Existe discriminação de gênero no mercado de trabalho. E existem as nossas escolhas.

Eu tive sorte. Recebi como legado mulheres que pularam o muro do preconceito. Nem por isso conseguiram se livrar dos pedágios que a vida impõe.

Alicinha, minha bisavó, poderia ter sua história contada de várias maneiras. A versão da minha avó Maricota era: Alicinha tinha sido uma mulher livre demais para o seu tempo. Separou-se quando a filha tinha 3 anos e, nos anos 1950, viveu diferentes relações e amores. Encontrou na vida privada uma saída para um problema público.

Mas a conta apareceu. Aquela liberdade tinha custo, e não foi ela sozinha quem o pagou.

Minha avó repetia: "Você pode tudo". Cresci achando que teria a liberdade de ser tudo o que quisesse. Até topar com a realidade. Nos meus três filhos, recusei a licença-maternidade. Nunca me passou pela cabeça abdicar da carreira, nem da maternidade. Como organizar o tempo quando a vida ganhou uma segunda operação para ser tocada em paralelo?