Quando vejo Ancelotti falar...ah que saudade de João Saldanha. E quando vejo Michelle falar...ah que medo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Rodrigo Santoro, em interpretação visceral de João Saldanha na pré-Copa de 1970, série da Netflix — Foto: Reprodução Eu queria continuar a falar só sobre Copa do Mundo. Sobre a fabulosa minissérie na Netflix que retrata a saga do tri em 70. Sobre Saldanha, Pelé e Zagallo. Quando vejo Ancelotti falar… ah, que saudades do Saldanha. “Retranca é a covardia em forma de estratégia”, dizia o gaúcho de Alegrete. “Futebol não é loteamento. Acabou essa ditadura da posição fixa. Quero todo mundo atacando e defendendo”. Já estava com minha pipoca para ver o Brasil enfrentar a fraca Escócia e se garantir para a próxima fase. Mas, minutos antes do jogo, adentra o campo virtual uma jogadora dissimulada, ambiciosa e oportunista, se disfarçando de feminista, uma “mulher de bem” derrubando o Flávio Bolsonaro com um carrinho por trás. “Fui humilhada, apunhalada, maltratada como idiota”. O vídeo no Instagram durou quase meia hora, dividido em dois tempos, com pausa para hidratação. Cenário certamente aprovado pelo treinador dela, o Jair, em prisão domiciliar. Nem o Neymar se esmera tanto no marketing dos símbolos. Tinha escultura do sinal “Eu te amo” em Libras. Estrela de Davi. Caneta esferográfica. Camisa com palavras que representam os “Frutos do Espírito”. Diplomas na parede. Tudo planejado. E ensaiado. Não foi um rompante espontâneo. Foi um cavalo de pau no jogo desesperado da direita bolsonarista. A madrasta Michelle saiu da defesa para o ataque e repetiu até palavrão: “cagando”. Coisa de macho no vestiário. Esperou o enteado Flavinho cair do ‘dark horse’ nas pesquisas. Apostou em sua bet pessoal, com a torcida evangélica e conservadora. Michelle quer ser escalada a todo custo. Como candidata a vice ou até a presidente da República. A vaga no Senado já está garantida. Mas eu não queria saber de Michelle. Meus valores são muito diferentes, seria eu uma “mulher do mal”? Queria maratonar a série em que Rodrigo Santoro brilha revivendo o João Sem Medo, apelido do Saldanha, que peitou o general Médici ao escalar a seleção de nossos sonhos. “Ele escala o ministério dele, eu escalo minha seleção”. Foi substituído por Zagallo. Virou comentarista no Mundial. Com o Saldanha cronista, convivi alguns anos no JB, ele de camisa social branca, mangas arregaçadas, fumando sem parar na redação que ainda permitia cigarros. Comunista, ateu, sem papas na língua. Texto irônico, sem firula, espirituoso. E outro mérito: botafoguense. Queria pedir a Sir Ancelotti que veja a série “A saga do tri”, são só cinco episódios. O jogo lento do Brasil contra Escócia encantou a alguns, que só enxergam placar. A seleção continua com o meio de campo pesado, e por isso Casemiro tem nota tão baixa entre torcedores. Não entendo por que Danilo Santos e Luiz Henrique não entram. Não entendo a demora nas substituições. O menino Endrick tem só alguns minutos para exibir seu talento. Será que vamos ter de engolir Ancelotti como engolimos Zagallo, o único tetracampeão da história? Só o tempo dirá. Ah, como eu gostaria de falar mais sobre essa série e sobre futebol. Agora não temos mais apenas um jogador para carregar o piano sozinho. Vini Jr teve a companhia do forte e habilidoso Rayan. Um dos pedidos da torcida. Não teve gol dele, mas teve meio gol. Marcou sob pressão, roubou a bola e entregou de bandeja para nosso artilheiro Vini abrir o placar com tranquilidade. Como eu gostaria de falar só de futebol hoje. Mas temos aí pela frente um adversário muito mais perigoso que Holanda, Suécia ou Japão juntos. Torço muito pelo Brasil, na Copa e nas eleições. Prefiro engolir o italiano tranquilo – e que ele nos traga o hexa – do que engolir as “mulheres de bem”. Cada um com sua dieta.
O bem e o mal, na Copa e nas eleições
Quando vejo Ancelotti falar...ah que saudade de João Saldanha. E quando vejo Michelle falar...ah que medo










