0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O controlador do Digimais, bispo Edir Macedo, e o ex-CEO do Master Daniel Vorcaro — Foto: Infoglobo e Ana Paula Paiva/Valor Os agentes da Polícia Federal (PF) baixaram nesta semana em endereços ligados ao Digimais, banco do bispo Edir Macedo que estava prestes a ser comprado pelo BTG Pactual. A apuração da PF e do Ministério Público Federal (MPF) revela que a instituição seguia a cartilha criminosa do Banco Master: vendia CDBs aos investidores prometendo rendimentos bem acima do mercado e fraudava o balanço inflando o valor de fundos a partir de avaliações fajutas. O material mostra também que o banco forjava a venda desses fundos à holding do bispo, montando operações com vencimento lá em 2032 que dificilmente seriam concretizadas, mas eram registradas imediatamente nas demonstrações contábeis. Quando a auditoria pretensamente independente declarou que não era possível aferir a veracidade dos créditos, o banco simplesmente a trocou por outra. Só num dos fundos se constatou fraude de R$ 670 milhões, e já se sabe que há créditos podres em vários outros. Em 2025, a auditoria dispensada registrou em seu relatório não ter conseguido verificar fundos cujo valor total no balanço era de R$ 4 bilhões, porque o banco não forneceu nenhum documento para ser conferido. Calcula-se que deva chegar a R$ 7 bilhões o rombo do Digimais no Fundo Garantidor de Créditos, o seguro financiado pelos grandes bancos para cobrir as perdas dos investidores que tenham até R$ 250 mil aplicados em papéis como o CDB. As irregularidades começaram em 2023 e continuaram até agora. Até onde se sabe, o bispo Macedo vinha sendo cobrado pelo Banco Central (BC) a capitalizar o Digimais, mas conseguiu empurrar com a barriga e seguiu operando sem ser incomodado. Até a operação desta semana, não havia notícia de sanções impostas pelo BC ao banco, nem pela Comissão de Valores Mobiliários, (CVM) à gestora que administrava os fundos. Só há três meses, quando o Digimais já estava na bacia das almas, e os danos do Master estavam espalhados pelos ecossistemas financeiro e político, um relatório do BC sobre as fraudes aportou nos escaninhos da PF e do MPF. Hoje, quando se pergunta no mercado sobre o banco do bispo, a resposta dos farialimers é parecida com a que se dava sobre o Master antes de toda a sujeira de Daniel Vorcaro vir à tona: todo mundo sabia que era uma roubada. Tanto assim que, no final de 2025, quando os controladores precisaram contratar um novo CEO, acabaram fechando com Aldemir Bendine. Para quem não liga o nome à pessoa, trata-se do ex-presidente do Banco do Brasil que Dilma Rousseff colocou na Petrobras quando a Operação Lava-Jato levou à queda de toda a diretoria da petroleira em 2015. Bendine acabou preso e condenado a sete anos e nove meses por corrupção passiva. Executivos da Odebrecht disseram (e comprovaram) em delação premiada ter pagado R$ 3 milhões a Bendine para liberar um empréstimo quando estava no comando do BB. Apesar de tudo isso, em dezembro de 2025 o BC aprovou sua nomeação para comandar o Digimais. Afinal, a condenação havia sido anulada em 2019 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), na mesma Segunda Turma que hoje é palco de embate público entre os ministros André Mendonça, relator do caso Master, e Gilmar Mendes, que desde já trabalha para melar toda a apuração sobre os crimes de Vorcaro e companhia. No caso de Bendine, a nulidade encontrada por Mendes, Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia foi o fato de tanto ele quanto os delatores, réus no processo, terem recebido o mesmo prazo para apresentar suas alegações finais na primeira instância. Atenção: não é que Bendine não tenha ficado sabendo do que disseram os delatores, ou que não tenha tido chance ou tempo de se defender, e sim que, na fase final do processo, todos os réus tiveram de apresentar suas defesas no mesmo prazo. Registre-se, em favor de Bendine, que ele não foi alvo da operação no Digimais. Mas é significativo que só tenha conseguido voltar ao mercado e se tornar CEO de um banco que se revela uma fábrica de fraudes graças a uma brecha inventada por sua defesa e encampada pelo STF. A esta altura, ninguém ignora o acordão que se arquitetou no Brasil, em especial no STF, para cancelar o máximo de condenações impostas a corruptos, fraudadores e variados tipos de criminosos do colarinho branco nos últimos anos. Também não é segredo o esforço de alguns ministros para enterrar a investigação e proteger colegas enrolados com o Master. O caso Digimais, porém, fornece um quadro completo e acabado do tamanho do estrago que esse garantismo oportunista vem causando ao colocar a serviço da fraude um sistema que deveria trabalhar para fortalecer a Justiça e a democracia.