Banco de Edir Macedo usou mesma estratégia do Master para inflar captações, oferecendo remunerações acima do mercado de até 140% do CDI. Polícia Federal investiga operações 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 PF faz operação contra o Banco Digimais: banco de Edir Macedo é investigado por fraude contra o sistema financeiro — Foto: Aloisio Mauricio/Fotoarena via Agência O Globo) RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 24/06/2026 - 12:55 Banco Digimais de Edir Macedo Enfrenta Crise com Investigação da PF O futuro do banco Digimais, de Edir Macedo, está em risco após investigações da Polícia Federal por fraudes financeiras. O banco é acusado de inflar artificialmente seus CDBs oferecendo remuneração acima do mercado, estratégia similar à do falido banco Master. As negociações de compra pelo BTG foram suspensas. A Fitch Ratings rebaixou a classificação do banco, e o FGC pode precisar cobrir R$ 8 bilhões em CDBs. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Mesmo antes de ser alvo da operação da Polícia Federal, nesta terça-feira, por fraudes financeiras, o futuro das operações do banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, já era alvo de desconfiança na Faria Lima. Assim como o liquidado banco Master, a instituição vinha oferecendo remuneração muito acima do mercado para seus CDBs (Certificado de Depósitos Bancários), que ficavam entre 115% a 140% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário). O mercado vê a situação do Digimais se complicar, já que a compra do banco pelo BTG, que vinha sendo negociada, agora não deve sair do papel com as investigações da PF. — O BTG não vai querer colocar para dentro um problema como esse, pois após o negócio ser formalizado, o comprador é responsável pelo que surgir depois. Ficou bem evidente que a estratégia do Digimais foi parecida com o Master, ou seja, inflar artificialmente o patrimônio para poder emitir um grande volume de CDBs além do que seria possível — analisa Paulo Bittencourt, estrategista-chefe da MZM Wealth. Procurado, o BTG não comentou o negócio. Mas pessoas que acompanham as tratativas avaliam que a transação não deve mesmo seguir adiante. A agência de classificação de risco Fitch Ratings também vê a possibilidade de que o Digimais não honre seus compromissos financeiros, o que deve levar a instituição ao 'default' (atraso ou inadimplência de seus compromissos financeiros). A agência rebaixou a classificação da instituição e retirou todos os ratings, ou seja, deixou de acompanhar o banco. "O rebaixamento reflete a visão da Fitch de que a margem de segurança do banco é muito baixa, sendo a falha (“failure”) da instituição financeira e/ou o default uma possibilidade real, impulsionados por incertezas consideráveis em relação ao perfil financeiro do Digimais, bem como por restrições relevantes na avaliação da agência, decorrentes da ausência de informações atuais e da limitada visibilidade sobre a estratégia do banco. A capacidade de o banco manter suas operações sem suporte é altamente vulnerável a uma deterioração do ambiente de negócios e econômico", escreveu a Fitch. Riscos maiores com retorno acima da média Especialistas lembram que aplicações com rentabilidade muito acima da média carregam riscos maiores, mesmo quando contam com cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), espécie de seguro do sistema financeiro em caso de quebra de um banco para quem aporta até R$ 250 mil. Ao oferecer taxas de retorno superiores as do mercado, o banco vinha aumentando sua captação com CDBs. No final de 2023, esses depósitos de longo prazo (que incluem CDBs pré e pós fixados) somavam R$ 6,9 bilhões. Ao final de 2024, esse valor era de R$ 7,5 bilhões. No último balanço do banco divulgado em dezembro de 2025, os depósitos de longo prazo somavam R$ 8,4 bilhões. — Para quem comprou os CDBs só resta esperar o vencimento ou aguardar a liquidação e ser socorrido pelo FGC — diz Bittencourt, que avalia que vender os títulos agora pode significar perdas relevantes para os investidores. Os analistas lembram que a própria auditoria independente que analisou os números do balanço do Digimais, a Clifton Larson Allen Brasil Auditores Independentes (CLA), já tinha apontado inconsistências nas demonstrações financeiras do banco. Em 31 de dezembro de 2025, o Digimais possuía R$ 4,2 bilhões em fundos de investimentos. Desse total, a auditoria avaliou que em R$ 3 bilhões não foi possível auditar nas demonstrações financeiras dos fundos se havia necessidade de provisão de crédito para eles ou possíveis impactos nas suas cotas. "Não foi possível realizar procedimentos de auditoria persuasivos sobre tais investimentos em nossa data base. Desta forma, considerando que não obtivemos evidências de auditoria suficientes e apropriadas, não nos foi possível determinar os eventuais ajustes, se houver, nas demonstrações contábeis do banco", escreveu a CLA no balanço. Cotas dos fundos infladas A investigação da PF apontou, entretanto, que o Digimais inflou em quase dez vezes o valor das cotas de fundos em seu balanço, contabilizando ativos que valiam R$ 71 milhões por R$ 741,348 milhões. A diferença, de R$ 670 milhões, foi justamente o montante autorizado para bloqueio pela PF. A investigação indica que o banco usou uma estrutura de fundos para melhorar seus resultados contábeis. Se o cenário de liquidação se concretizar, o mercado avalia que depois de ter desembolsado cerca de R$ 50 bilhões para ressarcir clientes do conglomerado Master, o FGC terá que arcar com cerca de R$ 8 bilhões aos clientes com CDBs do Digimais. Resoluções do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional (CMN) limitaram o uso da garantia do FGC como estratégia de captação por bancos pequenos e médios, principalmente após o rombo bilionário causado pelo Banco Master. Em março, os bancos realizam um adiantamento de contribuições ao FGC para recompor o caixa da instituição. Houve uma antecipação de 60 meses de contribuições, num aporte extraordinário, que movimentou cerca de R$ 32,5 bilhões. Procurado para comentar o episódio do Digimais, o FGC informou que não comenta sobre associados. No balanço de 2025 do Digimais, a instituição informou ter contribuído com R$ 10 milhões ao FGC.