Quando a eletricidade chegou às cidades, mudou tudo o que era possível fazer num dia, numa fábrica, numa noite. Cem anos depois, a rede social mudou o que era possível fazer com uma câmera, um pleito e uma multidão.

As duas são determinantes e foram parar nas mãos de um punhado de empresas, o que sugere que representem o mesmo poder, em séculos distintos. Não é o caso. A despeito da relevância incomparável da eletricidade, são as plataformas digitais que submetem os usuários aos caprichos de seus proprietários.

Tornou-se um truísmo dizer que a inteligência artificial é a eletricidade do nosso tempo, mas resta saber se o poder irá fluir como na malha da Enel, que pode ser escorraçada de São Paulo pelos serviços tenebrosos que presta, ou na do Instagram, que não precisa combater a proibição do uso por adolescentes, já que estes se encarregam de fazer o impossível para burlá-la.

A diferença é de produto, com uma vendendo commodity e a outra, acesso. Extrapolando, é a dicotomia entre fungibilidade e exclusividade que qualifica o poder tecnológico mais amplo.

O "momento DeepSeek" marcou uma transição do reinado dos donos para um modelo híbrido, em que versões abertas das IAs líderes são disponibilizadas com seis meses de atraso pelos concorrentes asiáticos, permitindo que países como o Brasil possam abandonar as infrutíferas tentativas de construir LLMs totalmente nacionais e investir em estratégias melhores de participação na economia da IA.