de fachada no branqueamento de capitais. Desde o início do governo de Donald Trump o maior peso dado ao combate ao narcotráfico na América Latina já levou a decretação de outras sanções em países da região. Em junho de 2025, três bancos mexicanos foram alvos do Departamento do Tesouro sob alegações de lavarem dinheiro do tráfico de fentanil. Sanções foram aplicadas ao presidente da Colômbia Gustavo Petro, também por suposta ligação com o narcotráfico. Em dezembro, as autoridades americanas sancionaram a cantora venezuelana Rosita por supostamente oferecer “apoio material” à facção Tren de Aragua, que, assim como o PCC, é classificada como uma organização terrorista. Também não é a primeira vez que o Tesouro mira nomes ligados ao PCC. Em 2024, antes da vitória de Trump nas urnas, o governo sancionou Diego Macedo Gonçalves do Carmo, apontado como “peça-chave” de centenas de milhares de dólares da facção. Especializado em segurança internacional, o professor de Relações Internacionais da ESPM Gunther Rudzit vê no anúncio sinais de que o governo americano está dedicando-se a “um escrutínio profundo de relações financeiras de empresas brasileiras com os EUA”. Para Rudzit, ao mirar nas empresas de Shimada e não em instituições financeiras de maior peso, os americanos não escalam a situação para uma crise de grandes proporções: — As empresas americanas que fazem negócios no Brasil usam os grandes bancos. Se eles sancionassem um desses, poderiam prejudicá-las. Não me surpreende começarem pelas menores.