Acho que a intenção dos idealizadores da minissérie "Brasil 70", da Netflix, não era essa, mas eu não consigo ver finalidade melhor.
Quero crer que Carlo Ancelotti não terá à disposição durante a Copa nenhum material para suas preleções com o potencial dopamínico da minissérie. O penúltimo episódio, o jogo contra o temido Uruguai, é um verdadeiro levanta-defunto, se fosse de beber, seria um xarope de catuaba, um elixir da juventude.
Quem não der o sangue pelo Brasil depois de ver aquilo, melhor aposentar.
Colegas nesta Folha, inclusive Tostão, personagem que viveu a campanha do Tri como "falso 9" e é central na trama romantizada, tornado arquétipo pelos roteiristas por sua faceta divergente (leitor, politizado, com horizontes para além do futebol) e por ser "cria" do técnico João Saldanha, protagonista de um dos principais conflitos dramáticos da produção, contraponto a seu sucessor, Zagallo, já fizeram a exegese necessária: a minissérie tem inconsistências históricas, investe em conflitos possivelmente inexistentes, cria um Pelé que Tostão afirmou desconhecer. E é apelativa.
E é justamente aí, por ser apelativa, tão emocionalmente manipuladora quanto uma produção escandinava pós-Dogma, que ela pode servir à seleção de 2026, (quase) outra vez no México.















