Mesmo quem se formou intelectualmente na crítica ao cientificismo tacanho anda estarrecido com a velocidade da erosão da confiança na metodologia científica. Não são só fake news e bolhas ideológicas a corroer seus alicerces por fora; também há fissuras endógenas que se alargam a olhos vistos.

Sempre existiram incentivos perversos para manipular dados e imagens, na competição por posições e verbas de pesquisa, mas com a inteligência artificial a desonestidade deixou de ser artesanal. A obra da ciência entrou na era de sua reprodutibilidade generativa.

Verdade que há também mais meios técnicos para detectar fraudes. Como resultado, cancelamentos (retractions) de artigos científicos têm explodido, mas desconfia-se que o número total de publicações cresça em ritmo muito mais acelerado, que vigilantes robóticos ou humanos não conseguem acompanhar.

Grande quantidade de trabalhos escapa do cancelamento. Mesmo os sepultados podem continuar por aí como zumbis, citados em outros textos ou, mais preocupante no caso da biomedicina, com seus dados assombrando trabalhos de revisão sistemática (aqueles que reúnem estatísticas de vários ensaios para firmar eficácia e segurança de terapias e, assim, orientar a prática clínica).