É uma guerra santa, em que as contendoras, cada qual com uma Bíblia como munição, disputam o monopólio da Verdade. As armas são os capítulos e versículos de autoria dos influencers apostólicos. O campo de batalha, os bazares e covis das redes sociais. Em combustão, o ódio embutido em palavras como "amor", "alegria" e "mansidão". Por trás das duas generalas, exércitos de fiéis equipados com as novas tábulas, os smartphones, despejando insultos nada evangélicos contra uma ou outra. O botim, algo nunca previsto nas Escrituras: uma candidatura à Presidência do Brasil.

Ambas as litigantes são Bolsonaros de cartório: Michelle, 44 anos, mulher do Bolsonaro original, ex-primeira-dama e potencial parlamentar, e Fernanda, idade não sabida, mulher do presidenciável Flávio Bolsonaro e cirurgiã-dentista. Donde Michelle Bolsonaro é madrasta de Flávio Bolsonaro e sogra torta de Fernanda Bolsonaro. Se os Bolsonaros não se entendem nem entre si, como entenderão o Brasil?

Na semana passada, Michelle azedou o vinho familiar ao publicar nas redes sociais um vídeo em que, citando os Salmos, acusou Flávio Bolsonaro de maltratá-la, humilhá-la e apunhalá-la com seus sabidos machismo, grossura e arrogância. Fernanda, por sua vez, também em postagens, contra-atacou com Provérbios para defender seu marido. O começo das hostilidades revelou uma paridade de armas: ambas conhecem a fundo a Bíblia. Cite uma frase de Jó ou Malaquias e elas lhe dirão os números do capítulo e versículo. Ou dê-lhes esses números e elas recitarão os textos a que correspondem. A pergunta é: Flávio Bolsonaro –que há pouco definiu as eleições como "uma luta contra o Mal", com ele no papel do Bem-- será também tão conhecedor do Verbo como tenta parecer?