Pedro Ortaça não pedia bexiga pra patrão nem pra milico, não era pelego e tampouco tirava chapéu para rico. Ele cantava sobre o peão de estância esquecido, o trabalhador oprimido, o homem negro, os povos indígenas, o gaúcho para além de idealizações.
Foi um catedrático da realidade e dos costumes regionais, tornando-se doutor honoris causa por três universidades em um ano, de abril de 2025 a março de 2026. A academia humildemente se ajoelhava "diante da grandeza da cultura popular", como descreveu um dos reitores.
Ortaça foi o último dos "Troncos Missioneiros", quarteto de compositores que aproximou a música nativista do Rio Grande do Sul às causas sociais, especialmente nos anos 1980. Trazia a denúncia e a defesa dos mais pobres, assim como celebrava o amor, a cultura e as belezas de sua terra.
Em "Desde os Tempos de Sepé", evocava o grito "essa terra já tem dono" do herói guarani Sepé Tiaraju para criticar o avanço da influência norte-americana no Brasil. Denunciava, na canção, os "misterzinhos" que tentavam colocar as mãos no Amazonas e o pé no pampa.
A vida do compositor é narrada quase como mitologia pelo filho Gabriel Ortaça: nasceu no dia de São Pedro num lugar de muita mata, um rincão de São Luiz Gonzaga, no interior gaúcho. Dali, partiu para além das fronteiras, mas sempre em nome das Missões, região-símbolo da fundação do Rio Grande do Sul.






