Escala, agilidade e colaboração ajudam franquias a enfrentar um ambiente econômico e de consumo em transformação Agilidade, escala e trabalho colaborativo são alguns dos atributos do franchising que têm ajudado o setor a atravessar cenários econômicos complexos e transformações culturais e tecnológicas que impactam o comportamento do consumidor. A avaliação feita por Tom Moreira Leite, presidente da Associação Brasileira de Franchising, se confirma nos números. Em 2025, o setor faturou R$ 301,7 bilhões, avanço nominal de 10,5%. Desempenho que se mantém positivo descontada a inflação oficial do período de 4,26%, embora o impacto seja diferente em cada segmento. Os primeiros resultados de 2026 apontam para a manutenção da rota. O faturamento das cerca de 3.300 redes, que somam 204.908 operações, cresceu 10,1% frente ao mesmo período de 2025. “Em momentos de muita transformação, ter a estrutura de uma franqueadora como retaguarda torna o negócio mais preparado e longevo”, afirma Leite. “As marcas têm conseguido gerar inovação e dar acesso a investimento tecnológico a centenas de unidades, algo que seria pouco acessível se não operassem em rede”. Segundo ele, o crescimento não está mais concentrado em negócios tradicionais como no passado. A fotografia dos primeiros meses de 2026 registra avanço dos mercados autônomos, lavanderias, farmácias e cafeterias, confirmando demandas cada vez maiores por conveniência, saúde e espaço de socialização, resultado da mudança demográfica e de comportamento da sociedade. Mesmo com desempenho acima da média, o momento pede atenção. “A reforma tributária trará mudanças significativas e é preciso estar preparado em todas as frentes”, adverte Artur Grynbaum, vice-presidente do conselho do Grupo Boticário. “É papel da franqueadora antecipar o futuro e pavimentar a estrada para que o franqueado colha bons resultados”, diz. Com esse olhar, o grupo se tornou a primeira franquia de beleza do Brasil e do exterior a colocar a venda direta nas mãos do franqueado, saiu na frente na retirada do caixa das lojas físicas para dar mais fluidez ao processo de compra, deixando a cobrança a cargo dos vendedores, e foi pioneira ao criar o primeiro programa de sucessão em franchising. Leia mais: Apontada pela Euromonitor International como a maior franquia de beleza do mundo, com mais de 4 mil lojas (128 abertas em 2025, sendo 113 da marca O Boticário), presença em 1.700 cidades e vendas ao consumidor de R$ 38,1 bilhão em 2025, o Grupo Boticário combina inovação com escuta ativa da rede a fim de crescer melhorando a operação do franqueado e a experiência do cliente na ponta. Cerca de 27% das vendas em 2025 vieram de itens lançados há menos de um ano. “Franchising é aprendizado contínuo, agilidade, entrega de valor consistente”, diz Grynbaum. “Quem não entender que essa é uma jornada cada vez mais conjunta tende a desaparecer.” É papel da franqueadora pavimentar a estrada para o franqueado colher bons resultados” A opinião é compartilhada por Marcelo Cherto, fundador da Cherto Consultoria, que vê na inteligência coletiva do ecossistema um ativo que vale ouro, sobretudo em tempos de economia instável. “A franqueadora se nutre das informações e demandas geradas pela rede o que permite diminuir a imprevisibilidade, fazer ajustes mais rápidos e calibrar melhor as ofertas e serviços com adaptação para a operação local”, afirma. “É certo que não eliminam 100% o risco do negócio, mas reduzem o improviso, que em tempos de dinheiro caro é essencial.” Foi analisando nas entrelinhas as operações locais que o Divino Fogão diversificou endereços, ultrapassou os limites da praça de alimentação dos shoppings, que até então concentravam a maioria das unidades, abriu lojas de rua com áreas a partir de 250 m2 e expandiu em aeroportos. Em outra frente, passou a compor os bufês com base no fluxo de clientes. De janeiro a março de 2026, as vendas cresceram 18%. “Avançamos em praças estratégicas para ampliar a presença da rede em diferentes regiões do país”, afirma Rodrigo Varela, diretor de planejamento e novos negócios. A projeção é fechar o ano com 42 novas operações, totalizando 280, com faturamento médio mensal de R$ 400 mil por franquia. Se por um lado o cenário exige atenção, por outro, sinaliza oportunidades para quem enxerga o franchising como um caminho estruturado para ganhar capilaridade. É o caso do Grupo Veste, à frente das marcas Dudalina, Bobô e Lelis Blanc, que lançou a franquia da John John, grife de moda jovem urbana. “Nossa aposta é a franquia light, com lojas a partir de 60 m2, ideal para cidades entre 60 mil e 200 mil habitantes, tendo a dupla jeans e camiseta como estrelas”, diz Renata Viacava, diretora da unidade de negócios. “O investimento inicial é de R$ 450 mil e a meta é crescer de maneira gradativa, com até seis unidades em 2026.” Ter atenção redobrada ao modelo de negócio, investir em uma gestão cada vez mais profissionalizada e em boas práticas de governança são, na visão de Altino Cristofoletti, sócio-fundador da Casa do Construtor, condutas que devem ser reforçadas até mesmo pelas operações mais maduras. “As condições de temperatura e pressão mudam o tempo todo e não há como esquecer que o franchising é uma plataforma de negócios de empreendedor para empreendedor, as duas partes têm de estar imbuídas da mesma causa”, diz. “Capacitação é palavra de ordem. Contratamos mentoria para ajudar a rede a estruturar suas ferramentas de gestão, seleção e retenção de talentos.” Com faturamento estimado de R$ 1 bilhão em 2026, a Casa do Construtor espera fechar o ano com 60 novas operações, que se somarão às mais de 800 lojas na América Latina. Entre os três segmentos que mais se expandiram em 2025 - alimentação (12,9%); saúde, beleza e bem-estar (14,6%); e limpeza e conservação (16,8%) - o Grupo SMZTO, private equity especializado no mercado de franquias, está presente em dois. Em 2025, a holding manteve o ritmo de crescimento dos últimos dois anos, acima de 10%. As 15 marcas franqueadoras do portfólio registraram R$ 10 bilhões em vendas. “Qualquer negócio cresce na bonança, quando o mar está instável é preciso ter os melhores sob seu guarda-chuva”, diz José Carlos Semenzato, presidente do conselho da SMZTO. A holding investe em cinco grandes frentes: longevidade, saúde e bem-estar, mobilidade e economia circular, seguros e serviços e alimentação, somando mais de 4.200 unidades, com média de crescimento por marca de 18% a 20%. “O objetivo é seguir com cerca de três aquisições por ano. Anunciamos investimento na MedNet e até dezembro virão mais duas”, conta. “Os ventos estão favoráveis à expansão das holdings, porque somam expertise em gerenciamento de redes.” Para Eduardo Terra, co-fundador do Instituto Retail Think Tank (IRTT), a capacidade de dar respostas rápidas a cenários desafiadores é um dos principais diferenciais do franchising. “O mercado tem exigido decisões cada vez mais ágeis e assertivas e por ter a descentralização como essência, o sistema ganha velocidade”, afirma. “Uma frota de jetskis é capaz de realinhar a rota muito mais rápido do que um transatlântico e o franchising funciona assim.”
Franchising cresce com a força da rede
Escala, agilidade e colaboração ajudam franquias a enfrentar um ambiente econômico e de consumo em transformação









