Antes de a Polícia Federal (PF) deflagrar a Operação Miragem, na terça-feira, contra o banco Digimais por suspeita de gestão fraudulenta, com bloqueio de bens de R$ 670 milhões, a situação da instituição era vista com desconfiança na Faria Lima. A investigação da PF aponta que o banco teria reproduzido o modo de operação do Banco Master, com a captação de recursos com promessa de rentabilidade acima da média do mercado — e uso do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como chamariz. Caso as suspeitas se confirmem, e a crise da instituição se agrave, o risco é deixar uma fatura de cerca de R$ 8 bilhões para o FGC. Além do modelo de captação de recursos, outros pontos de semelhança com o caso Master incluiriam, segundo a PF, ativos inflados e uso de uma teia de fundos como parte do esquema de manipulação contábil. Documentos mostram que o banco ignorou recomendações de auditores a operações e trocou a empresa responsável pela análise após alertas de inconsistências. O relatório da PF fala em “rentabilidade desproporcional” e cita a emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com remuneração de 110% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), a referência da renda fixa. As principais plataformas de venda dos títulos já suspenderam a comercialização de novos CDBs emitidos pelo Digimais (XP, Inter e BTG). Mas, em alguns casos, investidores que compraram os papéis fazem a venda no mercado secundário. Os títulos chegaram a pagar de 115% a 140% do CDI. O banco aumentou a captação de recursos nos últimos anos. No fim de 2023, os depósitos de longo prazo, que incluem CDBs pré e pós-fixados, somavam R$ 6,9 bilhões. No fim de 2024, o valor havia subido a R$ 7,5 bilhões. No balanço de dezembro de 2025, os depósitos de longo prazo somavam R$ 8,4 bilhões. Banco Digimais é controlado pelo líder religioso e empresário Edir Macedo — Foto: Reprodução / Facebook Analistas dizem que aplicações com rentabilidade muito acima da média representam risco maior, mesmo quando contam com o FGC, espécie de seguro do sistema financeiro, protegendo o investidor em caso de turbulência da instituição até o limite de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. Margem de segurança Caso o FGC seja instado a ressarcir investidores, isso representará mais um rombo nas contas do fundo. O caso Master levou ao ressarcimento de R$ 52 bilhões, quando se leva em conta Master, Master de Investimentos, Letsbank, Will Bank e Pleno (que não fazia parte do grupo). A fatura sobe em mais R$ 5,7 bilhões quando se inclui na conta a compra de letras financeiras de instituições liquidadas, dando fôlego aos compromissos antes que as instituições passassem por intervenção. Em março, bancos que compõem o FGC anteciparam 60 meses de contribuição ao fundo, em aporte de R$ 32,5 bilhões. Procurado para comentar o episódio do Digimais, o FGC afirmou que não comenta sobre associados. No balanço de 2025 do Digimais, o banco informou ter contribuído com R$ 10 milhões ao FGC. Depois do caso Master, entraram em vigor novas regras que tentam dificultar o uso do FGC pelos bancos para atrair investidores. Em abril, o BTG confirmou ter celebrado acordo preliminar para a aquisição do Digimais. Procurado, o BTG não comentou. Segundo fontes que acompanharam as tratativas, a avaliação é que a transação não deve seguir adiante. Na segunda-feira, antes da operação da PF, a agência de classificação de risco Fitch, rebaixou a classificação do Digimais e retirou todos os ratings, ou seja, deixou de acompanhar o banco. “O rebaixamento reflete a visão da Fitch de que a margem de segurança do banco é muito baixa”, diz. O banco foi avisado de que existiam problemas pelos próprios auditores. O Digimais trocou de auditor independente após alerta de inconsistência em cotas de fundos registradas em seu balanço, um dos indícios de fraude apontados na Operação Miragem. O banco é suspeito de inflar artificialmente ativos em seu resultado contábil para esconder dificuldades financeiras. Em nota, o Digimais afirma estar à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos e colaborar com as apurações em curso: “A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes”. Ressalvas de auditores A PF aponta que o Digimais tentou “induzir a erro” o mercado e o BC em relação a sua real situação financeira. Um dos principais indícios citados pela PF é um relatório de supervisão bancária do Banco Central (BC), enviado ao Ministério Público Federal, que aponta manobra contábil de R$ 670 milhões no balanço devido à supervalorização de cotas de fundos de direitos creditórios. No total, por meio de uma estrutura de fundos, ativos que valiam R$ 71 milhões foram registrados por R$ 741,3 milhões. Responsável pela auditoria independente do balanço na época, a consultoria Grand Thornton fez uma ressalva às demonstrações financeiras do Digimais, afirmando não ter condições de concluir se as cotas foram registradas com valor justo. “Em virtude de as premissas utilizadas para avaliação a mercado desses ativos não poderem ser verificáveis por falta de transações similares no mercado, não tivemos condições de concluir, através de procedimentos alternativos de auditoria, quanto à adequação dos respectivos valores registrados e a respectiva provisão prudencial reconhecida pelo banco em 31 de dezembro de 2023”, aponta o relatório da auditoria. Na época, o Digimais registrou R$ 855,537 milhões em cotas de fundos de direitos creditórios, avaliados a valor justo, tendo gerado receitas de R$ 520,758 milhões. O relatório de auditoria destacou que o banco havia apresentado plano de recomposição de capital e reestruturação de governança ao BC em março de 2024. Aldemir Bendine foi o terceiro presidente da Petrobras no governo Dilma Rousseff. Atualmente, é o presidente executivo do Banco Digimais — Foto: Givaldo Barbosa/Agência O Globo No plano, o banco se comprometeu com aumento de capital de R$ 250 milhões e reserva de recursos de R$ 200 milhões para fazer frente a perdas prováveis referentes aos valores justos reconhecidos nas aplicações de fundos. No balanço do primeiro semestre de 2024, a Grand Thornton fez nova ressalva no balanço pelo mesmo motivo. A consultoria disse não ter condições de concluir sobre a “adequação” dos valores. Depois, o banco trocou de auditoria independente, optando pela CLA Brasil. Os balanços do fim de 2024 e do primeiro semestre de 2025 não tiveram ressalvas, mas o relatório de dezembro de 2024 cita que houve ressalva em avaliações anteriores. No fim de 2025, a CLA Brasil destacou que não conseguiu aferir a veracidade dos valores registrados nos resultados referentes a diversas classes de fundos. De um total investido em fundos de R$ 4,233 bilhões, R$ 3,098 bilhões tiveram limitações identificadas: “Em decorrência dos aspectos acima mencionados, não foi possível realizar procedimentos de auditoria persuasivos sobre tais investimentos em nossa data base. Desta forma, considerando que não obtivemos evidências de auditoria suficientes e apropriadas, não nos foi possível determinar os eventuais ajustes, se houver, nas demonstrações contábeis.” As suspeitas de irregularidades na mira da PF Qual é a origem do banco? O Digimais surgiu a partir da compra do Banco Renner, fundado em 1981 pela família de mesmo sobrenome. O bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), adquiriu uma participação minoritária de 40% da instituição em 2009. Em 2020, o empresário assumiu o controle integral do banco, que passou a se chamar Digimais. Ponto a ponto da investigação Fundos inflados Fundos inflados - Banco Digimais — Foto: Criação O Globo A PF aponta que o Digimais inflou em quase dez vezes o valor das cotas de fundos em seu balanço, contabilizando ativos que valiam R$ 71 milhões e foram reavaliados até chegar ao montante de R$ 741,348 milhões. Superavaliação de ativos Supervalorização de ativos - Banco Digimais — Foto: Criação O Globo Além das cotas, outros ativos passaram pela “maquiagem”, segundo a PF. A lista inclui títulos sem valor da mineradora Vale avaliados em R$ 650 milhões, um terreno em Pernambuco marcado em R$ 150 milhões quando o valor real seria inferior a R$ 10 milhões, e a carteira de imóveis. CDBs e uso do FGC CDBs e uso do FGC - Banco Digimais — Foto: Criação O Globo A PF também aponta a oferta de CDBs com taxas acima de 110%, superior às praticadas pelo mercado. Assim como ocorreu no caso do Banco Master, o Digimais usava como chamariz o fato de a aplicação contar com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Crédito consignado e financiamento de veículos Crédito consignado e financiamento de veículos - Banco Digimais — Foto: Criação O Globo Principal ramo de atividade do Digimais, as carteiras de crédito consignado e de financiamento de veículos também foram consideradas suspeitas pela PF. As investigações apontam que foram superavaliadas, usadas para maquiar o balanço do banco.
Digimais pode deixar uma fatura de R$ 8 bi para o FGC; entenda
Fundo que protege depósitos já arcou com R$ 52 bi no caso Master. Banco de Edir Macedo havia trocado de auditor após alerta sobre inconsistências no balanço













