Dados de aprovação, divulgados pelo Ministério da Educação, mostram que a taxa do país passou de 91,7%, em 2024, para 94,8% 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Estudantes atravessam portão de escola pública no Rio de Janeiro — Foto: Fabiano Rocha/Extra RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 26/06/2026 - 22:34 Aumento na Aprovação Escolar no Brasil: Estratégia ou Manipulação? A taxa de aprovação escolar no Brasil aumentou de 91,7% em 2024 para 94,8% em 2025, com estados como Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte adotando "progressão parcial", permitindo que alunos avancem mesmo reprovando em até seis disciplinas. Especialistas discutem se essa estratégia visa reduzir a evasão ou melhorar artificialmente o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) antes das eleições. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A taxa de aprovação nas escolas estaduais explodiu em 2025 onde os secretários de Educação criaram regras para os alunos passarem de ano mesmo que sejam reprovados em até seis disciplinas, indica levantamento feito pelo GLOBO com base em dados do Censo Escolar. O movimento ocorreu, por exemplo, nos estados do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Com o avanço da aprovação, a tendência é de que esses locais tenham aumentos consideráveis nas notas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), resultado que deve ser revelado meses antes das eleições deste ano. Essa estratégia pedagógica — na qual os estudantes podem ser reprovados em algumas disciplinas e, mesmo assim, passar de ano — é chamada de “progressão parcial”, mas ficou conhecida no passado como “dependência”. Nesse sistema, os alunos precisam estudar as matérias do ano anterior em que foram aprovados, acumulando aulas. Embora considerem a prática uma medida “legítima”, especialistas avaliam que é preciso oferecer apoio pedagógico efetivo e criticam a quantidade de seis disciplinas. Os dados de aprovação, divulgados pelo Ministério da Educação, mostram que a taxa do país passou de 91,7%, em 2024, para 94,8%. Os dois casos em que o aumento foi maior foram os das redes do Rio e do Rio Grande do Norte, estados que ocupam as duas últimas posições no Ideb. A Secretaria de Educação do Rio diz que a estratégia “busca garantir a continuidade da trajetória educacional dos estudantes” e que oferece acompanhamento pedagógico. A secretaria potiguar afirma que a alta na taxa de aprovação “reflete o conjunto de ações” para fortalecer a rede e que a progressão parcial “contribui para a inclusão e permanência dos estudantes”. Já a de Minas diz que a medida não é nova, mas consolidada no estado, e que mira a recuperação contínua. A secretária de Educação do Rio Grande do Sul, Raquel Teixeira, também diz que a estratégia adotada no estado é acompanhada por “estudos de aprendizagem contínua”. Pará e Paraíba não se manifestaram. Efeito em ranking O estado do Rio, sob administração de Cláudio Castro (PL), aumentou a taxa de aprovação em 11 pontos percentuais no ensino médio — passando de 80,8% dos alunos aprovados em 2024 para 91,8% em 2025 — no ano em que liberou os alunos a serem reprovados em até seis disciplinas para passar de ano. Só com essa mudança, o Rio conseguirá mais 0,4 pontos no Ideb sem aumentar nenhum ponto de aprendizagem. Com isso, passaria de 3,3 para 3,7 — deixando a penúltima colocação entre os estados, mas, ainda assim, mantendo-se entre os dez piores do país. Antes da regra que facilita a aprovação, o Rio só conseguiu uma taxa acima de 81% de aprovação em 2020 e 2021, durante a crise sanitária de Covid-19. Naqueles anos, o Conselho Nacional de Educação (CNE) recomendou às redes de ensino aprovarem seus estudantes por conta da pandemia, que deixou as escolas seis meses fechadas e depois obrigou a um longo período de ensino remoto. Veja o desempenho por estado — Foto: Arte O Globo Os estados do Rio Grande do Norte, governado por Fátima Bezerra (PT), e da Paraíba, que em 2025 estava sob administração de João Azevêdo (PSB), se beneficiaram ao facilitar a aprovação de alunos do ensino médio. Eles também liberaram que os estudantes possam ser reprovados em seis disciplinas e ainda assim progredirem. O primeiro conseguiu aumentar em 15 pontos percentuais a taxa de aprovação — de 77% para 93%. O segundo, teve um pulo de 9,9 pontos, de 83,2 para 93,1%. Minas Gerais e Rio Grande do Sul também deram um salto na taxa de aprovação, de 8,5 e 8 pontos, respectivamente. O estado de Romeu Zema (Novo) definiu em 2024 que os alunos poderiam ser reprovados em até três disciplinas. O de Eduardo Leite (PSD), em quatro. Já o Pará foi o primeiro a adotar a progressão parcial com até cinco disciplinas, em 2023. Na época, aumentou a aprovação e teve salto no Ideb. Estudos apontam que repetência muito alta é ineficiente e leva ao abandono. No entanto, especialistas defendem que levar muitas matérias para o ano seguinte dificulta que o conteúdo seja recuperado de fato. A estratégia, sem a estrutura adequada, dizem, pode comprometer o aprendizado e gerar resultados artificiais nos índices educacionais. Dosagem necessária Ex-presidente do Inep e referência em análise de sistemas de avaliação educacional, o matemático Francisco Soares defende que a progressão parcial é uma “estratégia pedagógica legítima” e que, quando acompanhada de apoio pedagógico efetivo, pode contribuir para melhorar a trajetória acadêmica. Ele critica, no entanto, a forma como esses dados são registrados no Censo Escolar. — Ao registrar como "aprovado" tanto o estudante que concluiu integralmente os objetivos da série quanto aquele que avançou levando dependências para o ano seguinte, o sistema passa a reunir, sob uma mesma categoria estatística, situações educacionalmente distintas — explica o especialista. Segundo Soares, a imprecisão faz com que o indicador seja utilizado para “elevar artificialmente” o cálculo do Ideb. A consequência é que gestores públicos e pesquisadores “passam a interpretar como avanço da qualidade da educação aquilo que pode decorrer, em parte, de uma alteração na forma de registrar a trajetória escolar dos estudantes”. — A solução não é abandonar a progressão parcial. Ao contrário, é preciso aperfeiçoar o sistema de informações. A transparência é condição para que as políticas públicas possam ser avaliadas corretamente — completa. Na mesma linha, Claudia Costin, especialista em políticas educacionais e ex-diretora global de Educação do Banco Mundial, também afirma ter a percepção de que o mecanismo tem sido utilizado para melhorar a performance no Ideb. Ela diz ser a favor da política de “dependências”, mas pondera haver exagero nos estados que criaram regras mais brandas para aprovação. — Eu acho que o ideal seria duas ou, no máximo, três. Seis é um exagero. Não é errado existir progressão parcial, mas é uma questão de dosagem, de quantas disciplinas e também de como se organiza a dependência — avalia Claudia. A especialista critica a ausência de uma política ampla de educação em tempo integral, o que, segundo ela, pode fazer com que não haja resultados positivos no âmbito do ensino. Enquanto estudantes de classe média podem buscar aulas particulares, alunos que estudam à noite, por exemplo, vivenciam um cenário mais difícil, uma vez que muitos deles precisam trabalhar durante o dia. — O aluno que não tem esses recursos, deveria ter de sete a nove horas de aula e, dentro da grade, ter o horário para recuperação de aprendizagem — diz. — Se eu tenho só cinco horas de aula no Ensino Médio, que horas esse jovem vai fazer (a dependência)? — questiona. Gabriel Corrêa, diretor de Políticas Públicas do Todos Pela Educação, afirma que aumentar a taxa de aprovação nacional é algo positivo, uma vez que o Brasil já conviveu com altos índices de reprovação. Ele lembra, no entanto, que o país ainda está abaixo da estimativa de referência internacional, de 96%. — A progressão parcial, se bem implementada, pode ampliar a aprendizagem e reduzir a evasão. Quando vemos abandono muito baixo e aprovação quase universal, o correto é cruzar esses dados com outros indicadores de permanência e de jovens fora da escola — explica. Ex-secretária Executiva do MEC e presidente do Conselho Estadual de Educação do Estado de São Paulo (CEE-SP), Maria Helena Guimarães aponta que, para além dos dados, é preciso entender o contexto de cada estado e a estrutura pedagógica implementada por cada um deles para que os alunos não sejam desamparados. Ela defende o sistema adotado pelos paulistas, definido como “progressão continuada”, no qual os alunos precisam de um acompanhamento efetivo, com avaliações durante todo o processo a fim de evitar reprovações. O que dizem os estados: Rio Grande do Norte: Em nota, a Secretaria de Educação informou que avalia que o aumento da taxa de aprovação "reflete o conjunto de ações implementadas para fortalecer a rede estadual de ensino". Segundo a pasta, desde 2019, a educação em tempo integral registrou crescimento de 227,5%, alcançando mais de 34 mil estudantes em 248 escolas. Além disso, a secretaria destacou que a progressão parcial é uma estratégia pedagógica prevista na organização da rede estadual e adotada em diversas unidades da federação: "essa medida contribui para a inclusão e permanência dos estudantes, permitindo que avancem em sua trajetória escolar enquanto realizam a recuperação das aprendizagens nas disciplinas em que apresentaram dificuldades, considerando que a reprovação é um dos fatores associados ao abandono escolar". Rio Grande do Sul: Segundo a secretária de Educação, Raquel Teixeira, a progressão parcial no estado é acompanhada por "estudos de aprendizagem contínua", realizados ao final de cada trimestre, para que alunos com mais dificuldades recebam atenção individualizada. "Nós tivemos 9.976 alunos aprovados em progressão parcial de 720 mil alunos. Desses 9.976 alunos, todos estão tendo aulas de reforço desde o início do ano. Em maio, que foi o final do primeiro trimestre, 5.161 já tinham feito prova e sido aprovados. Mas a gente tem hoje, em observação até setembro, até o final do segundo trimestre, 4.815 alunos", disse. Rio de Janeiro: a Secretaria de Educação afirmou que a progressão parcial não configura aprovação automática e que a estratégia "busca garantir a continuidade da trajetória educacional dos estudantes, evitando que dificuldades pontuais em determinadas disciplinas resultem em reprovação integral e abandono escolar". "Os estudantes contemplados pela medida recebem acompanhamento pedagógico específico, com planos de estudo individualizados e ações de recuperação da aprendizagem. Os resultados demonstram que mais alunos estão conseguindo prosseguir nos estudos com o suporte necessário para superar defasagens e concluir sua formação", afirma. Minas Gerais: a Secretaria de Educação disse que a progressão parcial é um dispositivo pedagógico historicamente previsto na organização curricular da rede estadual e "não se constitui como mecanismo recente, mas como estratégia consolidada". Também frisou que a medida é voltada "a garantir que o estudante não tenha sua trajetória escolar interrompida por dificuldades específicas em determinados componentes curriculares, preservando o direito à aprendizagem e à continuidade dos estudos". (*Estagiária sob supervisão de Cibelle Brito)
Estratégia contra a evasão ou para inflar nota no Ideb? Especialistas analisam alta das aprovações nos estados
Dados de aprovação, divulgados pelo Ministério da Educação, mostram que a taxa do país passou de 91,7%, em 2024, para 94,8%











