Médicos relatam falta de água, ambulâncias e equipamentos de resgate; especialistas afirmam que anos de crise deixaram o país sem estrutura para responder ao desastre 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Equipes de resgate transportam uma mulher ferida para um hospital em Caracas após os terremotos que atingiram o estado de La Guaira, na Venezuela — Foto: Fabiola Ferrero/The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 26/06/2026 - 16:16 Terremotos na Venezuela Expõem Crise e Fragilidade no Sistema de Saúde Os recentes terremotos na Venezuela destacaram a fragilidade do sistema de saúde do país, já em crise devido a anos de colapso econômico e má gestão. Hospitais enfrentam falta de água, suprimentos e pessoal, enquanto resgates improvisados ocorrem sob luz de celulares e com poucos recursos. A resposta ao desastre é dificultada pela deterioração institucional e isolamento político, deixando a população desamparada. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Os terremotos que atingiram a Venezuela nesta semana expuseram a fragilidade do sistema de atendimento de emergência do país, após anos de colapso econômico, deterioração institucional e emigração em massa que esvaziaram hospitais, serviços de ambulância e operações de resgate, segundo médicos, equipes de emergência e organizações humanitárias. No estado costeiro de La Guaira, o mais afetado pelos tremores, dois dos três hospitais públicos ficaram fora de operação. O único hospital ainda em funcionamento passou a atender uma demanda muito acima de sua capacidade e ficou sem suprimentos médicos básicos, disse Jaime Lorenzo, diretor da organização sem fins lucrativos Médicos Unidos da Venezuela. Segundo ele, o hospital está funcionando sem água encanada, obrigando a equipe a lavar as mãos e limpar pisos manchados de sangue com água armazenada e soro intravenoso. Em Caracas, o teto de um dos principais hospitais de trauma da cidade desabou parcialmente durante os terremotos de quarta. Funcionários pediram nas redes que os pacientes não procurassem atendimento, a menos que enfrentassem emergências com risco de morte. Mas a pressão sobre o sistema vai além dos hospitais. A Venezuela conta com apenas três ambulâncias públicas em funcionamento para atender toda a região metropolitana de Caracas, disse Lorenzo. Ele estima que cerca de 90% dos pacientes vindos de La Guaira chegaram ao hospital na carroceria de caminhonetes da polícia após os terremotos. Quedas de energia e falhas nas comunicações agravaram ainda mais a resposta. Com as redes de telefonia celular fora do ar, os hospitais frequentemente não recebem aviso prévio sobre a chegada de pacientes e só descobrem a gravidade dos ferimentos quando os feridos já estão no local. Equipes de emergência recorreram a sistemas de rádio e à internet via satélite Starlink para se comunicar. Lorenzo relatou que bombeiros estão vasculhando edifícios desabados usando a luz de celulares devido à falta de lanternas. Segundo ele, as equipes de resgate dispõem de tão poucas pás que alguns socorristas têm escavado o concreto com as próprias mãos. A escassez de recursos obrigou cidadãos comuns a assumir grande parte dos esforços de resgate. De acordo com os protocolos internacionais de busca e resgate urbano, os vizinhos são considerados os primeiros socorristas antes da chegada das equipes profissionais, afirmou Jacobo Vidarte, especialista em gestão de emergências na Venezuela. Mas, na Venezuela, voluntários — que às vezes não têm treinamento nem equipamentos — representam cerca de 70% das pessoas envolvidas na resposta a desastres, porque o país conta com poucas equipes especializadas, disse, acrescentando que as fragilidades são muito anteriores ao terremoto. Especialistas afirmam que os sistemas de emergência e de saúde da Venezuela se deterioraram após mais de 25 anos de subinvestimento crônico e falta de planejamento de longo prazo. A crise econômica acelerou o êxodo de bombeiros, enfermeiros e médicos experientes à medida que os salários do setor público despencavam. Equipamentos se deterioraram e os hospitais passaram a enfrentar escassez crônica de eletricidade, água encanada e suprimentos médicos. Mais de 60% dos venezuelanos não tinham acesso regular a serviços de saúde antes do terremoto, segundo um relatório da plataforma humanitária independente Hum Venezuela. Especialistas afirmam que o país ainda conta com profissionais de saúde e de emergência capacitados e dedicados, mas em número insuficiente — e sem os recursos e equipamentos para responder a um desastre dessa magnitude. — Os salários são tão baixos que eles pagam para ir trabalhar — disse Lorenzo. Há anos, o governo também nomeia indicados políticos, em vez de especialistas técnicos, para comandar muitas instituições, afirmou José Araque, geógrafo da Universidade dos Andes que estuda risco de desastres. Segundo ele, as instituições científicas venezuelanas identificam há muito tempo os riscos sísmicos e produzem recomendações, mas sucessivos governos não transformaram esse trabalho em políticas públicas. Grupos humanitários internacionais afirmam que anos de isolamento político também dificultaram a resposta ao desastre. Phil Gelman, diretor para a América Latina da organização humanitária GOAL, que mantém programas de saúde na Venezuela, disse que grupos como o seu passaram anos atuando discretamente no país devido à relação hostil do governo com a sociedade civil, o que limitou os vínculos institucionais dos quais normalmente dependem durante desastres. — Estávamos trabalhando nas sombras — disse. — Isso não se desfaz da noite para o dia. Imagens de satélite mostram antes e depois de área mais devastada por terremotos na Venezuela 1 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP 2 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP X de 6 Publicidade 6 fotos 3 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP 4 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP X de 6 Publicidade 5 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP 6 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP X de 6 Publicidade Governo interino declarou a região do estado de La Guaira como 'zona de desastre' Carlos Alvarado, ministro da Saúde da Venezuela, afirmou em declarações transmitidas pela televisão que o governo mobilizou mais de 5 mil profissionais de saúde e integrou hospitais militares, públicos e privados em uma resposta unificada, conseguindo “prestar atendimento de qualidade aos pacientes”. Janeth Márquez, diretora da Cáritas Venezuela, no entanto, declarou que a resposta do país foi prejudicada por anos de fraca coordenação entre órgãos governamentais e organizações sem fins lucrativos. — O terremoto não derrubou o sistema de saúde — disse ela. — Nós já tínhamos um sistema de saúde colapsado.
Luz de celular, hospitais esvaziados e falta de água: Terremoto na Venezuela atingiu um sistema de saúde que já estava em crise
Médicos relatam falta de água, ambulâncias e equipamentos de resgate; especialistas afirmam que anos de crise deixaram o país sem estrutura para responder ao desastre















