Janaína Feijó: população entende que terá nome limpo após 5 anos sem pagar conta — Foto: Leo Pinheiro/Valor A amplificação do endividamento das famílias e o efeito apenas modesto da ampliação da isenção do Imposto de Renda são fatores que, junto com mudanças estruturais no perfil da população brasileira e a alta nos preços da alimentação, ajudam a explicar por que o desempenho bastante positivo do mercado de trabalho não tem sido acompanhado de melhora equivalente na percepção de bem-estar econômico pelas pessoas. É o que apontam os pesquisadores Fernando de Holanda Barbosa Filho, Paulo Peruchetti e Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre). Essa percepção menos benigna de bem-estar se reflete, por exemplo, no Índice de Confiança do Consumidor (ICC) calculado pela FGV, que está abaixo dos 100 pontos - em território negativo, portanto - há alguns anos. O mesmo vale para o índice desagregado nas diversas faixas de renda, ainda que tenha havido melhora relativa este ano para quem ganha até R$ 2.100 por mês. A percepção desfavorável aparece também na pesquisa Quaest-Genial de maio deste ano, em que 69% dos brasileiros consideraram seu poder de compra menor do que um ano atrás e apenas 9% disseram que a renda aumentou mais que o custo de vida. São resultados que contrastam com as altas reais expressivas da renda média e da massa salarial registradas pelo IBGE, observam os pesquisadores do FGV Ibre. Em estudo anterior e na carta de abril do instituto, eles já haviam apontado que os ganhos em indicadores do mercado de trabalho não necessariamente se refletiam na percepção de bem-estar econômico na mesma proporção porque parte desse avanço não decorreu de melhora de fundamentos, mas de mudanças estruturais como transformações demográficas e educacionais. Além disso, também destacaram a concentração do emprego em ocupações com remuneração inferior à média nacional e o peso crescente da alimentação no orçamento das famílias. Agora, na carta de julho, antecipada ao Valor, os pesquisadores se voltam para outros dois fatores importantes: o endividamento das famílias e o Imposto de Renda. O comprometimento da renda das famílias com dívidas está elevado, perto de 30% segundo o Banco Central, mas relativamente estável pelos dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) da Confederação Nacional do Comércio (CNC), nota Barbosa Filho. O que houve, segundo ele, foi que o número de famílias endividadas subiu de forma significativa. Aparentemente, diz, bancos não ofertaram crédito até níveis de comprometimento insustentáveis, optando, em vez disso, por estender as linhas. “Eles amplificaram e introduziram novas pessoas ao mercado”, afirma. A carta também destaca dados da Serasa Experian, segundo os quais o número de consumidores inadimplentes no Brasil subiu de 59 milhões em dezembro de 2016 para 83,4 milhões em abril de 2026, ou de 39,5% para 50,8% da população adulta, apontam os pesquisadores do FGV Ibre. É um movimento que, segundo eles, acompanha o processo de maior bancarização da população, impulsionado pelo advento de financeiras, fintechs e outras inovações. Entre janeiro de 2018 e abril de 2026, a participação dos bancos na carteira inadimplente ficou quase estável, em 28,2% e 27,5%, respectivamente, mas a parcela das financeiras, que tendem a cobrar juros maiores, subiu de 7,6% para 19,8%, observam os pesquisadores. Comparando dados da PEIC de maio de 2021 com abril de 2026, os pesquisadores apontam ainda que o endividamento das famílias tem crescido independentemente do nível de renda, mas de forma mais substancial entre os mais pobres. A PEIC indica também, segundo eles, que o percentual de famílias endividadas, com atrasos em dívidas e que dizem não ter condição de pagar cresce à medida que a renda diminui. “A população mais carente passou a ter muitos cartões de crédito e também a entender que, se não pagar uma conta, em cinco anos seu nome vai ser limpo”, diz Feijó. Indivíduos que se endividam mais são também aqueles que mais cortam consumo nos anos seguintes, aponta a carta citando um estudo do Banco Central de 2020 que olhou para o comportamento das famílias entre 2011 e 2014, antes da recessão de 2015-2016. Ainda de acordo com o BC, esse efeito mostra-se mais forte quando o endividamento original se concentra em modalidades de crédito que tipicamente têm juros maiores e prazos mais curtos. “Tem uma relação direta entre endividamento elevado, redução do consumo, inclusive com bens que aumentam o bem-estar. Dessa forma, a pessoa não consegue perceber nenhuma melhora”, afirma Barbosa Filho. É o que acontece agora, segundo os pesquisadores do FGV Ibre. Eles notam que o Índice de Desconforto de Crédito (IDC), elaborado por pesquisadores da Escola de Administração de Empresas (FGV EAESP), encontra-se no seu pior nível desde 2014. O IDC é construído a partir de índices de inadimplência, comprometimento de renda com a dívida e qualidade de crédito. Neste último caso, considera-se a fração do crédito livre de pessoa física alocada em modalidades mais onerosas (cheque especial, crédito pessoal não consignado e cartão de crédito rotativo e parcelado), indicador que atingiu 25% em abril de 2026, o maior nível desde agosto de 2007, observa a carta. O Desenrola é um programa puramente conjuntural, é enxugar gelo” Após o primeiro Desenrola, programa do governo federal voltado para a renegociação das dívidas das famílias, houve melhora no IDC, mas seguida de nova piora, já que as causas estruturais do problema, como o juro real muito elevado e a falta de educação financeira da população, não foram atacadas, dizem os pesquisadores do FGV Ibre. “O acesso ao crédito melhorou muito o bem-estar das pessoas, mas o que a gente tem observado é que, recorrentemente, elas voltam a um nível de endividamento que gera bastante desconforto. O Desenrola é um programa puramente conjuntural, é enxugar gelo. Não está possibilitando uma mudança estrutural para que isso não volte a ocorrer”, afirma Barbosa Filho. Para os pesquisadores do FGV Ibre, a repetição, agora, do Desenrola em uma versão 2.0 pode, inclusive, ser desincentivo à adimplência, já que poderia significar, para as famílias, o que sucessivos Refis (Programa de Regularização Fiscal) significam para o planejamento tributário das empresas. Outro fator com potencial de influenciar a percepção de bem-estar econômico analisado na carta de julho do FGV Ibre foi a ampliação da isenção de IR para rendimentos até R$ 5.000, com redução para quem ganha até R$ 7.350. Pesquisa Genial-Quaest de maio de 2026, no entanto, já mostrou que 45% dos brasileiros dizem não ter sentido diferença com a isenção do IR, enquanto 21% reportam que a renda cresceu significativamente, observa a carta. Na abertura por renda, a faixa que tem a maior parcela (25%) reportando significativo aumento de ganhos com a isenção do IR é a que recebe até dois salários mínimos, isto é, pessoas que já eram isentas do IR desde 2025, lembram os pesquisadores do FGV Ibre. Eles calcularam que, para quem recebe R$ 3.500 por mês, por exemplo, o ganho com a isenção é de R$ 39,8 por mês, o equivalente a apenas 1,1% da renda. Para quem recebe R$ 5.000, o ganho sobe para R$ 312,9 por mês, ou 6,3% da renda, o que é considerável, mas este é o pico do ganho, notam. A partir daí, ele diminui e é quase irrelevante para quem recebe mensalmente R$ 7.000 ou mais. E, mesmo para os mais beneficiados, considerando uma inflação superior a 4%, o ganho é relativamente pequeno, segundo Barbosa Filho. “Esses ajustes geram ganhos marginais relativamente pequenos, sobretudo em um contexto de inflação elevada”, diz Peruchetti. Além disso, os pesquisadores apontam que, em tese, os beneficiários potenciais da isenção de IR incluem 21,6 milhões de pessoas, mas, como a isenção e a redução deste ano só se aplicam a pessoas com carteira assinada (e retenção do imposto na fonte), o contingente de beneficiados cai para 8,8 milhões. Os informais, dizem, não se beneficiarão da medida, e os autônomos formais só terão redução em 2027, quando fizerem a declaração anual. “O alívio só vai ser visto no ano que vem”, afirma Barbosa Filho. Além disso, dos 8,8 milhões que deveriam sentir o alívio este ano, o ganho com a isenção de IR é inferior à inflação em quase todas as faixas de renda, segundo os pesquisadores. O contingente com algum ganho além da inflação se reduz a 1,7 milhão de pessoas. “Não é de espantar, portanto, que a percepção de bem-estar seja menor do que sugerem os números do mercado de trabalho e os indicadores macroeconômicos”, resume Luiz Guilherme Schymura, diretor do FGV Ibre, na carta de julho. É por isso também que, na visão dos economistas do FGV Ibre, a isenção do IR especificamente pode não estar tendo todo o efeito positivo previsto em termos de índices de confiança ou intenções de voto ao incumbente.