‘O seu emprego não vai ser o mesmo daqui a cinco anos’, afirma pesquisadora sobre IA no trabalhoPara Michelle Schneider, o uso da automação não deve substituir empregos, no entanto, vai mudar os atuais cargos. Crédito: Edição: Larissa Kinoshita motion: Raul Carvalho, Coord de pós: Anderson Russo, Captação: Felipe Pedro, Produção: Vitória SchimdtzGerando resumoNa contramão das previsões mais pessimistas de que a inteligência artificial vai substituir milhões de cargos, um estudo feito pelo Banco Inter sugere que a tecnologia não deve provocar uma onda de desemprego em massa no País. No entanto, a automação pode reduzir a demanda por profissionais em início de carreira e desestimular os jovens a ingressar no ensino superior, afirma o levantamento, obtido com exclusividade pelo Estadão. No longo prazo, a tendência é de que o mercado enfrente escassez de profissionais seniores. PUBLICIDADEA pesquisa simulou diversos cenários para medir os impactos da IA na demanda e na oferta de trabalho qualificado com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Os trabalhadores foram divididos em três grupos: baixa qualificação são aqueles que não tem nem ensino superior nem experiência; os profissionais com graduação se encaixam no nível de média qualificação; a mão de obra que acumula anos de atuação entra na categoria mais sênior. Na situação considerada mais provável pelos pesquisadores, os profissionais altamente qualificados (os que acumulam experiência) serão ainda mais valorizados pelas empresas. O problema é o aumento da distância com os jovens que estão saindo da faculdade.PublicidadeJovens recém-formados estão na berlinda da IA, sugere a pesquisa Foto: deagreez/Adobe StockNa simulação que reúne os cinco cenários, o prêmio salarial dos trabalhadores com ensino superior e mais experiência aumenta 4,1 pontos percentuais, enquanto o dos recém-formados sobe 3,4 pontos percentuais. André Valério, economista sênior do Banco Inter e um dos líderes do estudo, afirma que isso indica o principal impacto da IA será redistribuir os ganhos dentro do mercado de trabalho qualificado. Quem acumulou experiência é mais valorizado em detrimento dos profissionais que ainda buscam espaço para se desenvolver.“Não vemos uma grande queda na demanda por trabalhadores qualificados. O que muda é a rentabilidade desses trabalhadores. Pagam mais para quem tem experiência e relativamente menos para quem está entrando no mercado”, diz Valério. O que está por trás da ameaça ao primeiro emprego?A pesquisa avaliou cinco cenários: automação das tarefas de entrada, criação de novas empresas, aumento de produtividade, aceleração da obsolescência das habilidades e o acúmulo de experiência. Em todos, o maior impacto recai nos profissionais em início de carreira que estão mais vulneráveis à automação de tarefas repetitivas e operacionais.PublicidadeO perigo é ter menos profissionais com média qualificação (ensino superior) disponíveis no mercado. Consequentemente, o número de trabalhadores que acumulam experiência ao longo da carreira pode despencar. “A ideia é que a IA deixe o trabalhador estabelecido mais produtivo e reduza a necessidade daquele trabalho de entrada”, diz Valério, acrescentando que não ter seniores no futuro é a zona de perigo. Ou seja, se menos jovens ingressam no mercado, há um “apagão” de profissionais experientes para ocupar funções estratégicas no futuro. “O sênior foi júnior um dia. Ele precisa ter a trajetória para chegar em um cargo acima”, alerta. Para Jerry Soares, CEO da MPJ Solutions, consultoria em tecnologia, a saída é mudar a forma como os jovens são desenvolvidos atualmente. Ele argumenta que as empresas vão ter de investir mais em programas de mentoria e aprendizagem prática para acelerar a formação de novos talentos enquanto a IA foca em atividades operacionais.Publicidade“A IA automatiza algumas tarefas, mas o conhecimento sobre como tomar decisões e entender o negócio continua sendo construído na convivência com quem já percorreu esse caminho”, defende.Leandro Oliveira, diretor EMEA e Brasil da Humand, plataforma de RH, avalia que as empresas mais maduras já estão investido em trilhas de aprendizagem e mentorias. Boa parte dessas iniciativas são apoiadas pela própria IA para acelerar o desenvolvimento dos novos profissionais. “O desafio é preparar pessoas para trabalhar com IA, e não competir contra ela”, conclui.Ainda assim, a menor demanda das empresas pelo recém-formado pode levar o jovem a repensar qual é o retorno financeiro de investir em uma graduação para ingressar no mercado de trabalho.PublicidadeO possível efeito no ensino superiorPUBLICIDADEPublicidade“Quando comprimimos os salários dos recém-formados, o retorno esperado da educação superior fica achatado e isso pode desestimular muita gente a buscar uma graduação”, diz Valério. Uma das alternativas é criar políticas públicas para evitar a fuga no ensino superior. Esse trabalho deve ser feito principalmente pelo governo. “Se esse cenário se materializar (jovens desistindo da graduação) vamos precisar de políticas públicas para manter a atratividade do ensino superior e o desenvolvimento dos jovens”, estima Valério. Contudo, esse resultado não surge em todos os cenários analisados na pesquisa. Nas circunstâncias de criação de novas empresas e do aumento da produtividade, há possibilidade de demanda por profissionais qualificados em início de carreira e retorno da educação superior. Para alguns especialistas, a inteligência artificial não é a única razão do alvoroço que os recém-formados vivem. É o que afirma Alexandre Tibechrani, CEO managing director para a América Latina da consultoria LHH. Ele é mais cauteloso ao traçar os diagnósticos da redução de oportunidades para os jovens. “O que mudou foi o próprio ambiente em que as empresas operam: mais competitivo, mais incerto, mais rápido. A IA é uma peça dessa mudança, não a causa dela”, diz. Na avaliação do executivo, o mercado vive um momento parecido com o da mecanização da agricultura. “As empresas vão se adaptar. Os jovens também. O que torna essa transição mais difícil é o ritmo. A adaptação em ritmo exponencial exige de todos uma nova forma de pensar e atuar”, diz.PublicidadeDesemprego em massa é descartado pela pesquisaCom isso, apesar das hipóteses mais desfavoráveis para quem está saindo da faculdade, a mudança no mercado brasileiro deve acontecer de forma gradativa levando em consideração os custos de implementação de IA e do ritmo que as empresas estão adotando.Salário inicial menor poderia levar jovens a desistirem do diploma Foto: Nurani/Adobe StockDe acordo com o estudo, esse comportamento é compatível com outras revoluções tecnológicas. Ao longo da história, as mudanças na tecnologia alteraram determinadas funções e a maneira de trabalhar, mas não eliminaram a demanda.“Historicamente, as profissões morrem, mas os empregos, não. O que muda é a composição do mercado de trabalho”, reforça Valério. Já na visão de Tibechrani, um dos principais desafios é a formação de profissionais em meio ao desaparecimento dos espaços de aprendizagem. “A escassez de profissionais experientes é um risco real. Não porque os jovens vão desistir de se formar, mas porque as empresas não desenharam onde vão aprender errando em pequena escala. Esse era o papel do estágio”, explica.PublicidadeNa avaliação de Jerry Soares, pelo menos no setor de tecnologia a IA deve acelerar uma transformação que vem acontecendo há anos na área. No lugar de eliminar postos de trabalho, muda as competências exigidas de determinadas vagas.Por exemplo, funções voltadas à coleta e organização de dados perdem espaço à medida que a IA aprende a executar essas tarefas em larga escala. Em contrapartida, a demanda por profissionais que definem estratégias de negócio e tomam decisões com base nos dados produzidos pelas ferramentas está aumentando.