0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e o enteado e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) — Foto: Beto Barata/PL e Cristiano Mariz/O Globo O agravamento do racha no núcleo duro do clã Bolsonaro com a renúncia de Michelle Bolsonaro do comando do PL Mulher e uma possível desistência da pré-candidatura ao Senado Federal tem angustiado aliados próximos da ex-primeira-dama e do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL). Interlocutores dos dois lados admitem sob reserva um consenso: a guerra familiar não só está distante de ser pacificada como dificilmente terá um desfecho, seja antes ou após as eleições de outubro. Um aliado próximo do filho 01 de Jair Bolsonaro desabafou sobre a situação antes mesmo do anúncio da saída de Michelle, sacramentada após uma conversa dela com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, em Brasília: “Isso [a guerra] não vai acabar nunca. Tá no DNA da família Bolsonaro”, afirmou ao blog este integrante do núcleo duro da campanha de Flávio. “Michelle é jovem, tem 44 anos, pode ser presidente da República daqui a 10 anos. É uma relação conturbada de 20 anos entre madrasta e enteado, que não vai se resolver numa conversa.” O diagnóstico é compartilhado por um interlocutor que mantém boa relação com Michelle e o dirigente nacional do PL. “Essa guerra não vai acabar, ganhando ou não o Flávio. Eles se odeiam. Simples assim”, resumiu este aliado. A relação entre Flávio e Michelle sempre foi marcada por um clima de ressentimento e desconfiança mútua. Mas a crise escalou no último dia 25, quando Michelle divulgou um vídeo de 27 minutos no Instagram com duras críticas ao enteado e pré-candidato ao Palácio do Planalto. Além de expor divergências sobre palanques estaduais do PL nos quais ela alega ter sido preterida, a ex-primeira-dama disse ter sido maltratada e “apunhalada” pelas costas por Flávio, que teria pressionado para que ela não se envolvesse nas negociações do partido. Embora o filho 01 de Bolsonaro tenha divulgado no dia seguinte um vídeo tentando colocar panos quentes sobre a briga pública, Michelle foi alvo de um intenso fogo amigo por parte de setores do bolsonarismo ligados ao deputado cassado Eduardo Bolsonaro. A atuação de um “grupo do exterior”, em referência a aliados de Eduardo nos Estados Unidos e outros países, foi um dos gatilhos para o agravamento da crise e o fracasso das tentativas de apaziguamento, conforme contamos no blog na última quarta-feira. Como mostrou O GLOBO, a ex-primeira-dama chegou na reunião com Valdemar convencida a se desfiliar do PL, mas foi demovida da ideia por duas aliadas políticas e amigas próximas: a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), cuja chapa abrigará Michelle caso ela não desista de concorrer ao Senado. Segundo a colunista Bela Megale, a mulher de Jair Bolsonaro disse a interlocutores que não irá se empenhar na campanha de Flávio caso dispute o cargo nas urnas. Entre interlocutores de Valdemar, a expectativa é a de que Michelle só bata o martelo sobre a sua candidatura ao Senado às vésperas da convenção que vai confirmar Flávio como o candidato da legenda na corrida pelo Palácio do Planalto, no fim deste mês. Como o Distrito Federal é um tradicional reduto bolsonarista, até mesmo lideranças da base lulista já esperavam a vitória de Michelle nas urnas. Lá, Jair Bolsonaro obteve 58,81% dos votos válidos no segundo turno das eleições de 2022, ante 41,19% de Lula. Histórico tenso com enteados Desde a manifestação de Michelle nas redes sociais na semana passada, a ex-primeira-dama deixou de seguir Eduardo e Carlos Bolsonaro, ex-vereador do Rio e pré-candidato ao Senado por Santa Catarina, nas redes sociais. Há pouco mais de um ano, o deputado cassado chegou a viajar junto com a madrasta para a posse do presidente dos EUA, Donald Trump, em Washington representando Bolsonaro, que à época estava com o passaporte apreendido por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF). Mas, nos últimos dias, compartilhou várias publicações críticas à posição de Michelle e insinuou que ela jamais esteve comprometida com a campanha de Flávio. Já Carluxo, como é chamado na família, tem um largo histórico de desavenças com a madrasta que se arrastaram ao longo do governo Bolsonaro. Em março passado, a ex-primeira-dama chegou a declarar em uma entrevista que respeitava a relação de seu marido com o filho 02, mas decidiu romper a relação com Carlos e não conviver mais com o enteado. “Eu não sou obrigada a conviver. A Bíblia me dá esse respaldo. Não proíbo o meu marido – jamais – de ter relacionamento com ele, mas não consigo conviver”, declarou à época, justificando o afastamento. Menos de um mês depois, a ex-primeira-dama fez um aceno aos enteados, incluindo Carlos Bolsonaro, durante um ato pela anistia aos golpistas do 8 de janeiro na Avenida Paulista, em São Paulo, em abril de 2025. A manifestação contou com a presença de Bolsonaro. Na ocasião, Michelle prestou solidariedade a Eduardo, que havia recém anunciado sua decisão de se autoexilar nos Estados Unidos. O então deputado agradeceu o apoio da madrasta. Depois, a ex-primeira-dama chamou Carlos, Flávio e Jair Renan Bolsonaro, que é vereador de Balneário Camboriú (SC), para o seu lado. “Aqui estão os três meninos do meu marido”, afirmou diante de Carluxo, que apoiou sua mão sobre o ombro de Michelle. Cinco meses depois, Jair Bolsonaro foi condenado no âmbito da trama golpista a 27 anos e 5 meses de prisão em regime inicial fechado. Com o ex-presidente proibido de se comunicar com o mundo exterior e atualmente em prisão domiciliar temporária, as divergências entre Michelle e Flávio sobre o palanque do Ceará serviram de estopim para acabar com qualquer ilusão de uma Pax Romana no clã Bolsonaro. E nem mesmo os aliados mais próximos dos dois lados acreditam em uma pacificação sincera enquanto o espólio do ex-presidente estiver em disputa.