Por milênios, o vetor fundamental de valor foi a terra. Quem a possuía mandava, mesmo que a mantivesse em grande medida improdutiva.

A Revolução Industrial deu escala a uma nova dimensão, o trabalho sistemático, cujo controle passou a orientar novos fluxos de riqueza. A propriedade não abdicou de um milímetro do seu poder, mas a medida que passou a importar foi a hora, que embasa a ideia moderna de produtividade, como na constatação de que somos cinco vezes menos produtivos (por hora trabalhada) do que os noruegueses.

A IA agêntica introduz um terceiro vetor, o "compute": eletricidade que atravessa chips e sai na forma de operações, vendidas por hora de máquina, do mesmo modo que o trabalho fabril ou de escritório é vendido por hora de gente.

A hora está presa ao corpo, são 24 por dia para qualquer pessoa e não dá para guardá-las para o dia seguinte. Já o "compute" não tem esse teto, podendo ser estocado por meio de chips e alugado para todo o resto do planeta, onde a demanda é muitas vezes maior do que a oferta. Hora, todo o mundo tem; chip, quase ninguém.

Pela primeira vez desde a Revolução Industrial, valor e propriedade voltam a se fundir, mas com uma diferença: "compute" é propriedade que trabalha e decide como cumprir o que lhe foi solicitado. Hora-homem vira hora-máquina, enquanto o dinheiro migra dos salários para a nuvem de tarefas, as quais vão se encadeando como peças de um quebra-cabeça que se monta sozinho.