Além da Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz também estudam cortes de custos, enquanto o setor enfrenta tarifas impostas pelos EUA, queda nas vendas na China e elevados custos de energia e mão de obra 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Fábrica da Volkswagen em Dresden, na Alemanha — Foto: Krisztian Bocsi/Bloomberg RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 27/06/2026 - 12:32 Montadoras Alemãs Enfrentam Crise com Cortes e Demissões Massivas Montadoras alemãs, como Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz, enfrentam crise com cortes de custos devido a tarifas dos EUA, queda nas vendas na China e altos custos. A Volkswagen planeja até 100 mil demissões, com fechamento de fábricas na Alemanha. A indústria automobilística busca adaptação diante de concorrência chinesa mais ágil e pressões econômicas globais, enquanto enfrenta desafios internos e externos significativos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em março do ano passado, a Volkswagen havia definido, após intensas negociações, um plano para cortar 50 mil postos de trabalho com o objetivo de recuperar a lucratividade e fortalecer suas problemáticas operações na Alemanha. Pouco mais de um ano depois, e após uma série de contratempos, os trabalhadores da maior montadora da Europa enfrentam agora a perspectiva de que esse número possa dobrar para 100 mil demissões. O plano, divulgado inicialmente pela revista Manager Magazin, ainda precisa ser aprovado pelo conselho de supervisão, onde os representantes dos trabalhadores exercem forte influência. Ainda assim, ele reflete o crescente senso de urgência nas diretorias de empresas em toda a Alemanha, que corre o risco de perder sua competitividade industrial para concorrentes estrangeiros mais ágeis. A situação é particularmente grave na indústria automobilística. BMW e Mercedes-Benz também estudam cortes de custos, enquanto o setor enfrenta tarifas impostas pelos Estados Unidos, queda nas vendas na China e elevados custos de energia e mão de obra. A crise também afeta os fabricantes de autopeças Robert Bosch GmbH, Schaeffler e Aumovio, que estão fechando unidades e reduzindo seus quadros de funcionários. Na sexta-feira, a Bosch anunciou que seu CEO, Stefan Hartung, deixará o maior fornecedor mundial da indústria automotiva no fim deste mês, após iniciar um programa de redução de cerca de 18.500 empregos. Essas medidas coincidem com um período difícil para a economia alemã. Depois de um início de ano forte, o Bundesbank prevê que a atividade econômica ficará estagnada no trimestre atual, devido aos impactos da guerra no Oriente Médio. O governo do chanceler Friedrich Merz também enfrenta dificuldades para aprovar reformas consideradas essenciais, enquanto as mudanças demográficas colocam pressão sobre o sistema previdenciário do país. O novo programa de reestruturação da Volkswagen inclui um plano para fechar até quatro fábricas na Alemanha, algo que, anteriormente, os sindicatos haviam conseguido impedir. A revista WirtschaftsWoche informou na sexta-feira que a Manager Magazin exagerou o número total de demissões planejadas pela empresa, afirmando que elas não ultrapassariam 80 mil. De qualquer forma, o CEO Oliver Blume vem alertando que a forma como a montadora opera está, essencialmente, ultrapassada. — Desenvolver um 'carro mundial' na Alemanha, produzi-lo na Europa e vendê-lo para o mundo inteiro: nosso modelo de negócios, que foi bem-sucedido durante décadas, já não funciona mais hoje — afirmou Blume na assembleia geral anual da empresa, realizada no início deste mês. Poucos dias antes, a BMW — até então uma das poucas montadoras que vinham demonstrando resiliência — reduziu drasticamente suas expectativas de lucro. A fabricante do modelo iX3 atribuiu essa revisão à desaceleração do mercado chinês e à cautela dos consumidores, preocupados com o risco de que o conflito no Oriente Médio provoque um novo aumento da inflação. Enquanto isso, concorrentes chineses, mais ágeis, vêm conquistando espaço na Europa com modelos elétricos e híbridos de preços acessíveis, intensificando ainda mais a concorrência. — A indústria alemã, que antes era consistente e previsível, precisa se adaptar às novas realidades do mercado; caso contrário, simplesmente fracassará— afirmou Matthias Schmidt, analista independente do setor automotivo baseado próximo a Hamburgo. —As empresas alemãs já não podem se acomodar e confiar apenas no prestígio do selo 'Made in Germany', apesar de seus elevados custos. Enquanto Renault e Stellantis dependem principalmente das vendas na Europa e nas Américas, as montadoras alemãs obtiveram, durante muitos anos, grande parte de seus lucros na China. No entanto, com a rápida transição daquele mercado para veículos elétricos, elas vêm perdendo competitividade para marcas locais como BYD e Xiaomi, que oferecem produtos mais competitivos em preço. Os fabricantes alemães, responsáveis por empregos bem remunerados para cerca de 700 mil pessoas, além de garantirem milhares de postos de trabalho em empresas fornecedoras, também enfrentam dificuldades em outros mercados. As tarifas de importação dos Estados Unidos prejudicam empresas como Porsche e Audi, que não possuem produção no país. Já na Europa, as vendas anuais de automóveis continuam cerca de 16% abaixo dos níveis registrados antes da pandemia. Os desafios podem levar à adoção de novas medidas. O próprio Oliver Blume já sugeriu que poderia permitir que parceiros chineses produzissem veículos em fábricas europeias atualmente subutilizadas. Segundo a Manager Magazin, ele também passou a considerar a possibilidade de separar a marca Volkswagen do restante do grupo. Simplificar a estrutura corporativa da Volkswagen pode fazer sentido. O grupo controla marcas de luxo, como Audi e Porsche, mas também fabricantes voltadas para segmentos mais acessíveis, como Seat e Škoda. A marca Volkswagen ocupa uma posição intermediária entre esses extremos e, há anos, enfrenta dificuldades para alcançar níveis satisfatórios de rentabilidade. Segundo o analista Harald Hendrikse, do Citigroup, a separação da marca Volkswagen poderia representar um passo importante para que o mercado reconheça melhor o valor individual dos ativos do grupo. — Aplaudimos a gestão da Volkswagen — são medidas que não imaginaríamos possíveis há apenas cinco anos— afirmou Hendrikse. —Isso também evidencia o quanto a situação se tornou difícil em razão da política industrial da União Europeia e o tamanho da reestruturação que ainda precisa ser realizada.