Elevação de 92% para 95% pode refletir manobra para maquiar resultado do Ideb, e não melhora 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Sala de aula no Rio — Foto: Hermes de Paula/Agência O Globo Deve ser visto com ressalvas o aumento nas taxas de aprovação em colégios estaduais do país no ano passado. De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Educação, elas subiram de 91,7% em 2024 para 94,8% em 2025. À primeira vista, pode parecer que o ensino médio melhorou, mas não é bem assim. A alta é atribuída sobretudo à estratégia de alguns estados de criar regras mais flexíveis para que os alunos passem de ano. Não é incomum nos estados brasileiros alunos passarem de ano mesmo tendo sido reprovados em uma ou outra disciplina, prática chamada progressão parcial. Trata-se de uma estratégia bem-intencionada para conter a evasão escolar. Mas alguns estados têm exagerado, autorizando a aprovação mesmo quando o aluno é reprovado em até seis disciplinas, praticamente metade da grade. A decisão é motivada principalmente pela ambição de aumentar as notas no Índice da Educação Básica (Ideb), que crescem à medida que melhoram as taxas de aprovação. No Rio Grande do Norte, que costuma ocupar as últimas posições no Ideb, a aprovação entre 2024 e 2025 subiu 14 pontos percentuais, de 79,2% para 93,3%. No Rio de Janeiro, outro estado mal colocado, foi de 81,1% para 91,6%. Na Paraíba, de 83,9% para 93,3%. No Rio Grande do Sul, de 83,9% para 91,3%. É esperado que o desempenho desses estados apresente boa evolução no Ideb deste ano. Mas, se isso ocorrer, provavelmente não será resultado de melhorias na aprendizagem, e sim de uma manobra para dourar os números. Em muitos casos, a reprovação representa desestímulo para que o aluno permaneça em sala de aula, especialmente quando ocorre pela segunda ou terceira vez. Nos primeiros anos do ensino fundamental, pode causar efeito devastador. Por isso diferentes redes de Educação costumam adotar um sistema de ciclos conhecido como progressão continuada, previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Mas a aprovação a qualquer preço no decorrer da vida escolar, sobretudo no ensino médio, pode prejudicar o aluno. “Está havendo uma forçação de barra”, diz Priscila Cruz, presidente executiva do Todos Pela Educação. “Inflar artificialmente o Ideb induz a erro de avaliação, porque imagina-se que a educação melhorou, mas isso não corresponde à realidade. O aluno é aprovado sem aprender o básico.” A maneira correta de lidar com o desafio, diz ela, é oferecer a recuperação da aprendizagem ao longo do ano, como fazem estados bem-sucedidos e escolas particulares. O Brasil tem muitos problemas na educação: formação deficiente de professores, má gestão das redes, escolas precárias, falta de laboratórios, poucas unidades em tempo integral, enorme discrepância entre os estados. A qualidade do ensino é uma preocupação sensata e é desejável aumentar as taxas de aprovação dos alunos. Mas desde que estejam realmente bem preparados. Disfarçar a situação para obter um melhor desempenho no Ideb é uma lástima. Mascarar um ensino ruim para que não pareça tão ruim quanto é faz apenas persistirem os problemas.
Alta em aprovação no ensino médio deve ser encarada com ressalvas
Elevação de 92% para 95% pode refletir manobra para maquiar resultado do Ideb, e não melhora







