Há uma característica tradicional nas sociedades latinas: a centralidade das relações pessoais. Somos povos que valorizam o vínculo afetivo, a convivência, a solidariedade entre familiares e amigos. Ajudamos parentes, apoiamos vizinhos, mobilizamos grupos inteiros diante de tragédias. Mas embora sejamos reconhecidos pela empatia, ainda participamos pouco da filantropia individual estruturada.

Segundo o mais recente Censo do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), em 2024 o setor privado respondeu por 74%, ou R$ 4,3 bilhões, do investimento social no Brasil apurado no estudo. Famílias e contribuições independentes corresponderam a 26%, ou R$ 1,5 bilhão.

Nos Estados Unidos, no mesmo ano, o volume de doações correspondeu a US$ 592,5 bilhões. Desse total, 66% vieram de indivíduos e apenas 7% de empresas. Vale notar que o sistema tributário americano contribui para isso: doações a organizações qualificadas são dedutíveis do imposto de renda, o que cria um incentivo concreto à filantropia individual. No Brasil, mecanismos similares existem, mas de forma muito mais restrita e ainda pouco conhecidos.

Seria simplista atribuir apenas à renda a fragilidade da filantropia individual brasileira. Há também um componente cultural. Durante muito tempo, consolidou-se entre nós a ideia de que a responsabilidade pela transformação social pertence ao Estado ou às grandes empresas. O cidadão comum, mesmo quando deseja contribuir, muitas vezes não se percebe como agente relevante desse processo.