Há muitos anos eu me autodiagnostiquei como hipocondríaca. O autodiagnóstico veio ainda bem jovem, assim que descobri a palavra e seu significado —alguém que sofre de hipocondria, a condição psiquiátrica relacionada a uma preocupação excessiva e persistente em ter ou contrair uma enfermidade grave—, e foi imediatamente internalizado como obviamente correto uma vez que havia sido precedido por anos de outros autodiagnósticos embasados por sinais físicos, vozes da minha cabeça e buscas no Google.

Um dos sintomas do transtorno é a interpretação catastrófica de sensações corriqueiras. Qualquer dor de cabeça vira, para o transtornado, indício de doença grave, qualquer cansaço vira potencial sentença de morte.

Desde que tive filhos, tento adicionar uma boa dose de racionalidade ao catastrofismo que me é inerente, tentando não tornar qualquer sintoma que apresentem em uma ida desnecessária ao pediatra. E nisso tenho sido bem-sucedida. O que não quer dizer que tenha me curado da irracionalidade com que encaro meus próprios sintomas. Ultimamente, tenho ocupado horas da minha semana pesquisando sobre dores nas costas. E, mesmo diante de uma montanha de indícios que apontam para minha má postura como a causadora das dores, sigo aguardando o momento em que terei que ser levada ao hospital às pressas com o apêndice perfurado.