Vítimas de terremotos estão sobrecarregando os centros de saúde no estado costeiro de La Guaira, na Venezuela, e em outras regiões, levando um sistema de saúde já fragilizado ao limite de sua capacidade. Dois terremotos potentes, de magnitudes 7,2 e 7,5, ocorreram com um intervalo de apenas um minuto na noite de quarta-feira (24), derrubando edifícios e causando danos graves ao principal aeroporto internacional do país. Até a tarde de sábado, as autoridades relatavam quase 3.240 feridos e um número de mortos que se aproximava de 1.430 em todo o país. Mais de 430 réplicas haviam sido registradas até sábado, segundo informações divulgadas pelo presidente da Assembleia Nacional. A primeira leva de pacientes era composta principalmente por sobreviventes com lesões por esmagamento e múltiplas fraturas, resgatados dos escombros de prédios que desabaram. No entanto, médicos alertam que a crise está entrando em uma fase mais perigosa, à medida que pessoas presas por dias sob os escombros começam a chegar com insuficiência renal, síndrome de esmagamento e membros que já não podem ser salvos. Espera-se que infecções de pele, doenças gastrointestinais e traumas psicológicos surjam nas próximas semanas. As autoridades restringiram o acesso a La Guaira para permitir que as operações de resgate continuem sem interrupções e, ao mesmo tempo, reduzir os riscos à saúde pública, afirmou a presidente interina Delcy Rodríguez em uma atualização divulgada à 1h da manhã de sábado. Segundo ela, as restrições permitiriam às autoridades de saúde implementar medidas sanitárias, incluindo o manejo dos corpos das vítimas. Os terremotos já estão colocando à prova um sistema de saúde enfraquecido por anos de colapso econômico, escassez de recursos e pela saída de profissionais da área médica. "Essa nova tragédia nacional ocorre enquanto a Venezuela permanece em uma emergência humanitária prolongada", disse Huníades Urbina, médico intensivista pediátrico e membro da Academia Nacional de Medicina da Venezuela. "Já não tínhamos capacidade para atender pacientes em um dia comum. Imagine o que acontece quando centenas de pessoas saem de prédios desabados precisando de atendimento de emergência." Segundo Urbina, os hospitais públicos enfrentavam, antes do desastre, escassez de suprimentos de emergência e materiais cirúrgicos, contavam com cerca de metade dos leitos hospitalares que possuíam anteriormente e dispunham de equipamentos de radiologia em grande parte obsoletos ou inoperantes. Cerca de 30% dos médicos e 70% dos enfermeiros do país deixaram a Venezuela na última década, afirmou ele, citando dados da Federação Médica Venezuelana. A escassez é evidente nos centros de saúde de La Guaira. Em uma clínica ambulatorial, na quinta-feira, a eletricidade estava disponível apenas por meio de um gerador de emergência que alimentava a geladeira de vacinas. Pacientes estavam deitados em colchões, bancos e no pavimento do estacionamento porque as salas de atendimento estavam lotadas, enquanto médicos improvisavam áreas de assistência adicionais do lado de fora do prédio. O sistema de saúde da Venezuela já enfrentava dificuldades muito antes dos terremotos, disse Jaime Lorenzo, diretor da organização sem fins lucrativos Médicos Unidos de Venezuela. Os pacientes frequentemente pagam do próprio bolso por exames de diagnóstico e, muitas vezes, espera-se que levem seus próprios insumos médicos. No Hospital Ricardo Baquero González, em Caracas, enfermeiros, médicos e estudantes de medicina trabalharam durante toda a noite após os terremotos. O hospital contava com apenas 12 enfermeiros de plantão, mas "eles se multiplicaram por dez", disse Lorenzo. Por volta das 22h de quarta-feira, apenas quatro horas após os tremores, o hospital havia esgotado insumos críticos, incluindo bandagens elásticas e vacinas contra o tétano. Moradores começaram a chegar com o que podiam oferecer, incluindo um homem que doou fraldas que haviam pertencido à sua falecida mãe. "Na primeira fase, as doações vieram dos próprios venezuelanos", disse Lorenzo. Agora, a resposta internacional está ganhando ritmo. Até a manhã de sábado, a Venezuela havia recebido 17 voos transportando mais de 1.600 profissionais de resgate, com a previsão de chegada de outros 25 nas 24 horas seguintes, informou o vice-ministro Oliver Blanco em uma publicação no X. Os EUA também enviaram dois navios militares, incluindo o USS Fort Lauderdale, para apoiar a logística e receber pacientes transportados por via aérea para tratamento de emergência. A chegada de hospitais de campanha móveis estava prevista para sábado, segundo autoridades americanas. Washington está mobilizando US$ 150 milhões em assistência humanitária e preparando um pacote de ajuda adicional no valor de centenas de milhões de dólares. Paralelamente, a CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe) lançou um fundo de recuperação com uma contribuição inicial de US$ 1 milhão — somando-se a uma doação humanitária de US$ 300 mil anunciada anteriormente — e apelou por apoio internacional e do setor privado. Enquanto esses recursos não são totalmente implementados, em La Guaira, centros de saúde improvisam tendas médicas e unidades móveis, ao mesmo tempo em que organizações humanitárias correm para levar suprimentos a instalações sobrecarregadas. Um desses grupos é o Project HOPE, que acelerou entregas que normalmente seriam distribuídas ao longo de várias semanas. Na sexta-feira, a organização enviou de 15 a 20 paletes de medicamentos, equipamentos e suprimentos de emergência para hospitais e centros de atendimento ambulatorial em La Guaira e no estado vizinho de Miranda. “A demanda tem sido extraordinariamente alta desde a noite de quinta-feira”, disse César Jiménez, gerente de subsídios e projetos do Project HOPE na Venezuela. “Estamos aumentando o volume de suprimentos que normalmente distribuímos e antecipando as entregas, pois os hospitais precisam deles agora.” Nos hospitais de Caracas, os médicos estão atendendo cada vez mais sobreviventes que sofrem as consequências de terem ficado presos por longos períodos sob prédios desabados. Muitos chegam gravemente desidratados após passarem dias sem comida ou água limpa, desenvolvendo rabdomiólise — uma condição na qual o tecido muscular danificado libera toxinas na corrente sanguínea —, o que leva à insuficiência renal aguda. Outros necessitam de amputações após membros esmagados perderem o suprimento sanguíneo. Médicos também começaram a se organizar fora das dependências hospitalares. Médicos voluntários oferecem consultas gratuitas de telemedicina pelas redes sociais para problemas de saúde leves, numa tentativa de reduzir a pressão sobre os prontos-socorros, enquanto psiquiatras publicam orientações para ajudar os sobreviventes a lidar com a ansiedade e o trauma. Nos hospitais, os médicos elaboram listas manuscritas dos pacientes internados e as afixam nas entradas para ajudar as famílias que buscam parentes desaparecidos. Isabel González-Bocco, uma médica venezuelana que vive em Boston, tem reunido esses registros e outras informações de médicos, jornalistas e familiares de pacientes, digitalizando-os em planilhas que se tornaram uma das principais ferramentas utilizadas pelas famílias para localizar seus entes queridos. “Tudo está sendo gerenciado por civis”, disse González-Bocco. Seu registro contabilizava cerca de 3.000 pacientes hospitalizados até a tarde de sexta-feira, embora ela tenha ressaltado que o número permanece incompleto, pois muitas vítimas chegaram sem documentos de identificação. No sábado, as autoridades informaram que houve mais de 12.000 atendimentos na área do desastre, incluindo cerca de 7.500 triagens rápidas. Os corpos resgatados dos prédios desabados são levados diretamente para necrotérios. Enquanto isso, uma plataforma administrada pela oposição registrava mais de 55.500 pessoas desaparecidas até sábado, ao passo que mais de 13.200 pessoas, anteriormente dadas como desaparecidas, haviam sido localizadas. Alguns hospitais particulares também abriram suas portas para atendimento gratuito. Uma clínica em Caracas atendeu mais de 20 vítimas do terremoto na noite de quarta-feira, mas havia recebido apenas duas até sexta-feira — ambas transferidas de La Guaira. Traumatologistas e cirurgiões se voluntariaram para reforçar as equipes de emergência. Médicos afirmam que a sobrecarga sobre os hospitais provavelmente mudará de foco, em vez de desaparecer. "Trabalhamos com o que tínhamos à disposição", disse Lorenzo após encerrar seu turno no Hospital Ricardo Baquero González. "Mas atendemos todos os pacientes que chegaram — e eles continuam chegando."
Terremotos na Venezuela levam sistema de saúde frágil ao limite
Até a tarde de sábado, as autoridades relatavam quase 3.240 feridos e um número de mortos que se aproximava de 1.430 em todo o país











