Um salário ruim protege um emprego da IA melhor que qualquer talento. Claude Fable, da Anthropic, programa melhor que a maioria dos desenvolvedores plenos e já os substitui nos Estados Unidos; no Brasil, onde a hora custa menos que o token mais inteligente, o mesmo profissional segue firme. Máquinas não competem com talentos, mas com custos.

O problema é que o preço de computar o trabalho tende a cair, ainda que mais devagar do que se supunha, já que a demanda por inteligência sintética cresce mais do que a capacidade da indústria de saciá-la. Isso de forma alguma significa que os impactos serão equivalentes em todas as atividades. Mesmo tímida, a substituição em curso já deixa clara a distinção entre os trabalhos cujo produto existe fora de quem o faz e aqueles em que a pessoa é a entrega.

Um padeiro gourmet agrega muito e cobra o prêmio correspondente. Mas a panificação é estruturada e as fornadas acontecem às centenas, de modo que é questão de tempo até um robô panificador ombrear os grandes em testes cegos, após ser treinado por milhões de clientes domésticos menos exigentes. O raciocínio vale para toda atividade em escala.

O que realmente blinda a contribuição humana nos ofícios em que o objeto-fim lhes é extrínseco é a baixa replicabilidade. Considere o Hélio Schwartsman, escrevendo quase diariamente sobre o estado do mundo, de forma sempre ponderada e genial. Amostras do seu estilo abundam, e a emulação textual é o forte da IA desde antes do ChatGPT.